jantar para poucos
– Não adianta me reprimir, esse governo vai cair! – Os gritos ecoam na minha sala enquanto escrevo, vindos ao vivo de um canal twitcam. Eram as manifestações da noite do dia 11 de julho de 2013. Fatos históricos corriqueiros.– Vem pra rua, vem! – Policiais em fileiras protegem o belíssimo Palácio Guanabara. (Sempre achei esse palácio imponente demais, chega a ser desproporcional).– O povo unido jamais será vencido! – Grito clássico. Agora um som de panelaço e apitos, vaias, ha! As panelas são enlouquecedoras!!! Chegou o choque! Vaias! Vaias seguidas. Quem segura a câmera é uma garota, talvez da janela de seu quarto, na rua Senador Correia, em Laranjeiras, está vendo e narrando tudo ao vivo! Explosões!! Não é nada, são fogos! E as panelas não param!– Solta, solta! – Muitos manifestantes são levados para dentro de um ônibus da polícia, pessoas pegadas a esmo, a menina conseguiu filmar tudo direitinho lá do alto – Tá plantando prova! Tá plantando prova! – o grito do povo ecoava por todos os prédios, rebatiam e reviravam cada apartamento – Vergonha! Vergonha! – A população grita pra polícia. E por que não estou lá? – eu me inquietava.A polícia vai embora sob as vaias, deixando os manifestantes pra lá! – AAHH!! Valeeu galera!! – Ela grita pelo microfone com a multidão ao fundo.- Palácio! Palácio!! – eles descem a rua para o Palácio Guanabara. Eu, daqui do meu computador, posso acessar outros links, as várias câmeras se interconectam, em vários pontos! O pessoal da Ordem dos advogados já está na frente do palácio negociando a libertação da galera do ônibus.– O senhor conhece a mídia ninja? Pergunta a menina ao policial do choque, eles protegidos das cabeças aos pés, ela com a maior arma de todas: a câmera ao vivo.– O que é isso na mochila?

– É a bateria e o equipamento pra mandar pra web. É a mídia Ninja!

Vários links simultâneos, incrível, tudo ao vivo! Opa e gravado também, cara, é tudo muito confuso, mas ao mesmo tempo é muito mais real do que a notícia de amanhã nos jornais.

Opa, um cara chegou e começou a berrar para os policiais, que não se moviam: – “Quando vocês estiverem me batendo, pensem nisso: Eu amo vocês! Mas os que estão ai atrás de vocês não, eles só querem o mal pros seus filhos, pra sua comunidade, e vocês sabem disso!”

É cada coisa! O que será que vai acontecer nos próximos minutos? Qual será o destino disso tudo?! Eu tô sentindo que a galera não vai sair daí tão cedo, estão espalhados por todas as ruas em volta. Mas péra aí!! Eu já vi isso! Caramba, era gravação.

Agora sim consegui um link ao vivo. Alguém dizendo que foi assaltado, xii nada a ver. – Vamos seguir pro palácio, porque sinceramente… – E lá se vai a câmera esgueirando-se pelas ruas com os outros manifestantes.

E agora? O que é ao vivo de verdade? Alias o que isso importa? Estou vendo o acontecimento por dentro da manifestação como nunca antes foi possível! É enlouquecedor! Muita informação cruzada, impraticável! Para acompanhar, só indo pra rua!

Então eu fui. Isso mesmo: Eu fui pra rua! Sem nem me confirmar de coisa alguma, esqueci o celular e tinha apenas alguns trocados, tudo bem – se voltar agora não saio mais. Ao descer do elevador dei de cara com Anita, que tentava parecer a Jéssica Rabbit. Ela e seu amante bêbado estavam indo pro palácio. Ficou tão óbvio que eles me ofereceram carona que nem mesmo isso precisou ser dito. Apenas segui o fluxo, um carro os esperava em frente a portaria do prédio. Entramos no carro e o motorista javanês nos levou numa trilha desconhecida nas imediações do palácio do governo.

Para minha surpresa, ela tirou da bolsa capuzes pretos para cada um e disse – “qualquer coisa, a gente diz que é black block querendo manifestar!”

Opa, péra aí! Eu estou indo para manifestar!! Quem eram esses caras, o que eles estavam indo fazer ali??! – Subimos uma rua toda cheia de curvas que liga Laranjeiras a Botafogo por cima de Santa Tereza, saímos por uma passagem que dá acesso a uma rua, no meio da mata, por trás do velho palácio.

O carro não parou, as pessoas se jogavam dele como se estivessem pulando de paraquedas. Quando chegou minha vez tudo o que pude fazer foi seguir as instruções: abrace as pernas, proteja a cabeça e vai.

