A REALIDADE É MAIS CRUEL E TRÁGICA DO QUE QUALQUER IMAGINAÇÃO: quando o presságio da tragédia passa diante dos olhos
Este texto é um esforço para não me tornar cúmplice de algo tão violento, desumano e ameaçador. Ele me obrigou a fazer o que não gosto, critico e considero vergonhoso: mostrar cenas de violência e degradação humana para tentar mostrar a outras pessoas que a realidade e a ameaça fascista batem à nossa porta, sem recorrer à razão, à lógica, à fraternidade e à educação — o maior e mais importante construto humano.
Ao lidar diariamente com tantos jovens e pessoas em processo de formação, aprendizagem e construção de habilidades de leitura e interpretação crítica, percebo, diante da realidade que enfrentamos no dia a dia, que a negação da escravidão, da ditadura e dos processos históricos do passado pode nos alcançar novamente, de forma tão violenta e repentina que parece um pesadelo.
Poderia falar das histórias que escuto e venho acumulando em crônicas: falas tão desconcertantes que, em certos momentos, exigem tanto da nossa civilidade que nos levam ao abismo da explosão verborrágica. É o gesto do demiurgo que simula a realidade para distorcer a verdade e erguer a mentira como bandeira, sustentada pela destruição de tudo o que é contraditório, racional e lógico. Dois exemplos bastam.
O registro foi feito pelo jornalista francês Raphaël Bernard. Acessado em ICL.noticias
O primeiro caso ocorreu no dia em que um jovem disse que Bolsonaro havia criado o salário mínimo e afirmou não acreditar na escravidão, porque as imagens poderiam ter sido feitas com inteligência artificial. O segundo foi o de uma senhora que usou todos os argumentos possíveis para afirmar que não houve ditadura no Brasil e que o STF era culpado pela pobreza das pessoas. Naqueles dias, ela tinha certeza de que o Brasil vivia uma ditadura de esquerda.
Nos dois casos, ficou evidente que essas pessoas recebem informações por algum canal específico, se apegam a essas mensagens como única fonte de verdade e demonstram uma desconexão entre a realidade do presente e a do passado. Os dois exemplos contrariam a ideia, tão comum, de que as tecnologias e os meios de comunicação, por si sós, ampliariam o acesso a uma formação cidadã, crítica e civilizatória.
Essas duas falas, entre muitas que venho recolhendo e transformando em textos, mostram, em parte, que a imagem, o documento e o registro histórico — enquanto fatos — foram capturados pelo mundo simbólico, imagético e ficcional. Isso vai além do debate que acreditávamos estar contido na disputa de classes ou na história contada pelo opressor. Nesse mundo, a verdade não se apoia em evidências nem no exercício da reflexão, mas na forma como os discursos capturam os sentimentos, as fragilidades e os desesperos de quem não quer refletir nem pôr à prova aquilo em que acredita. É como a relação que construímos ao assistir a um filme de terror: nosso psicológico é capturado pelo prazer, pela revolta, pelo medo e pela reação, seja ela qual for. Afinal, o que importa é matar o monstro, a ameaça que construímos ao ver na tela algo que incorporamos como verdade.
Quatro imagens, uma mesma corrente
Olhe com calma para as imagens que acompanham este texto.

A gravura mostra africanos escravizados, capturados durante a expedição de David Livingstone, entre 1858 e 1864, seguindo em fila em direção ao lago Niassa, ligados por correntes e com forquilhas no pescoço. A pintura de Debret, de 1826, retrata a escravidão no Brasil e os corpos que carregavam a riqueza do país. A fotografia de Luiz Morier, publicada no Jornal do Brasil em 30 de setembro de 1982, mostra homens negros enfileirados, com uma corda no pescoço, caminhando em direção ao camburão. A própria legenda do jornal diz: “Como escravos”. A manchete ao lado anuncia: “PM prende e leva favelados pelo pescoço”. Era 1982, e o Brasil ainda vivia sob a ditadura. Agora, temos o vídeo divulgado pela ICL Notícias, de Raphaël Bernard, na orla do Rio.
Uma gravura do século XIX, uma pintura de 1826, uma página de jornal de 1982 e um vídeo de 2026 não foram feitos pela mesma mão nem para o mesmo fim. Mas repetem a mesma figura: alguém à frente, uma corda ou corrente no pescoço de outra pessoa e a vida ao redor seguindo como se nada acontecesse. Em nenhuma dessas cenas, o ato parece chocar quem passa.

Essa é a resposta que quero dar a quem diz que essas imagens “podem ter sido feitas com IA”. A gravura e a pintura são anteriores à fotografia, têm autoria e foram publicadas em obras. A página do jornal tem data, preço, outras notícias e a assinatura de quem fotografou, e pode ser conferida nos acervos. Nenhuma dessas imagens depende de que acreditem em mim: elas dependem de arquivo, fonte e checagem. O mesmo vale para o vídeo: quem o compartilha tem o dever de apontar sua origem, e quem o vê tem o direito de conferir. A verdade não nasce da emoção que a imagem provoca, mas do trabalho de verificar o que ela mostra.

