… O dia em que a gigante acordou… Nós somos as gigantes… Reminiscência do Morro do Sapo…

Reminiscência do Morro do Sapo - Sílvia de Mendonça

Minha irmã primeira, Maria da Conceição (1936 – 2017), morou com seu esposo e quatro filhas por décadas na antiga Rua Grota Funda, hoje Himalaia, ou mais conhecido como Morro do Sapo (nome dado por ter uma rocha parecida com um sapo), no bairro Centenário, em Duque de Caxias. Morávamos do outro lado da cidade, na antiga Rua Itacolomi (na língua Tupi menino de pedra), na Vila Itamarati. Quando crianças atravessávamos a ferrovia da cidade, com nossas mais velhas, para chegar até sua casa. Para mim era uma grande aventura ir até à casa dela caminhando, e quando chegava sentia profunda emoção por poder ver grande parte de Duque de Caxias e da orla da cidade vizinha. Afinal eu iria rever aquele que me tirou o sono durante anos, o “gigante de pedra deitado”, porque foi assim que minha irmã me apresentou, quando criança, as rochas da cidade do Rio de Janeiro, e eu só imaginava o dia em que ele acordasse, levantasse.

Uma vez num réveillon passado lá só imaginava aquele perfil esquemático levantando com tantos brilhos que víamos da nossa geografia, tendo como cenário a orla marítima da cidade maravilhosa. O olhar sobre essa geologia, história, ecologia e dinâmicas sociais incorporadas à geografia me fez perceber uma paisagem com vários aspectos do ser humano, e me coloquei nesse cenário veloz, que muitas vezes me fez perder a capacidade de refletir sobre mim mesma e as realidades que nos cercam.

Voltando ao místico ou o poderoso gigante, comecei a pesquisar sobre o que via e que somente tinha ouvido da minha irmã. As forças da natureza são dinâmicas e seus fenômenos sempre nos intrigaram, e isso me motivou a despertar e transmutar o visual até chegar àquilo que eu sempre identifiquei como alguém que dormiu, e que um dia iria acordar como o gigante. Para mim esse fenômeno era cinematográfico, digno de uma película exuberante, medonha e, ao mesmo tempo, que me permitira ter uma beleza cênica que já foi real, capital e hoje se traduz no mal, justamente, nos seus morros.

Fui descobrir o que da forma ao gigante de pedra deitado, imponente no seu sono profundo ou casual, e viajei. Durante anos pesquisei onde podia, até que, ainda adolescente, o descobri de perfil, como sempre o foi. Agora deitado em sua cama tem cabeceira na Pedra João Antônio, Pico do Papagaio e Morro do Elefante. Sua testa é o Pico da Tijuca, os olhos o Pico do Grajaú, o nariz o Andaraí Maior e sua boca a Pedra do Conde, com um tórax constituído pelas rochas que vão do Morro Anhanguera até suas mãos entrelaçadas formadas por uma cadeia de morros chegam aos seus joelhos e pernas dobradas, que recebem a forma de uma montanha emblemática, imagética, o Morro do Corcovado, que em suas curvas, a partir das suas mãos e, em silêncio, diz que somos indissociáveis entre visíveis e invisíveis, matéria e espírito, zona oeste e zona sul, morro e asfalto. Nosso imaginário não parava até chegar ao que nos sustenta, o de Pão de Açúcar. Que tem esse nome por conta também da sua base indígena “Pau-nh-açuquã” da língua Tupi, dado pelos Tamoios, os primitivos habitantes da Baía de Guanabara, significando “morro alto, isolado e pontudo”. Minha ligação com o povo indígena: meu pai neto de índios também, nasci num dos morros batizados com nome indígena, assim como o Pão de Açúcar.

Poderia citar aqui toda a cadeia de rochas que despertaram em mim a necessidade de responder: Quem, O quê, Quando, Onde e Por que estamos aqui? Descobrir é mole, difícil é executar. Queremos que nossos passos e vidas sejam doces. Quero ultrapassar fronteiras e trincheiras, romper como que nos impede de acordar nossos gigantes adormecidos. Resisto e quero construir, coletivamente, a Paz Possível.

Sílvia de Mendonça, a Rocha.


Sílvia de Mendonça

Formada em jornalismo e produção cultural, Sílvia de Mendonça também é atriz e ativista do Movimento Negro Unificado (MNU). Também tem presença nas lutas contra intolerância religiosa, juventude negra e direitos humanos.

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