Aterrissamos com um ou outro ferimento, todos já estavam de máscara, menos eu. Pensei: É hora de fugir! Foi quando um deles me deu uma máscara – Porque você não tá vestido?! – Agora já era, eu era um deles. Botei a máscara. Invadimos o palácio com uma facilidade aterradora!! – Gente, eu não sabia que tinha esse jardim todo aqui atrás! – todo mundo exclamava.

Estavam todos os guardas e policiais, toda a atenção estava concentrada na frente do palácio, no confronto com os manifestantes, de modo que, quando dei por mim, acabava de adentrar num incrível e surreal salão estilo Luís XVI. Tivemos a nítida sensação de que voltamos no tempo, foi uma espécie de sensação física, não sei explicar. Vamos em frente.

Entramos por um corredor – tudo extravagantemente luxuoso – chegamos a um hall magnífico, com uma escadaria suntuosa ao centro. Focos de lanternas começaram a varrer o lugar, alguém apitou e soltaram os cachorros ali dentro mesmo. Percebi um belo e singelo foco de lanterna me revelando dos pés a cabeça, enquanto eu subia a escadaria. Então vozes e chegaram perto e vieram me apalpando, eu coloquei as mãos na cabeça e abri as pernas, rendido.

Mas péra aí! Essas apalpadas estavam muito estranhas. Ei, eram mulheres, e bem salientes. Elas não eram policiais, eram mulheres da corte, entaladas em decotes surreais, muito atraentes, não fosse seu péssimo hálito. Notei que muitas não tinham dentes. Aliás, algumas nem mesmo bochechas! – Que lugar esquisito de se viver, pensei eu.

Não precisei de muito esforço para me livrar das duas meninas que me agarraram, porque chegou um velho rei, o “aclamado rei Alberto, da Bélgica”, que foram praticamente “capturadas” pelo pessoal da corte desse rei aí. Estavam vindo do Palácio das Laranjeiras porque ouviram boatos sobre tumultos aos pés do histórico Palácio Isabel.

Era tanta gente passando, que acho que nem deram bola pra mim. Pude parar e olhar aquelas pessoas esfarrapadas, vivendo de forma mecanizada, presos ali naquelas paredes e naquele imaginário. Não pude acreditar no que via, mas a Princesa Isabel, o Conde D´Eu e uma imensa corte rastejante passou ao meu lado, para chegar a uma sala contígua. Eu segui o fluxo das pessoas, como um rio.

Chegamos nesse salão enorme, que tinha a mais espetacular mesa de jantar que eu jamais presenciei em toda minha vida, muitos objetos de ouro, ninfetas em trajes de banho, entre porcos assados inteiros na fogueira, e muitas outras coisas, eram atacados de todos os lados por pessoas que se transformavam diante da comida:

Eram nobres indefectíveis. Mas ao verem uma comida, seja lá qual fosse, seus olhos se incendiavam, e eles eram tomados por uma energia louca e furiosa que explodia, mas acabava rápido. Getúlio Vargas era o único que nunca perdia a pose. Mesmo diante de um escravo, ou de uma princesa, portava-se como um nobre. Bem, com o escravo ele era um pouco mais rude, sabe.

Diamantes rolavam por toda parte e os mais variados cardápios vocês podem imaginar, eram degustados pelos excelentíssimos convidados. Tão bonitinha uma menina que entrou agora. Parece que saiu direto de uma peça do Nelson Rodrigues e caiu aqui, agora. Chegou numa bandeja, trazida por servos que, bem, na verdade eram ratazanas gigantes, remanescentes quilombolas de escravos que foram torturados naquela área. Pensei que ia começar o estupro generalizado, mas qual foi minha surpresa quando Orsina da Fonseca simplesmente arrancou um pedaço da bunda da garota com a mão e o comeu com uma fome, que me deu até inveja!

Foi então que todo mundo começou a comer a garota. Literalmente. E quando ela acabou, eles começaram a se comer entre si, era uma coisa nojenta demais para se presenciar, acreditem em mim.

– Vamos pro parque! É sempre lá que terminam as festas mesmo… – Diziam indo todos em direção ao Parque Guinle. Aquele grupo do Palácio das Laranjeiras, mais especificamente, os fantasmas puxa-saco do presidente Dutra, entraram numas de tirar onda, que eles quem tinham as chaves do palácio, não entendi o joguinho deles muito bem, parece coisa que se repete há décadas entre eles.

…Continue a história você mesmo…

Paulo Mainhard
Leia a continuação:
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Paulo Mainhard

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