segunda mostra frente de teatro - duque de caxias 2020

Pela fresta da cortina da sala exibia-se a luz daquela manhã de domingo. E eu que passara a madrugada a fio sobre leituras e videos de Bertold Brecht e Augusto Boal, percebi o impacto que o dia anterior havia causado em mim. Eu tinha pela primeira vez ido ao Teatro Raul Cortez, em Duque de Caxias, assistir a algumas peças teatrais na 2ª Mostra de Teatro Frente, e aquela experiência havia estartado alguma coisa. Não que eu não houvesse ido ao teatro antes na vida, pelo contrário, mas na minha cidade, na periferia, aquela foi, a vez, primeira. E também, não que eu tenha ficado o tempo todo dentro do teatro, pois nem o teatro ficou o tempo todo dentro dele mesmo, dada a sua expansão, ele foi à rua. E foi justamente este ímpeto de transbordar para além de si, que o teatro acabou por respingar em quem pela Praça do Pacificador ambulava. E quem ambulava, em sua maioria, assim como eu, pela primeira vez estava vendo o que os olhos eram capazes de ver, ouvindo o que os ouvidos ainda permitiam e transcendendo para um possível mundo onde tudo aquilo que estava sendo representado teatralmente fosse superado. Em dado momento um sujeito negro, magro, alto, de chinelos, desdentado no front, e carregando um instrumento improvisado onde eram presos vários saquinhos transparentes de algodão doce, olhou para mim, ao seu lado, e falou que era assim mesmo que as empresas faziam, que elas só queriam usar o trabalhador. Ele se referia a peça “Estamos em Obra” do Coletivo Sala Preta.

Após ouvir aquilo eu já não consegui mais prestar a atenção na peça, minha mente de maneira involuntária buscava estabelecer relações entre o que aquele homem havia me falado, não apenas pelo o que havia falado, mas o fato de ter falado, e logo fui empurrado ao abismo fischiano de “A necessidade da Arte” um livro de 1958 em que o escritor Ernst Fischer percebe a arte como uma substituta da vida, assim como aquele sujeito retinto que falou comigo percebeu. Lembrei-me que neste livro o autor austríaco discorre sobre o pensamento do alemão Bertolt Brecht. Segue o trecho que lembrei e que tão logo sentei em uma cadeira de bar, ali mesmo na praça, para pesquisar na internet:

“No mundo alienado em que vivemos, a realidade social precisa ser mostrada no seu mecanismo de aprisionamento. posta sob uma luz que devasse a “alienação” do tema e dos personagens. A obra de arte deve apoderar-se da platéia não através da identificação passiva, mas através de um apelo à razão que requeira ação e decisão. As normas que fixam as relações entre os homens hão de ser tratadas no drama como “temporárias e imperfeitas”, de maneira que o espectador seja levado a algo mais produtivo do que a mera observação, seja levado a pensar no curso da peça e incitado a formular um julgamento, afinal, quanto ao que viu: “Não era assim que devia ser. É estranho, quase inacreditável. Precisa deixar de ser as- sim”.”

Fiquei ali sentado, e aproveitei o pouso para pedir uma gelada, e continuei a observar o movimento da praça, o movimento das pessoas, o movimento das ideias. Pensei que provavelmente eu não seria o único naquele momento sentado ou em pé na praça a pensar o que estava pensando. E o que eu estava pensando era que seria ótimo ter aquela praça cheia de teatro, de ideias, de pessoas, de identificação ativa, de inconformismo, sempre. Dei uma golada na cerveja para hidratar o pensamento que logo articulou que a arte na periferia será o gatilho da revolução que acontecerá antes do fim do mundo. E já agora ao levantar-me da cama e sentando a frente do meu computador com minha caneca de café na mão direita, me deparo com este texto. Parece-me que o dia de ontem foi um sonho, que deixou rastros materializados. Espero que ele se repita.

.

Osmar Paulino (@osmar.paullino) é geógrafo e fundador do FAIM (@faimfestival)


Osmar Paulino

Professor de Geografia, Articulador Cultural, Produtor do FAIM, Festival de Artes de Imbariê

More Posts