O ano era 1986 – primeiro do governo Juberlan de Oliveira (PDT), que inaugurava em Duque de Caxias uma série de inovações. Entre estas estava a criação da Secretaria Municipal de Agricultura, em cumprimento ao compromisso de campanha assumido com os camponeses da região do Capivari.
Como o secretário, Oscar Lacerda, não conhecia nada de agricultura – além da horta e das árvores frutíferas plantadas no seu sítio – o prefeito nomeou um engenheiro agrônomo para assessorá-lo e, por fim, carregar a Secretaria nas costas.
Pois foi esse agrônomo, cujo nome infelizmente não me ocorre no momento, quem me procurou certo dia na Assessoria de Comunicação, pra me falar de seu irmão, Carlos Augusto, que estudava balé e mantinha o sonho de se profissionalizar na dança. Pediu-me que fizesse uma reportagem com o jovem. Concordei.
Dias depois, ele voltou trazendo a tiracolo um garoto: não teria mais que 17 anos. Durante a entrevista, Carlos Augusto me disse que estudava balé há poucos anos, mas que estava para entrar no curso de dança do Theatro Municipal.
E acrescentou, entre outras coisas, que seu objetivo não era ingressar um dia no famoso corpo de baile daquele teatro, mas adquirir conhecimentos pra desenvolver um trabalho com danças africanas.
Fiquei encantado com aquele jovem, a partir do que me disse de forma tão incisiva, embora comedida. A matéria saiu na revista Caxias Magazine e Carlos foi pessoalmente me agradecer. Me deu um abraço fraterno e confidenciou: “É a primeira vez que sou entrevistado”.
O tempo passou a correr e o garoto, a dançar… dançar… até que Carlos Augusto se tornou Carlos Mutalla. Com este nome ele dançou Brasil afora, países a dentro. Viajou à África, de onde trouxe rudimentos de danças, que aplicou com seriedade em inúmeras coreografias que assinou.
Daquele distante 1986 aos tempos mais recentes mantivemos grande amizade um pelo outro. Nos víamos pouco, mas sempre de forma efusiva. É com muito pesar que soube hoje a notícia: o antigo garoto Carlos Augusto, o sempre atual Carlos Mutalla, cruzou a fronteira.
Mas vou confessar uma coisa. O pesar de hoje não supera o prazer com que eu acompanhava o seu sucesso, pela mídia ou pela boca de muitos amigos que temos em comum. Sempre que fiquei sabendo de suas apresentações aqui ou ali, fui vê-lo.
E vendo aquela figura seminua, semimágica, desenhando com o corpo ao som de tambores, eu, sem um pingo de modéstia, dizia pra mim mesmo ou pra quem estivesse por perto:
– Ah, este eu vi nascer.
Eldemar de Souza