Dia 28/12/12, exatos dois meses do segundo turno das eleições municipais 2012.

Com o agravamento da questão caótica do lixo na cidade é compreensível que as atenções da próxima gestão estejam emergencialmente voltadas para o assunto.

Mas a demora do prefeito eleito em anunciar o nome que ocupará a Cultura no município tem deixados dúvidas sobre o grau de prioridade que a pasta terá, pasta esta geralmente depreciada, com orçamento ridículo, sem corpo técnico de carreira e quase sempre usada como encosto de aliados políticos sem nenhum conhecimento do metiê cultural. O que sempre acaba criando situações de constrangimento para os heroicos que ainda tentam fazer a máquina andar a favor da Arte e da Cultura na cidade.

Grupo de transição na Cultura inexistiu ou se existiu, trabalhou em um incrível silêncio, sem nenhuma consulta à comunidade.

Este texto é apenas um indicativo de atenção, com uma certa dose confessa de preocupação; porque, óbvio, o cara ainda nem sentou na cadeira… Mas, além da Cultura estar em evidência, bombando em vários cantos do mundo, reconfigurada em sua importância para o crescimento das democracias, em Caxias nos últimos anos têm florescido movimentos culturais e grupos artísticos que têm trazido novos ares para essa cidade tão vitimada pela imagem péssima construída ao longo dos anos.

E fora que um número muito significativo de militantes da Cultura apostaram na candidatura de Alexandre Cardoso no segundo turno como uma possibilidade de dar a visibilidade merecida e urgente ao setor. De pensar a Cultura como processos e não como eventos; uma secretaria de Cultura de verdade e não uma secretaria de Entretenimento e tapinha-nas-costas.

Atacar urgentemente as sequelas e feridas expostas, do momento, como nas áreas da limpeza urbana, saúde, educação e trânsito, são fundamentais e prementes – fato. Mas que isso não seja argumento para mais uma vez deixar a Cultura como apenas uma secretaria decorativa.

E na verdade, nem é preciso a tentativa de reinventar a roda; o programa de governo debatido na campanha e apoiado por amplos setores culturais da cidade já dão o tom do que é preciso fazer. E o fundamental é: o diálogo com os atores da Arte e Cultura na cidade e o compromisso com a implantação do Plano Municipal de Cultura. Uma vez que desde 22 de novembro último o Sistema Nacional de Cultural é lei, a cidade tem que se adaptar e fazer o dever de casa. E isso está mais do que coberto com as propostas do plano de governo divulgado na campanha.

Logicamente, que acrescentaria três comentários necessários e que vejo sendo pouco falados. Um envolve um puxão de orelha em uma parte da comunidade cultural da cidade que ainda insiste em apostar no modelo de balcão, do caso a caso, do pires na mão, pedindo recursos para suas atividades, como se o poder público tivesse que abrir a carteira para projetos específicos, dos amigos. É desagradável tocar nesse assunto, mas é preciso de vez em quando lembrar disso para que estas práticas percam força. Ess comportamento tem grande responsabilidade pelo fato dos políticos em geral ignorar a Cultura solenemente.

Outra coisa é que é fundamental ampliar as redes artísticas e culturais da cidade, conectando centenas de pessoas que têm feito muito pela Cultura, mas vivem à margem dos recursos e das articulações. É uma molecada forte produzindo, botando trabalhos interessantes na rua; também são os fazeres e saberes que representam a força cultural da cidade, que extrapolam o campo clássico apenas do teatro, da música, das artes plásticas, e avança pela comida, pelas manifestações religiosas, pelo circuito underground, pelas atividades tradicionais, pelo patrimônio imaterial, pela História….

Por fim, a próxima secretaria de Cultura precisa dar demonstrações claras de que o legado do programa Cultura Viva é uma referência de ação transformadora e emancipatória do país, mesmo que esse nome não seja creditado. Mas a liga está lá e as milhares de iniciativas surgidas nos últimos anos com êxito têm essa marca da Cultura Digital, dos Pontos de Cultura, da política de Editais Públicos, do software livre, da gestão compartilhada, da Economia Solidária… Os materiais gerados nas discussões das Conferências de Cultura, por exemplo, são um patrimônio e um arquivo riquíssimos para se pensar os rumos da Cultura hoje. Basta ver exemplos atuais como o Movimento Social das Culturas, conjuntos de redes que estão na vanguarda da transformação do país pela Cultura. Penso que seja nessa direção que a Cultura em Caxias precisar apontar e seguir.

Que o debate de ideias prossiga!

Fecho com uma frase que ouvi da professora Ivana Bentes, da Eco/UFRJ, que nem sei se é de autoria dela: “a Cultura é o verdadeiro pré-sal brasileiro”.

 

Heraldo HB, animador cultural, produtor audiovisual, nascido no século passado.


heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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