Um caso de autodelação

Nos primeiros dias de abril de 1964, os jornais de todo o país estampavam na primeira página manchetes e chamadas, relatando passo a passo as firulas dos milicos que acabavam de usurpar o poder. E eram páginas e páginas do noticiário, detalhando as primeiras providências dos golpistas, com destaque para os itens prisão e cassação de mandatos e direitos políticos.

No Rio de Janeiro – então com cerca de quinze diários – os jornais pareciam disputar quem babava mais o ovo do novo governo imposto. E nisso, tanto valia enaltecer a “revolução”, quanto enxovalhar os opositores, que estavam sendo caçados e presos. Em sua Tribuna da Imprensa, o velho reaça Hélio Fernandes chegou a pedir “mais rigor na punição aos subversivos”. A exceção da Última Hora, de Samuel Wainer, que por ser um órgão pró-Jango teve sua redação depredada e incendiada.

Todos os dias publicavam-se listões, com centenas de nomes de políticos, juízes, delegados, líderes sindicais e estudantis, padres, intelectuais, educadores, jornalistas, artistas e gente da cultura em geral. Tudo em cana. A galera consultava atentamente a relação, em busca de uma figura que lhe fosse familiar, um amigo ou mesmo um desafeto. E dentre os leitores mais diligentes, podemos destacar o Eugênio Gusmão, o Metalúrgico – como gostava de se apresentar.

Gusmão trabalhava na FNM (Fábrica Nacional de Motores), instalada no quarto distrito de Duque de Caxias. Como militante do Sindicato dos Metalúrgicos local, pode-se dizer que era aguerrido. Meio pelegão, é verdade, mas muito presente. Assistia às reuniões, e nas assembleias até pedia a palavra, quase sempre pra dar aval à liderança. Daí, muitos dos nomes impressos nos listões diários eram de seus companheiros ou de líderes da categoria, que conhecia de outras cidades. O Metalúrgico, então, passou a considerar-se um preso em potencial.

Como primeira providência, reuniu a família e avisou: “Tô pra ser preso a qualquer momento”. Houve um alarme inicial, claro, mas Gusmão tratou de tranquilizar a todos, explicando que não seria “nada de mais ser preso por uma causa tão nobre, quanto a luta dos trabalhadores”. Disse mais algumas coisas e os ânimos serenaram um pouco. A mulher, por sua vez, cuidou de arrumar uma pequena maleta, com kit higiene pessoal, um pijama, um par de chinelos e mais uma ou outra coisa que, avaliou, lhe seria útil no xadrez.

Com os dias passando e o mês se esvaindo, os listões foram minguando. Agora, os jornais dedicavam mais espaço às bandeiras de “salvação da pátria”, empunhadas pelos milicos. As notícias mais quentes giravam em torno das dezenas de IPMs (Inquéritos Policial Militar), instaurados às pressas, onde os “subversivos” eram interrogados debaixo de porrada. Até que chegou maio e as listinhas com meia-dúzia de sete ou oito presos desapareceram do noticiário.

Gusmão começou a ficar inquieto. Com tantos companheiros em cana, sua liberdade virara um incômodo. Pensava no quanto isto poderia representar uma traição à categoria e no quanto já se tornara uma humilhação a si próprio. E começaram os burburinhos entre os familiares. A mulher, a sogra e uma tia emprestada comentavam entre elas, à boca miúda. Mas tinham os cunhados. Ah, sim, os cunhados.

Como se sabe, a palavra “cunhado” vem de cunha – uma peça de ferro ou madeira, que se interpõe entre a ferramenta e o cabo. E o cunhado é isto, uma figura que se interpõe na família. Pode até ser consentido, mas entra imprensado. Assim, levando em conta que cunhado não é parente, os irmãos da mulher passaram a cobrá-lo abertamente. Vinha um e perguntava: “Ué, cara, tu não foi preso ainda, não?” Outro ironizava: “Gusmão, tô com um pacote de cigarros guardado lá em casa. Vou levar pra você, quando for te visitar”.

Sentindo-se pressionado, o Metalúrgico decidiu-se por uma atitude extremada: apelar para a autodelação. Num velho catálogo da época, conseguiu o telefone do Dops. A espera por uma ligação telefônica de Caxias para o Rio, naquele tempo, tanto poderia durar várias horas, como até um dia inteiro. Como tinha pressa, pegou o trem em sua cidade e desceu na estação seguinte, Vigário Geral, já no então Estado da Guanabara. Seria mais rápido e mais seguro. Ninguém da família ficaria sabendo.

No bar em frente à estação havia um telefone público. Adquiriu as fichas e discou. Do outro lado, o atendente confirmou ser do Dops. E ele mandou:

– Vocês ainda estão prendendo subversivos?

– Bem – disse o outro – acho que já prendemos todos, por quê?

Gusmão soltou um risinho, de quem detém uma informação privilegiada, e prosseguiu:

– Que nada. Vocês estão é dormindo de touca. Prenderam tantos

comunistas e deixaram solto um dos mais perigosos.

O cana perguntou se ele sabia o nome completo e o local onde o subversivo estava escondido. No que Gusmão confirmou, o cara mandou-o esperar, que já voltaria com caneta e papel. E foi este o diálogo que se desenrolou, na sequência:

– Pode falar o nome.

– Eugênio Gusmão. Ele mora…

O cana interrompeu:

– Peraí, você tá falando do Metalúrgico, de Caxias?

Ele confirmou e o outro foi incisivo:

– Ora, aquele cara não oferece perigo nenhum. É um comunistinha de merda.

Sentindo-se ferido em seus brios, Gusmão, indignado, respondeu alto e em bom som:

– De merda, não. O senhor me respeite. Veja como fala comigo.

Desligou bruscamente, saiu e levou vários dias sem aparecer em casa.

Eldemar de Souza


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