Não é sobre Duque de Caxias, mas esse texto da produtora cultural Giordana Moreira ilustra muito bem as relações entre governos e atores da Arte e da Cultura na região, principalmente em suas formas independentes. Vale a reprodução aqui.

Como sempre falamos, a atividade cultural na Baixada carece de avaliações mais “respiradas”, com um pouco mais de reflexão, e isso é fundamental nesse segmento historicamente ignorado pelas autoridades e empresariado local.

Para ler mais dois textos importantes da Giordana na Lurdinha, basta clicar aqui: http://lurdinha.org/site/?author=50

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Nova Iguaçu: Um passo atrás para seguir em frente

Quando, no ano passado, fui obrigada a retirar o Festival Roque Pense! da minha cidade, Nova Iguaçu, por falta de perspectivas dos gestores públicos locais em relação a cultura independente, já esperava que o desenrolar dessa gestão fosse, no mínimo, contra todo o principio de participação do movimento cultural nas politicas públicas da cidade.

Na reunião extraordinária do Conselho de Cultura de Nova Iguaçu, realizada dia 20 de janeiro, convocada pelo Secretario de Cultura para esclarecer uma nova lei que substituía um abacaxi antigo que ninguém descasca, divulgada em Diário Oficial em 24 de dezembro de 2013 – enquanto fritávamos rabanadas – a falta de respeito para com as pessoas e as formas de organização não “oficializadas” institucionalmente esvaziou qualquer tentativa de diálogo produtivo e até civilizado para atender a expectativa dos agentes locais: entender o que seria feito do abacaxi dos editais passados e como isso não se daria nos futuros.

Leis, lançamentos, convênios e fotos não tem sido uma boa lembrança para o agente cultural iguaçuano. Desde 2008 a falta de capacidade técnica, a falta de boa vontade e a malandragem em época de eleição tem feito do Fundo Municipal de Cultura uma novela cheia de remakes, onde o protagonista, o povo, é traído e enganado, sem final feliz.

Avançamos em comparação a outros municípios, enfrentamos as mudanças de gestão e de governo, e os avanços do enquadramento de Nova Iguaçu no Plano Nacional de Cultura pedem sim uma profissionalização dos gestores – tantos os públicos como na sociedade civil -, porém essa profissionalização não deve ser confundida com a burocratização do processo. Isso sim joga no ralo os avanços e exclui pessoas e grupos que não querem e não podem se afogar nas pegadinhas dos editais. Muito menos desqualifica quem não tem uma formação fora da área artística. Saber fazer uma prestação de contas não é critério para artista fazer sua arte, é trabalho do Estado pensar e saber executar sistemas eficazes de financiamento publico, trabalho este que se estende de gestão em gestão.

Reconhecer os espaços de discussão, as iniciativas e as demandas culturais da população é a base de qualquer planejamento, seja ele jurídico, financeiro, contábil ou afetivo. Digo planejamento afetivo, aquele que se faz nos eventos, no bar ou no facebook entre os fazedores de cultura e aparecem por aí, tipo cinema com rock, poesia com fanzine, skate com audiovisual… Essas coisas que geram filmes, livros, festivais, bandas, cineclubes, fanzines, e movimentam um lugar ocioso, uma plateia que não estava formada, um jovem que estava na esquina, um artista que não encontrava seu publico.

Papeis assinados tenho nas minhas gavetas, eles nunca me serviram em Nova Iguaçu. Mas é em NI que eu encontrei a Praça do Skate, o Hip Hop, a nação roqueira, público, artistas, ideias e espaços que me servem e servem a uma plateia alternativa ainda não reconhecida e não comtemplada. Por isso essa cidade é tão minha quanto de quem faz a rua ter movimento, e por mais que os termos de assentimentos sejam negados a rua não tem dono. Mas o dinheiro público tem: o povo.

Mas não vou pensar em 1 milhão, prefiro pensar em um diálogo mais além, sobre o que contribui e o que não no desenvolvimento de um trabalho que eu e mais centenas de pessoas vem escrevendo na região, esse que, com ou sem poder público e coisas “oficializadas”, faz  presente e futuro de uma cidade.

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Por Giordana Moreira