O presságio
Nas histórias de terror da internet, o aviso do desastre costuma chegar assim: alguém abre no computador uma foto antiga da infância, da casa ou da família. A imagem começa a se degradar, pixel por pixel, e, no meio da distorção, surgem rostos que não deveriam estar ali. É o presságio de que algo terrível está se aproximando.
Nas tradições populares, a mesma ideia aparece no espelho. Quando a pessoa vê o próprio rosto turvo, escurecido ou manchado, sem que o vidro esteja sujo, diz-se que é sinal de morte na família ou de uma doença devastadora. O espelho não mostra só o corpo: guarda um pedaço da alma e, quando a imagem se deforma, é a alma que está avisando.
Passei a tentar apresentar aos meus alunos os motivos históricos que, ao longo dos séculos, estruturaram a desigualdade, a violência, a perseguição direcionada e a morte certa em vielas e favelas. Todo esse esforço e compromisso estavam calcados no desafio de desfazer aquilo que o desconhecimento — promovido deliberadamente pelas elites e pelo aparelho estatal — sempre ajudou a encobrir, mimetizando a realidade como ficção.
Nenhum filme de terror precisou inventar essa imagem. Ela é a foto corrompida de um país: a memória da senzala que insiste em reaparecer no cotidiano, como um rosto deformado que a história tentou apagar. É o espelho turvo que mostra o que nos recusamos a ver. A ficção nos assusta porque pede que a gente acredite no impossível. A realidade assusta mais porque não pede nada: acontece, e a gente passa.
Mas, diferentemente do terror, aqui o presságio pode ser desfeito. Foto corrompida não se conserta com susto. Espelho turvo não se limpa desviando o olhar. Conserta-se e limpa-se com memória, palavra e voto.
A cena de ontem, sábado, em uma das avenidas mais ricas e ostensivas do país, revelou o projeto que o governo miliciano tem para o Brasil.
Exercício de observação da cena obscena
A violência que nos esbofeteia de forma obscena expõe o desejo que se estrutura na cabeça de quem é contra o SUS, os direitos sociais, um modelo de educação universal e de qualidade, o salário mínimo, a escala 5×2 e a liberdade de circular pela orla do Rio de Janeiro com seus cativos acorrentados.
O conhecimento que cada um carrega
Este vídeo provocou em mim um impacto enorme, por tudo o que carrega como ameaça. As horas se arrastam e corroem minha sanidade, mas também reforçam a certeza de que, qualquer que seja o resultado eleitoral imposto amanhã, seguirei atento e firme. Tenho ainda mais certeza de que deverei me preparar, estudar e refletir, tanto individual quanto coletivamente, em consonância com os propósitos que assumi no lugar em que atuo. Quero continuar oferecendo o melhor daquilo em que acredito e que possa contribuir com minha classe, meu território e os sonhos que alimento por meio da educação.
Este vídeo registra o passeio vespertino da alta sociedade pela orla. Transformado em um microfilme, torna-se um documentário que comprime séculos de história em segundos e inquieta o sono, desconfortando os sonhos de quem planta esperança porque consegue enxergar, com os olhos de quem percebe o salto temporal que nos aprisiona, o maligno feito de um tempo que se repete e, combinado à farsa, encena a tragédia.
Penso nos meus alunos e em um exercício cujo caráter simples, mágico e impactante fui compreendendo ao longo dos anos. Em certos dias de aula, proponho às minhas turmas uma atividade que começa pela observação da imagem, da memória, dos signos e daquilo que conseguimos ver diante das situações da vida que nos são apresentadas. É uma leitura reflexiva de imagens, pinturas, fotografias, cenas de filmes, infográficos ou qualquer outra imagem relacionada à matéria que estou trabalhando naquele momento.
O tempo me ensinou que, para evitar a resistência, a recusa em participar ou a possibilidade de ficarmos parados por minutos ouvindo frases como “É isso aí, pô! É tudo que está aí!” ou “Sei não… O que é para eu falar? Está tudo aí. Sei lá. Um homem desenhado puxando uma carroça, só isso, pô!”, preciso começar conquistando a turma por meio de uma história que valorize o que aprendemos em casa, nas conversas com pais, avós e amigos.
Afinal, todos — absolutamente todos —, quando veem um beijo, um tênis da moda, alguém batendo em uma criança, uma pessoa traída ou um carro bonito, pensam alguma coisa: sonham, criticam, acham feio ou bonito. Começo, então, um trabalho de valorização da autoestima e da compreensão de que carregamos uma memória única, articulada às nossas ideias, à nossa maneira de nos comportar, aos nossos gostos e ao que pensamos.
Depois de mobilizar a memória afetiva e tudo o que os alunos carregam e sabem, convido-os a refletir sobre por que não somos estimulados a falar e a expressar o que sentimos. Conversamos sobre como situações de constrangimento e desvalorização de ideias e falas criam medo de se expressar — e sobre o quanto esse medo está ligado a processos de dominação que não sabemos ver, identificar ou romper justamente porque temos medo de falar.
