Eu era um pequeno menino que frequentava a E. M. Vila Pauline, cantava no Conjunto Canaã e frequentava a Classe Joia de Cristo, na Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Vila Pauline. Aqueles tempos de primeira infância realmente forjaram parte da minha identidade humanista. As aulas, os cultos, a rua, as brincadeiras, a vizinhança, as pessoas ainda são vívidas na minha memória. Eu sempre falo que, mesmo depois de ter conhecido mais de vinte países pelo mundo, a Vila Pauline e seus incógnitos moradores são que melhor representam os parâmetros da minha personalidade.
Entre aquelas pessoas da vizinhança e que frequentavam a mesma igreja estava Antônio, Grande Prazer! Ele era um senhor de estatura média, pele queimada do sol, cabeça embranquecida, muito mais pela dureza da vida do que pela idade avançada. Além de sua fé inabalável, sua constância na igreja e sua solicitude, o que realmente marcava o irmão Antônio era a sua saudação: Antônio, Grande Prazer!
Entre as diferentes memórias do Antônio, Grande Prazer há uma que muito marcou a minha personalidade. Em uma tarde de sol, o silêncio na antiga Vila Pauline foi interrompido por uma saraivada de tiros. Não demorou muito tempo para que todos soubéssemos que o filho de uma de nossas irmãs da igreja e um de seus amigos haviam sido baleados. Mas ainda não tinham morrido. Estavam agonizando esperando socorro que todos nós sabíamos que não chegaria. Então, Antônio, Grande Prazer correu para perto dos corpos baleados. Antes de qualquer coisa, ofereceu Jesus e a salvação para aqueles rapazes que esperavam muito mais pela morte do que por qualquer socorro. Os rapazes rejeitaram. Antônio, Grande Prazer era persistente! Pegou uma flor na cerca de um vizinho, deitou-se ao lado dos corpos convalescentes e repetia oferecendo a flor para os rapazes: Aceita Jesus! Aceita Jesus! Aceita Jesus! Os rapazes não aceitaram! O socorro nunca chegou. Os rapazes morreram! Antônio, Grande Prazer levantou-se do chão com a roupa toda empoeirada. Lamentou a morte, lamentou a violência, chorou antes de consolar as mães que ficaram sem seus filhos.
Esse texto não tem nada a ver com aceitar ou não aceitar Jesus. Mas tem a ver com amor. Amor por aqueles que, do ponto de vista de uma parte da sociedade, não merecem qualquer tipo de compaixão, direito ou socorro. Antônio, Grande Prazer era um humanista, mesmo sem saber. Era um servo de Deus com convicção. Um Deus de Amor. O irônico é ver pessoas que hoje são daquela mesma igreja que já foi de Antônio Grande Prazer defendendo que “bandido bom é bandido morto”. Esses ainda não conheceram Jesus, o humanista. Esses nunca souberam de Antônio, Grande Prazer!!!
Independente de quem somos, todos temos a escolha de espalhar amor ou o ódio. Contudo, se você se define como cristão, o ódio não deveria estar entre as suas escolhas. Jesus foi condenado por aqueles que repetiam, à maneira da sociedade judaica do século I d. C, “bandido bom é bandido morto”. Jesus foi crucificado como bandido! Porém, no momento de maior dor, ofereceu salvação para um dos bandidos que estavam do seu lado. É claro que não devemos ser condescendentes com bandidos, mas justiça e vingança não são a mesma coisa. É preciso ter clareza de quem somos, do que vivemos para definir o modelo de sociedade que queremos defender.

Por Nielson Bezerra