Vejam só o que o meu amigo Rogério Torres me apronta. Posta na minha linha do tempo uma foto de Wilson Reis. Há muito que me cobram escrever alguma coisa sobre ele, já que mantivemos uma relação muito estreita, ao longo de 13 anos, o que fez de mim um dos maiores colecionadores das inúmeras histórias que circulam em Duque de Caxias, envolvendo esta figura.

A fim de apresentá-lo ao distinto leitorado, vou começar dizendo que Wilson Reis foi um jornalista que chegou a Caxias, em 1974, para dirigir a sucursal de O Fluminense na Baixada. O jornal – então à beira de completar cem anos – era o maior diário do antigo Estado do Rio de Janeiro, com sede em Niterói, então capital. Além de jornalista, era radiotelegrafista, tendo trabalhado nos Correios por mais de uma década e se tornado dirigente sindical de sua categoria. Este último item de sua biografia custou-lhe a demissão do emprego e uma temporada na prisão, em 1964, quando foi companheiro de cela de ninguém menos que Mário Lago. Os milicos nem imaginavam o bem que estavam fazendo a ambos, juntando-os no mesmo confinamento.

Foi o artista plástico Barboza Leite quem nos apresentou, numa tarde de autógrafos de um livro, em que Barboza narra em versos o êxodo dos nordestinos, empurrados pela seca para o Sudeste. Nossa primeira conversa foi frutífera. Contei-lhe que já estava de saco cheio de ir em cana e que, por isso, passei a levar uma vida de semi-clandestinidade. Quando publicava alguma coisa, era nos jornais alternativos, tipo Pasquim, Repórter, Movimento, os quais, além de pagarem pouco, demoravam a pagar, pois, por serem de oposição à ditadura, tinham dificuldade de conseguir anunciantes. WR, então, me convidou a trabalhar com ele.Topei na hora e já comecei minha rotina de repórter do Fluminense, na semana seguinte. Isto foi em setembro de 1975.

Se voltar a trabalhar num jornal diário me deu novos ares de vida, a minha chegada à sucursal serviu de estímulo pra que ele dissipasse um pouco o mofo que se acumulara ao longo dos anos, naquele jornal centenário. Em menos de dois meses – enfrentando a oposição da vetusta diretoria – criamos uma página semanal sobre a Baixada, que revolucionou o jornalismo da região. Artistas, como os compositores Chiquinho Maciel e Edu Costa, atores Paulo Renato e Gilmar Giro, entre outros, que só tinham seus trabalhos divulgados nos semanários (ou devezenquandários), com circulação restrita à cidade, agora viam suas fotos estampadas num órgão que circulava em todo o estado e, ainda, no antigo Estado da Guanabara. Isto durou até 1978, quando WR, cansado de remar contra o conservadorismo da empresa, pediu demissão. Me demiti junto.

E continuamos a trilhar caminhos comuns, quer fazendo outros jornais ou militando politicamente. Após a anistia, assinada em 1979, Brizola voltou do exílio, disposto a refundar o PTB, de tantas lutas e vitórias. Nos juntamos ao líder gaúcho e começamos a articular a formação de um quadro petebista em Caxias. Não deu certo, pois o general Golbery do Couto e Silva decidiu dar a sigla de presente a Ivete Vargas. No que Brizola acenou com a possibilidade de criar um novo partido, fomos dos primeiros na Baixada a organizar um diretório do PDT. Por esta agremiação conseguimos eleger Juberlan de Oliveira prefeito da cidade, em 1985, quando assumimos a Assessoria de Comunicação Social do governo.

Porém, o melhor de Wilson Reis eu deixei pra contar no final. Foi, seguramente, o cara mais engraçado que já conheci. Sua graça não estava apenas nas inúmeras piadas que sabia contar, mas, sobretudo, em seu jeito de ser. Era dotado de um humor corrosivo, que muitas vezes levava interlocutor a receber como elogio ou aprovação, uma crítica mordaz embutida numa frase com duplo sentido. Extremamente distraído, era capaz de se meter em situações embaraçosas, das quais saia muito bem com algum comentário irreverente, dele ou de outra pessoa, que acabava por “justificá-lo”.

Numa noite, fomos a uma reunião com Brizola, na sede do PDT estadual. O líder queria ouvir as lideranças dos diretórios municipais, acerca das dificuldades que estavam encontrando em suas respectivas cidades. WR era o nosso vice-presidente em Caxias, levou consigo um relatório por escrito, a fim de ler para o já então governador do estado. Só que no caminho, comprou a edição da Playboy que trazia um ensaio fotográfico da Vera Fisher, guardando o texto entre suas páginas. Ao ser chamado a falar, o cara abriu a pasta, de onde tirou a revista, e pos-se a procurar o relatório. Revira daqui, revira dali e acabou a publicação caindo de suas mãos, bem diante do Brizola e dos companheiros e companheiras que compunham a mesa. Os olhares de todos se voltaram para o chão, onde se achava estendido aquele poster enorme, com a louraça exibindo sua vagina suculenta, emoldurada por pentelhos alourados. Não vou negar que ficou um certo mau-estar no ambiente. Mas Brizola, malandro que era, salvou nosso amigo do constrangimento, dizendo:

– Bem, o companheiro Wilson Reis, além de ser um pedetista aguerrido, é um homem de bom gosto.

Jornalista Wilson Reis