A acachapante derrota nas urnas do Amiguzito e seu grupo certamente representa o fim de uma era na cidade; não que haverá mudanças tão radicais assim no cenário pós-eleição, mas sim pelo fato de que ficou evidente que é preciso virar a página tosca de condução de um município tão rico e pródigo quanto Duque de Caxias.

Em que pese a avaliação de uma pretendida importância histórica do prefeito (como, por exemplo, ter tirado de cena o pesado Hydekel), já era sem tempo a necessidade de superar uma administração pautada no personalismo sustentado de modo autoritário e estreito. A falta de dinamismo e diálogo com a sociedade só deixava claro a ausência de um projeto de cidade, com planejamento, estratégia e um pouco de criatividade e humanismo. Aliás, qualquer olhar um pouco mais apurado para a prefeitura e a Câmara revela uma vergonha alheia gigante, tal o grau de miopia política e administrativa – e sem falar de ética…

No último ano, bastava um pouco de humildade de nossas autoridades para sentir nas ruas, nos bares, nos ônibus, em todos os cantos um clima de insatisfação e revolta com o quadro de abandono em que a cidade foi deixada nos últimos vinte anos. Era evidente que as urnas refletiriam esse sentimento de alguma forma. Mas o recado das urnas ainda deixou evidente também a dependência criada pelo assistencialismo, pela bala e pelo poder econômico, e é esse cenário tétrico que a cidade ainda precisará superar para chegar a um nível mínimo de civilidade.

A Câmara municipal sempre foi o lugar mais mal frequentado da cidade, reduto de gente ligada a matadores, milícias, grileiros de terra e religiosos picaretas e as exceções sempre tiveram dificuldade de romper essa lógica macabra. E agora não dá mais para esperar: é preciso que a população comece a influenciar os caminhos do legislativo, forçando que a Casa venha a discutir as pautas urgentes para a melhoria da qualidade de vida na cidade.

O desafio do próximo prefeito tem a ver com isso: abrir diálogo com a sociedade no sentido de ampliar a participação, afinando com as mil possibilidades abertas pelo próprio processo de aprofundamento (lento ainda) da democracia brasileira. Mesmo com as críticas, não há como negar que a país tem construído ferramentas importantes como a Lei de Acesso à Informação, a Ficha Limpa, Transparência, transferência de renda, as experiências bem sucedidas de orçamento participativo, de software livre, de mobilidade urbana, de economia solidária, inclusão digital, gestão compartilhada etc.

Enfim: o resultado da eleição pode representar uma espécie de marco zero na construção de uma cidade mais humana e racional; um alicerce mínimo que seja para que Caxias saia desse marasmo em que se encontra.

Independente da composição ainda tosca do legislativo, independente das pressões dos velhos vícios do toma-lá-dá-cá, independente da primazia das velhas práticas coronelistas, é a hora do cidadão começar a pautar a política, debatendo e pressionando esses que deveriam ser nossos empregados.

Otimismo demais pensar isso? Talvez, mas uma coisa é certa: os ventos de mudança que tem soprado pelo mundo a fora chegaram a Duque de Caxias e o próximo prefeito pode ter a chance histórica de começar o processo de refundar a cidade.

O desafio está lançado.


heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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