Parte 2

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Dando prosseguimento ao instantâneo, começo fazendo uma mea-culpa: hoje eu acho que não existe um movimento cultural em Caxias. Talvez nunca tenha existido. Pelo menos nos termos do que seria um movimento de fato. O que há, e é forte, são movimentações culturais; multifacetadas, sem muita comunicação inter-setores, sem projetos definidos de intervenção política, na base da bateção de cabeça, ou no velho rame-rame de reclamar genericamente “contra o governo”. Além disso, as reuniões da comunidade cultural costumam só existir em épocas de eleição e parece muito que boa parte da galera vai mais para dar um certo confere nas possibilidades de quem vai ser o secretário…

Digo isso logo de cara porque fui um dos organizadores do manifesto de apoio à candidatura de Alexandre Cardoso no segundo turno das últimas eleições e, no texto, me referi várias vezes a um “movimento cultural” da cidade, movimento este que não acredito mais que exista. Falo com certo pesar, mas é o que percebo hoje.

Mas porque começar falando disso? Pelo fato de que tem uma articulação total com uma avaliação de boa parte do segmento cultural no processo que se deu na eleição. Expliquemos.

No cenário de caos total do último governo, o segundo turno da eleição apresentou uma disputa entre Alexandre e Washington Reis, este que já foi prefeito da cidade.

A campanha Alexandre conseguiu aglutinar no segundo turno desde pessoas que de fato apoiavam o candidato até os desconfiados e os resistentes a Alexandre, dentro da perspectiva de que, já que alguém iria ganhar, havia a oportunidade de mostrar força política naquele momento, de retomar o rumo das políticas culturais no município, paralisadas na gestão catastrófica do Amiguzito. Essa vontade de mostrar força política certamente vem do fato de que uma das coisas repetidas entre vários mandões da cidade, uma delas é que cultura não dá voto.

No campo do Washington e a máquina PMDB no seu maior grau, com ostentação financeira constrangedora, a Cultura sequer foi citada seriamente. Sabemos de uma reunião a portas fechadas com meia dúzia de artistas, onde o tom era apenas o de promessas de cargos e nada mais. Discussão cultural zero.

Já no campo do Alexandre, o cenário era outro: havia a presença do André de Oliveira como articulador, figura consensual no cenário cultural da cidade; havia um chamado claro da campanha para que a classe cultural escrevesse o plano de governo do mandato, coisa que foi topada por muito militantes da Cultura, e o compromisso de implementação do programa. E o programa de governo do Alexandre foi debatido e publicado na íntegra e, basta lê-lo, para verificar que é totalmente baseado no caldo das discussões e propostas levantadas ao longo de 12 anos, tanto as discussões nacionais, quanto as discussões caxienses, trazidas desdes a primeira conferência de cultura.

No segundo turno, a diferença foi cristalina: um manifesto de apoio ao programa de governo do Alexandre reuniu mais de cem artistas e produtores culturais contra nenhum nome da campanha Washington (havia gente da Cultura na campanha Washington, mas, ou eram apoios envergonhados e não-confessados, ou o time do governo Zito, que, misteriosamente, mudou de lado no segundo turno).

 

O pós-eleição

Ainda antes da posse, nas articulações para a montagem do governo, o prefeito eleito fez o usual: colocar a Cultura como a última prioridade; e de uma forma pior, anexando a Cultura à pasta da Educação. Uma pressão de setores da Cultura acabou fazendo com que essa sandice não se concretizasse. Mas, esse começo ruim aliado à demora na escolha do nome do secretário causou muito mal estar naquele momento.

A escolha do nome de Jesus Chediak teve efeitos em segmentos distintos na cidade, mas via de regra não agradou à maioria.

Jesus entende da área e já teve experiências no campo da gestão cultural, se configurando um cara preparado com todas as características para desenvolver um trabalho na pasta. Mas, duas questões foram de difícil processamento na cidade: um o fato de ser um cara “de fora”, numa cidade onde se padece desse traço desde muito tempo. O outro certamente é o fato de que havia uma quase certeza de que o André de Oliveira seria o secretário, nome que até entre os não-alinhados politicamente já era dado como certo. Silvia de Mendonça como subsecretária também era um cenário esperado, haja vista a intensa participação dela na campanha e pelo fato de ter um bom trânsito na área.

No cenário de caos, com o orçamento formulado pelo governo passado, houve uma tendência a dar um tempo de adaptação ao novo governo na área da Cultura; pelo menos é o que parece.

O fato é que, a despeito de qualquer avaliação que for feita sobre o secretário, os compromissos da campanha eleitoral ainda não foram tirados do papel em seu conjunto. E muitos deles já passaram da linha da urgência e demandarão esforço político de verdade para virarem realidade. Os que envolvem a Câmara de Vereadores, por exemplo, vão exigir vontade política redobrada, sob pena de ficarem aí vagando, como fantasmas de conversa fiada até a próxima eleição.

Em resumo, na área cultural, o governo Alexandre Cardoso está devendo e o tempo urge.

 

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Links:

Cultura Quer Mudança – Carta Pública do movimento cultural de Duque de Caxias

Relembrando os compromissos da Cultura nesse momento

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heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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