Então, começo convidando-os a observar em silêncio — quando possível —, por um ou dois minutos, imagens impressas em papel, recortes de revistas antigas ou jornais, imagens na tela do notebook ou cenas de filmes. Peço que analisem o que está ali, mas que nem sempre conseguimos ver; que soltem a imaginação e reflitam livremente, tentando construir argumentos sobre o que compreenderam. Orientá-los a observar o momento histórico em que a imagem foi feita, os objetos, as construções, as cores, a natureza, as pessoas, as roupas, os olhares, os corpos e todo tipo de detalhe que compõe a cena faz parte do exercício.
Também explico que há, dentro de cada imagem, um número incontável de elementos que carregam uma enorme quantidade de informações não escritas — informações que não percebemos ou não conseguimos ler de imediato. O exercício de imaginar e tentar mostrar aquilo que não se vê é um caminho para desvendar o que está por trás da simbologia de uma imagem.
Após essa aparente digressão, sou levado a acreditar que esse exercício é fundamental para que nossa sociedade se disponha a enxergar aquilo que muitos não conseguem ver, sob o efeito caleidoscópico da metralhadora de fake news, dos disparos em massa de mensagens, vídeos, informações falsas, vozes, carros, lugares, discursos e vídeos feitos com inteligência artificial. É colossal a barreira psicológica que a negação da realidade ergue quando uma imagem ou um vídeo põe em xeque — e ameaça — o oásis de uma sociedade em que o “outro”, o diverso, aquele que defende a democracia, o respeito às regras e a igualdade de direitos deve ser dominado, violentado e exterminado em uma área pública, transformada em palco de espetáculo.
Convite à reflexão

Espetáculo como presságio
A todos aqueles que chegaram até este ponto do texto, agradeço, de antemão, pela atenção dedicada a esta manifestação pessoal, fruto da teatralização da escravidão como espetáculo por uma parte da sociedade que perdeu o pudor e demonstra, à luz do dia, que deseja recuperar seu lugar de senhora da casa-grande. Faço aqui o mesmo convite que proponho aos meus alunos: o exercício de ver, refletir e se manifestar. Peço, gentilmente, que, durante alguns instantes, vejam o vídeo e as três imagens e depois participem de um exercício de escrita nos comentários, descrevendo o que viram, perceberam e refletiram; o que os machucou ou instigou; e o que transformou seu olhar e sua atenção ao documento histórico em um instante de reflexão.
Assim como faço em minhas aulas, começo por mim, para incentivar os mais acanhados.
O que eu vejo, sinto e descrevo?
Começo por mim, porque esse lugar me é muito familiar e desperta minha memória de infância. Quando criança, ajudei muitas vezes minha mãe a fazer faxina nos apartamentos da Zona Sul. Saíamos do Mata-Moleque, um bairro de Belford Roxo, às 4h30, para trabalhar na Lagoa, em Ipanema ou no Leblon. Minha mãe era empregada doméstica, nordestina e analfabeta, e via no trabalho uma espécie de ethos, de sacerdócio: acreditava que conquistaria o reconhecimento dos patrões. Dedicava-se a limpar e arrumar apartamentos inteiros, com janelas enormes. Para limpá-las, dependurava-se com mais da metade do corpo para fora e, às vezes, ficava em pé no parapeito. Fazia isso de maneira tão meticulosa que não podia embaçar a visão das madames e dos patrões nem atrapalhar o regozijo deles ao contemplar o mar.
Vejo na cena um homem negro, com uma camisa que remete a uma vestimenta bastante popular, preso pelo pescoço e conduzido por outro homem branco, que lhe dirige palavras humilhantes.
O homem escravizado carrega um número nas costas.
À frente dos dois, dos lados e nas calçadas, outras pessoas brancas observam a propriedade humana em desfile. Seguem caminhando, rindo, contentes e cúmplices do desejo de ver outras pessoas negras humilhadas e acorrentadas por forquilhas.
O céu, os coqueiros, a presença do mar e sua brisa me remetem a um dia normal e tranquilo de quem passeia pelas ruas em direção à praça do comércio próxima. Não fossem o carro, as luzes e alguns detalhes da vida atual, eu julgaria estar nos séculos XVIII ou XIX, diante de um senhor de escravos conduzindo um escravizado de ganho para realizar serviços para outros senhores.
O que você vê e sente?
Você, amigo leitor que chegou até aqui, peço a gentileza de fazer um esforço a mais: concentre por um minuto sua atenção no vídeo e nas imagens e, depois, responda nos comentários:
O que você está vendo no vídeo e nas três imagens?
CORRENTE NÃO É FANTASIA.
É dor, é história, é uma ferida que o Brasil ainda não curou.
Hoje, a gente decide de que lado dessa imagem quer estar.
Por Eduardo Prates, às 23h54 de 24 de outubro de 2026
Horas antes da eleição mais decisiva para o futuro de uma nação que se envergonha de ser tudo o que não consegue acreditar.
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