O ano era 2013, o telefone tocou após às 19h no gabinete da Secretaria de Meio Ambiente, do outro lado era o jornalista Nelson Moreira, então chefe da edição Baixada do Jornal O Dia. Ele disse que o jornal iria homenagear Dom Mauro Morelli com o Prêmio Alma da Baixada e outros nomes de luta seriam homenageados. Perguntou: ” Marroni, quem em Caxias merece esse reconhecimento?”. Na hora ao lado da secretária Lauricy Fátima de Jesus, nos veio o seu Daniel.

Não havia nenhum outro cidadão na Baixada Fluminense que mais honrasse para ser a nossa Alma que o companheiro Daniel. Há cerca de um mês estive na Vila Guiará visitando nosso velho marinheiro. Fomos a beira do canal Jacatirão onde me apresentou um monte de “coisas erradas”, os horários de cheia do “valão” e depois fomos a um bar. No cardápio queijo, cerveja preta (Malzebhier), um bêbado chorando de dor de corno e com o karaokê no último volume. Daniel que era pavio curto logo reprimiu “Oh, cidadão, eu quero conversar. Dá para baixar seu som um pouquinho?”. O bêbado chorando, mas respeitando o mais velho, cumpriu o pedido em forma de ordem.

Daniel tirou sua máscara e disse “pra ficar com isso o dia todo, fiz uma cesta com ervas para não ficar sentindo meu bafo”, riu. Depois a boina para guardar a máscara e colocou na cabeça. Falamos de política, de meio ambiente, da nossa campanha e que ele estava confiante que o povo havia acordado. Fui deixar ele em casa e duas vizinhas fizeram o vídeo que postei dias atrás ao seu lado, onde declarou apoio e voto na nossa campanha.

Na quarta seguinte fomos visitar o Jose Miguel da Silva na Cidade dos Meninos. Chegamos lá às 11h, Miguel já foi deixando ele pé da vida com as encarnações e entre uma brincadeira e um papo sério, fomos conversando até 18h. Depois deixei ele na Casa Lotérica no centro de Caxias. Estava nervoso para pagar a luz que haviam cortado em outro momento por atrasar a conta.

Daniel, era o principal símbolo e figura dos movimentos sociais na cidade. Torneiro mecânico de profissão, Daniel é fundador do Partido dos Trabalhadores, membro do MUB e conhecia mais que ninguém os rios, a questão da água e saneamento básico da Baixada Fluminense. Aprendi com ele onde estão as montantes a jusantes. Deu aula em muitos engenheiros por aí!

Obrigado seu Daniel. Como você disse no seu discurso ao receber o Prêmio Alma da Baixada: “Um marinheiro tem que resistir! Mesmo que seja no porão do navio, assim como fez o Almirante Negro João Cândido”. A COVID te levou, mas sua luta seguirá meu querido, meu velho, meu amigo. Você sempre dizia reclamando das pessoas: “Ah, mas Daniel é quem fala demais!”. E agora, Daniel, como fica nós que gostávamos de ter ouvir? Quem vai ser o reclamão nas reuniões da nossa diretoria do MUB? E os frangos no Raul Cortez pós reuniões? E os cafés na Praça do Relógio? Siga em paz, Alma da Baixada!

Daniel, presente! A família nosso abraço carinhoso.


Marroni Alves

Filho da escola pública e de pernambucanos. Nascido no Hospital Duque, mas sempre no Hospital Infantil. Formado em História na FEUDUC, dou aula em pré-vestibular comunitário na Vila Ideal, Jardim Gramacho, Complexo da Mangueirinha e Xerem.

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