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O enredo da Acadêmicos do Grande Rio no Carnaval desse ano tem cavucado aqui lembranças pessoais muito intensas – por ser fã do Chico Science e por lembrar como o movimento manguebeat mexeu com minha cabeça/coração quando foi lançado.
A relação com Pernambuco começou cedo na minha vida. Quando criança, a cidade de Caxias tinha praticamente um município pernambucano dentro dela e, de família paraibana, fui criado ouvindo muito Luiz Gonzaga, Reginaldo Rossi e outros pernambucanos geniais. Depois mais jovem, vieram Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lenine, entre outros, e finalmente, em 1991, entrei em contato com a arte de Antônio Nóbrega, fascínio que se tornou arrebatador depois que assisti no teatro do BNDES aos espetáculos Figural e Brincante. Uma porrada. Fora que sempre alimentei o sonho de passar uns meses ali pelo Vale do Pajeú, principalmente em São José do Egito, terra da poesia.
Então Pernambuco já era um universo conhecido pra mim. Mas aí vieram o Chico e a Nação Zumbi.
Seguramente fui uma das primeiras pessoas em Caxias a ouvir o Da Lama ao Caos. Tem uma explicação: meu amigo André Oliveira era da direção nacional do PSB na época e esteve no Recife naquele momento onde havia uma efervescência bombante por lá em todos os campos das artes. E era um momento em que Ariano Suassuna estava secretário de Cultura do Estado e Eduardo Campos, como secretário de Governo, começava a se destacar por ações de política pública de Cultura que viriam a florescer nos anos vindouros. Muita discussão, muitas propostas e articulações. A gente ouvia os ecos aqui; da movimentação da galera de Cinema e principalmente de ações como o Festival Abril Pro Rock, na época uma das principais janelas para as bandas mais inventivas do país.
André, espírito velho e ao mesmo tempo um cara antenado com o novo desde moleque, trouxe o disco na bagagem e foi quem me falou pra prestar muita atenção naquilo. Ouvi o disco na casa dele e foi outra porrada. Era música, mas não só – era aquele papo do espírito do momento, da síntese de coisas no ar.
Dois anos antes o Gilberto Gil, Mestre Gil, já tinha lançado um disco fenomenal, Parabolicamará, que tinha na contra-capa uma imagem também icônica, resumidora, que era uma mulher negra com um balaio-parabólica da cabeça. Muito forte e já apontando para a síntese daquele momento. Mas talvez porque o Gil já fosse um artista consagrado, com aquela capa da tal MPB, mainstream, sei lá se é isso, o fato é que não teve eco na juventude, não teve a força para impulsionar um movimento amplo como poderia ter sido. Já a imagem da parabólica fincada no manguezal do Recife teve um efeito de síntese que mobilizou aquele momento e catalisou tudo. Isso quando as redes digitais já começavam a borbulhar uma possível utopia que chegaria com a Internet em julho de 1995 (sim, a internet já foi uma utopia de libertação em algum momento do mundo…).
O disco era de fato um manifesto. Depois soubemos que o movimento tinha um manifesto escrito também. As letras de Da Lama ao Caos pululavam nas mentes pelo país, atiçavam ideias, faziam conexões. Já existiam experiências de fusões rítmicas de rock, rap, samba, ritmos tradicionais, mas nesse disco a sonoridade era explosiva demais pra passar batida.
Ainda tinha que no mesmo ano de 1994 havia acabado de sair um filme do Silvio Tendler sobre Josué de Castro, um gênio, um dos grandes pensadores do país e que estava sendo citado com força pelo Chico nas músicas e nas entrevistas. Isso era irresistível.
André e eu bolamos um plano completamente maluco: a doideira de sair dos nossos empregos para montar uma rádio em Caxias, uma coisa realmente insana naquela época pra dois caras duros numa cidade complexa e violenta como a nossa. Mas estávamos decididos e obviamente só tinha um nome possível pra nossa rádio: Mangue FM (aliás, eu nasci e me criei do lado do mangue caxiense, ali na Chacrinha, então ainda tinha essa camada pessoal…).
Por motivos que não lembro mais (acho que já existia uma rádio homônima), sugeri um outro nome, Quarup FM, que acabou ficando; mudou o nome mas manteve a mesma inspiração manguebística.
Logo quando a rádio foi para o ar, convidamos uma dupla de jornalistas, Carlos Eduardo Lima e Leonardo Salomão, que criaram Os Argonautas, um programa aos domingos de manhã que levava música pop de uma forma divertida e cheia de novidades e lançamentos. E daí foi mais uma injeção de manguebeat na mente, porque os moleques conheciam tudo o que estava sendo feito no Recife e arredores naquele momento e ainda por cima aplicaram o Mundo Livre com força na programação.
A gente também já conhecia o Mundo Livre S/A e o imenso Samba Esquema Noise, mas foi com os Argonautas que o gênio de Fred 04 ficou mais evidente pra mim. Fora que Os Argonautas foi o programa que praticamente lançou em rádio no Rio de Janeiro o espetacular Gentando a Oia, segundo disco dos caras.
E ainda vale falar que na sequência, em 1996, outro fenômeno poderoso vai trazer Pernambuco com força nas nossas vidas de novo que foi o lançamento do filme O Baile Perfumado. Com direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, a produção trazia uma trupe pernambucana da pesada que ia fazer muito barulho nos anos seguintes. Uma das cenas do começo do filme já dava o tom, com uma câmera aérea singrando um cânion do sertão com a música da Nação Zumbi torando em cima. Como diz no meme de hoje, absolut Cinema.
Depois, já em 2002, o manguebeat foi uma das inspirações para a criação do cineclube Mate Com Angu e lá no início ficávamos muito tempo pensando nessa busca por uma imagem que pudesse sintetizar o movimento cultural da região, com foram as icônicas caranguejos com cérebro e parabólica no manguezal. Vários textos do início do Mate deixam isso muito nítido de como Chico foi uma inspiração.
Esse é um depoimento resumido que gostaria de deixar registrado.
Viva Chico Science, Fred 04, Nação Zumbi, Mundo Livre e todo mundo que ajudou a construir isso. E viva a Cultura brasileira!

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[ @heraldohb – pitacolândia – fevereiro de 2026 ]


heraldo hb

heraldo hb

Cineasta, animador cultural, escritor e educador nascido no século XX

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