O Edital Paullo Ramos não representa apenas um auxílio financeiro emergencial para os artistas de Duque de Caxias. Desde sua emancipação em 1943 até hoje os prefeitos que passaram por esta cidade nunca liberaram um centavo em beneficio da classe artística local, e só está acontecendo agora graças a uma batalha que vem sendo travada desde que a lei do fundo de cultura foi criada na gestão de Gilberto Gil como ministro da cultura. O “Conselho Municipal de Cultura de Duque de Caxias”, desde então vem lutando com o governo pela liberação dessa verba para a criação de editais que envolvessem a classe artística da nossa cidade, o que infelizmente havia sido negado até agora. Uma reivindicação que vinha se arrastando há anos ignorada por todos os governantes que passaram por essa cidade.

Antes do edital Paullo Ramos estava em andamento a elaboração de um edital pressionado pelo CMCDC que nunca se resolvia até que, incontestavelmente devido o período de isolamento social que afeta todo o globo terrestre nesse momento de pandemia, e principalmente pela consolidação eminente da lei de incentivo “Aldir Blanc” que traz um aporte financeiro representativo que dignifica e reconhece sem protecionismo a importância da classe artística brasileira contemplando profissionais de todos os segmentos artístico do nosso país nesse momento tão triste que atravessa a nossa nação. “Essa ajuda aos artistas a partir do nosso parlamento, se não me engano, também acontece pela primeira vez no nosso país”. E graças a isso, finalmente se consolida o “Edital Emergencial Paullo Ramos, é uma justa homenagem póstuma a um dos maiores artistas plásticos da cidade de Duque de Caxias, que desencarnou há poucos meses”.

Prova que toda luta, por mais injusta que seja por conta da força e poder do seu adversário sempre vale a pena.

Esse é um momento histórico onde a subjugação ou indiferença dos governos que sempre excluíram e negaram qualquer possibilidade de investimento aos profissionais ligados a arte sem exceção, seja de uma cidadezinha do interior de qualquer estado do Brasil ou de Duque de Caxias cai por terra. Por isso a importância dessa conquista, da luta incansável por anos do CMCDC tornando Caxias a primeira cidade dos treze municípios da Baixada Fluminense a usar a verba do fundo de cultura para promover o primeiro edital da cidade, uma verba que pertence à classe artística e sempre foi negada pelo poder público local.

O Edital Paullo Ramos acontecerá com o aporte de uma verba gerada pelos próprios artistas a partir de cotas da bilheteria dos espetáculos apresentados nos aparelhos culturais da cidade e taxas cobradas para apresentações artísticas nos mesmos, verba essa que nunca foi permitido ser usada para qualquer incentivo à classe artística local. Uma conquista pioneira na região digna de comemoração do CMCDC, bom se essa conquista inspirasse todos os conselhos de cultura dos outros municípios, pois nós artistas sabemos que sem apoio financeiro fica impossível promover e valorizar a arte e a cultura de qualquer lugar, além de essencial é um direito constituído e não um favor dos governantes.

Hoje, dia 19/08 faço vinte e dois anos de carreira desde o primeiro dia que pisei no palco como um artista profissional. Quis usar o meu trabalho para discutir a arte e a cultura da minha região. A Baixada Fluminense sempre foi berço de um caldo cultural riquíssimo, conheci aqui artistas maravilhosos que não tiveram coragem de arriscar uma carreira porque nunca viram alguém daqui se tornar famoso, outros tinham vergonha de dizer que eram da Baixada Fluminense, isso até pouco tempo atrás.

Capa do CD Canto da Baixada, de Bira da VilaO reconhecimento e orgulho de ser um artista da Baixada Fluminense para mim, chega quando viajo por quase todo o país com o show de lançamento do CD “O Canto da Baixada”, talvez uma compensação por ter sido rejeitado muitas vezes pelos órgãos políticos da minha cidade, onde vi e ouvi secretários e servidores da secretaria de cultura fazendo piadas dizendo que artistas como eu viviam atrás deles de pires na mão querendo ajuda para seus projetos ridículos.

Só não contaram que o pires que eu carregava chamaria a atenção de grandes jornalistas e críticos musicais tornando um produto rejeitado por eles, notícia nas primeiras páginas dos grandes jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, levando o álbum a uma indicação ao Prêmio da Música Brasileira de 2011, o que tornou a arte do Bira da Vila conhecida em todo o país, uma conquista que nunca tirarão de mim.

Por motivos óbvios nunca pensei em participar de qualquer coletivo na minha cidade que dependesse de verba do governo local. Todos os projetos que realizei como produtor cultural em Duque de Caxias nunca contei com a ajuda do governo da minha cidade. O projeto “Baixada é Arte”, por exemplo, só foi possível graças a uma parceria com o SESI Caxias em 2011 e 2012, evento que teve até matéria de TV, com apresentação de mais de duzentos artistas em quatro dias de evento, peças teatrais, shows musicais, exposição de arte, literatura, dança, fotografia, oficinas e artistas de toda a Baixada Fluminense. A gente consegue, mas é sacrificante. Por isso, reconheço a grandeza da luta e da conquista de todos que travaram essa batalha.

Por isso, mais uma vez parabenizo o “Conselho Municipal de Cultura de Duque de Caxias” e também o “Fórum Municipal de Cultura” por essa conquista tão importante para a nossa cidade e toda a Baixada Fluminense, não vou citar nomes para não correr o risco de deixar alguém de fora devido a importância dos dois coletivos nessa conquista tão importante, estou muito feliz com essa vitória. Acho que a partir de agora teremos uma secretaria de cultura que finalmente trabalhará em beneficio da arte e da cultura da nossa cidade.

A todos os envolvidos minhas sinceras felicitações. Sempre acreditei no potencial dos artistas da nossa região e acho que chegou a hora de mostrar a nossa arte para todo o mundo.

 

Bira da VilaBira da Vila


Bira da Vila

Compositor e cantor de samba.

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