O que posso falar do 1.9.6.2, se ele não sai dos meus pensamentos?

O saque do povo se deu em apenas umas poucas horas, o saque da vida do povo vem se dando há décadas, séculos.

Com toda certeza esse filme é um documento. Começa com imagens da manifestação ocorrida em Duque Caxias no ano passado, reflexo de uma série de outras que vinham acontecendo pelo Brasil. Retrocedendo no tempo o filme vai aos poucos desenhando e revelando à Duque de Caxias, através de fotos, depoimentos e relatos de quem viveu de perto ou de longe, o drama que foi o Saque. Essa não é uma história de um dia, mas de uma conjuntura política, econômica e social do Brasil. Não é apenas a história de uma cidade, é parte da história brasileira, que não está nos livros que circulam nas escolas, não é relatada/lembrada pela imprensa, pela mídia. Será que pensam ser possível apagar a memória, a história? O que pensam eu não sei; eu só sei que, historiadores da Baixada Fluminense não deixaram fatos dessa importância esquecidos, eles resgataram os acontecimentos e estão em cena, no filme e na vida cotidiana, política e social dessa região que é rica em memória, lutas e história.

Esse filme é tão a cara da região que sua construção se dá da mesma forma que seu povo vem construído suas casas e vidas, ou seja, coletivamente. O lançamento do projeto foi como se uma casa estivesse recebendo a laje, a feijoada rolou com muita alegria e cerveja gelada na Lira de Ouro. Todos estavam entusiasmado com a ideia de ver nas telas do cinema o dia que o povo de Caxias reagiu aos desmandos do poder econômico, que interesses setoriais impediam que o feijão de cada dia estivesse na mesa daqueles que eram o motor da economia, os trabalhadores pobres da periferia.

Finalmente ele chegou ao cinema, no dia 13 de maio, data lembrada por ser um marco na história de um povo que também foi o motor da economia do país em uma outra época. Sabemos que essa não é uma data que requer grandes comemorações, mas ela serve de reflexão, tal como deveria ser o dia 5 de julho.

O lançamento do filme se dá com muito entusiasmo, mas sobretudo cercado de significados: a data 13 de maio, a eminência da greve dos rodoviários, em 1962 foram os ferroviários, e o espaço que recebe o filme e a todos. O cine Santa Rosa é também parte da história de Caxias, o único cinema de rua no centro da cidade. Será ele apenas um sobrevivente ou resistente?

A construção coletiva se estende ao dia do lançamento, amigos se juntam e fazem dele uma celebração. Exposição de fotografia montada sobre uma rede, “arte sobre arte”, recepciona quem chega para apreciar a sétima arte, carrinho de pipoca e uma caixa feita de poliestireno cheia de latas de cerva. Tudo bem à moda de quem sabe se apropriar dos lugares com criatividade e muita alegria.

As últimas sessões são marcadas com um público ainda mais denso, pessoas que chegam do trabalho, da faculdade, das escolas, amigos, curiosos… Na bilheteria uma amiga exerce a função de bilheteira, no hall do cinema mais fotografias acontecem, registra-se o acontecimento, o movimento e a alegria daqueles que arregaçaram as mangas e fizeram do sonho algo real.

The end da última sessão daquele dia e um grupo só deixa o Santa Rosa quando finalmente os trabalhos se encerram, mas eles não vão para suas casas. Na Lira de Ouro está rolando um outro projeto, Terça Instrumental.

Depois de toda essa maratona ainda exite fôlego para mais bate papo nas mesas de um bar…

Parabéns a todos vocês que insistem e persistem em fazer cultura na/da Baixada.

Tenham a certeza, vocês estão fazendo História.

1962 o ano do saque