Hoje não recebemos flores, mensagens nas redes sociais e no WhatsApp – hoje não é 8 de março – hoje é dia 25 de julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

8 de março não dá conta das especificidades das mulheres negras, aliás as mulheres negras não têm nada para comemorar numa data onde historicamente mulheres brancas já trabalhavam e mulheres negras em alguns lugares do mundo ainda eram escravizadas e submetidas as maiores atrocidades e quando não estavam na condição de escravização estavam diretamente em posições de subalternidade – uma contínua herança.
O feminismo por si só não dá conta das demandas que agregam às vidas das mulheres negras. A seletividade de algumas vertentes feministas transforma a causa em autopromoção, e na maioria das vezes há uma ou mais mulheres negras subjugadas ou em condições de inferioridade nesse processo quase midiático.
A importância de um feminismo que pense nas peculiaridades e nas dores mais profundas das mulheres negras, faz-se necessário.
Há marcas que só determinados grupos de mulheres trazem, por questões históricas e por uma construção de inferioridade. Exemplo mais que real – mulheres negras.
A pauta do feminismo de mulheres brancas, em sua maioria, não dá conta dos recortes necessários para tratar de especificidades na luta e na militância feminista.
Os dados quantitativos e estatísticos, como o da ONU, mostram que em 25 países com maiores índices de feminicídio do mundo, 15 deles ficam na América Latina e no Caribe – a população negra em majoritariedade. Em 12 anos o Brasil registrou um aumento de homicídios de mulheres negras em 54% – o que chamamos lamentavelmente de FEMINICÍDIO.
Segundo dados da ACNUDH (Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos), o Brasil é o 5º país no ranking de mortes de mulheres no mundo. Segundo o IBGE a população feminina no Brasil é maior do que a masculina. 51,29% da população brasileira é composta de mulheres e mulheres negras são ¼ da população brasileira (25,3%), no estado do Rio de Janeiro somos 52,53% e na Região Metropolitana 52,86% da população. Somos majoritárias no Brasil, no estado e na região metropolitana, mas infelizmente lideramos as infelizes estatísticas.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019 mostra que 61% das mulheres que foram vítimas de feminicídio eram negras.
Lamentavelmente o Dossiê da Mulher de 2019 com base no ano de 2018 retrata o que todas nós já sabemos. O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro revela que mulheres negras são: 59,1% dos feminicídios, 55% tentativa de homicídio, 55%8 estupros, 54%2 tentativas de estupro e 54,4% de violência psicológica.
Em 22 municípios da Região Metropolitana, apenas sete possuem delegacias especializadas. É importante ressaltar que em contraponto somos minorias em cargos de poder.
As mulheres negras nessa área geográfica (América Latina e Caribe) lideram como vítimas de crimes, tais quais: violência obstétrica, abuso sexual e feminicídio.
É impossível mensurar os traumas e crimes cotidianos que estas mulheres sofrem e que historicamente foram submetidas. Isso não é vitimismo!
A partir de 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, com a realização do 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas e a definição do 25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha.
No Brasil também celebramos o dia de TEREZA de BENGUELA, grande líder quilombola que se transformou a grande heroína e dona desse dia – que como a maioria de nós a história não conta de onde veio. Se nasceu em África ou no Brasil. E caso tenha nascido no Brasil – não sabemos de onde origina sua herança ancestral – nação africana.
Conhecida como Rainha Tereza, viveu no século XVIII no Vale do Guaporé, no Mato Grosso. Após o falecimento de seu marido, tornou-se a grande líder do quilombo e criou o parlamento local, organizou produção de armas, a colheita e plantio de alimentos e chefiou a fabricação de tecidos. Morreu em uma emboscada, mas vive em cada uma de nós!
Mulheres como Tereza, nos trazem a responsabilidade de cada vez mais ampliarmos o olhar para a luta das mulheres negras. O feminismo interseccional, não é mais um conceito em construção. É uma realidade, uma causa, uma luta (…)
Feminismo interseccional diz respeito às INTERSECÇÕES ou recortes de opressões e vivências – recorte de gênero, de etnia/raça e de classe.
Como diz Djamila Ribeiro, “É necessário raciocinar. Essas divisões não foram criadas por nós, a sociedade já é dividida. Feministas brancas não podem reproduzir esse tipo de fala opressora. O feminismo negro surge justamente para apontar essas divisões e lutar por justiça já que de forma geral, mulheres negras foram excluídas por alguns feminismos.”
Voltem na história, mas façam um recorte racial e compreenderão que ao longo do tempo as conquistas das mulheres não contemplavam todas as mulheres!
Mas por que hoje não recebemos homenagens como no dia 08 de março?
Porque dia 25 de julho é dia de luta, resistência e de abalo das estruturas – como sempre foi!
Lutamos contra todas as formas de opressão, pois somos diversas em nossas especificidades. Que possamos no dia de hoje e em todos os dias gritar contra o RACISMO, o MACHISMO e o SEXISMO.
Adriana Santana
Texto de 2018 e atualizado hoje (25/07/20)

 


Adriana Santana

Mulher negra, mãe do Antony, afrorreligiosa, filha de Oyá, Educadora da Rede Pública de Ensino de Duque de Caxias, Pedagoga, Especialista em Raça, Etnia e Educação no Brasil, poetisa, feminista, militante, antifascista, antirracista e membro do EKÓ – Coletivo de Educadorxs Negrxs e Indígenas de Duque de Caxias.

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