De acordo com Kaká Werá Jacupé, historiador indígena “o poder de uma palavra na boca é o mesmo de uma flecha no arco”. Em sua sabedoria imensa, Jacupé nos mostra a potência criadora e transformadora das palavras e das oralidades. Essa força gigantesca da palavra precisa ser evocada em momentos cruciais como o que estamos vivendo. Há um amálgama de morte, violência, negacionismos, crise ético-política, intolerância religiosa, racismo e apagamentos históricos que nos ronda e ameaça no tempo presente.

Os projetos de necropolítica tentam esmagar a alegria, a ciência, as memórias, a diversidade étnica e cultural, os sonhos, as histórias. Mas o caxiense, como todo brasileiro, é aquele que luta, sonha, não desiste. Nunca desiste. Como boa caxiense que sou, não fujo da briga e da luta. Sonho, estudo, pesquiso, escrevo. Porque dias melhores virão. E pensando nas lições de Jacupé (1998), o ato de escrever também é uma forma de enviar muitas flechas. É nessa tentativa de resistir e lutar que trago para vocês algumas reflexões importantes sobre o passado caxiense para se enfrentar os problemas do presente. Memorializar é também uma forma de resistir. Historicizar é uma luta contra inúmeros agentes do apagamento de grupos sociais e de suas vozes. Dialogar com as epistemologias ancestrais, com autores indígenas e outras concepções de mundo e de História é ir dissipando a homogeneidade dos discursos e os perigos da história única. É uma forma de combate contra o extermínio de conhecimentos sobre os povos indígenas, o epistemicídio.

Dialogar com o passado, entender como nossos ancestrais, as mulheres e os homens do passado, viviam é uma boa alternativa de enfrentamento dos problemas atuais. Os silêncios sobre certos grupos sociais e os epistemicídios são frutos de inúmeras relações de poder e disputas de narrativas em torno do passado. Vou logo entregando o meu ouro: adoro História. Parece ser uma fofoca ampla, geral e irrestrita. Mas não é isso. É muito mais. É ciência. É entendimento da realidade social. É conhecimento e reconhecimento das nossas mazelas. É descolonização dos saberes e dos lugares. Além disso, as lutas dos nossos antepassados inspiram as nossas lutas na atualidade. Comecei este texto citando Jacupé não é à toa. Ele e todos os indígenas no Brasil viveram e vivem sob a égide da luta e da resistência. Falar das lutas indígenas parece distante das questões de Caxias, não é? Errado! As lutas indígenas são nossas lutas também e dizem respeito a todos os brasileiros e brasileiras. Além disso, há uma coisa que precisa ser dita, na verdade, gritada a plenos pulmões, escrita faz tempo: Caxias é terra indígena. Sim, senhor! Caxias é terra é indígena!

Antes de pertencer a Iguaçu, sesmaria doada a Cristóvão Monteiro após as guerras de conquista e a fundação do Rio de Janeiro, em 1565, a região que deu origem aos Município de Duque de Caxias era habitada por grupos indígenas Tupi, os Tupinambá há pelo menos 8000 anos. Cidades coloniais como o Rio de Janeiro e São Salvador (BA) e a ocupação portuguesa das suas áreas adjacentes, tanto no Recôncavo Baiano como no Recôncavo da Guanabara surgiram a partir dos confrontos promovidos lusitanos contra as populações indígenas. Portanto, as cidades coloniais ocuparam os lugares indígenas. Ou seja, o espaço urbano fluminense é produto das guerras coloniais que impactaram a demografia dos Povos Originários a partir de 1555. Os conquistadores lusitanos que participaram das guerras de pacificação, a Igreja Católica através de ordens religiosas como os beneditinos, os jesuítas, entre outros, foram agentes da transformação da espacialidade e das territorialidades fluminenses. A formação das lavouras canavieiras movidas com o trabalho compulsório indígena, a alta mortalidade gerada pelas guerras e epidemias e a política de descimentos para os aldeamentos indígenas estão na base da depopulação dos Povos Originários na região fluminense. Entre os séculos XVI e XVII, a proliferação de engenhos de açúcar na região do Recôncavo da Guanabara se fez a partir dos usos da mão de obra indígena. Rememorar a violência desses conflitos e a construção de uma economia colonial açucareira a partir da inserção dos indígenas e seus efeitos para aquelas populações é ponto de partida para “descolonizar” os corpos, os saberes, as histórias e os lugares.

Nos séculos dois seguintes, apesar das estratégias das elites coloniais de apagamento dos Povos Originários, o arqueólogo Ondemar Dias registrou a presença de indígenas nos séculos XVII, XVIII e XIX nas Freguesias de Iguaçu e Jacutinga. No início do século XIX, a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro inaugurou um novo período de intensas violências contra os indígenas. A carta régia de 13 de maio de 1808 foi o documento que embasou a guerra ofensiva contra os indígenas “Botocudos” populações heterogêneas e pertencentes ao tronco linguístico macro-jê habitantes das margens do Rio Doce. Receberam a denominação por conta do uso de artefatos de madeira nos lábios e orelhas. Ao longo do século XIX, as ideias de desaparecimento das populações indígenas e foi fortemente difundida por intelectuais e políticos. Esses episódios ilustram bem como as violências e os silenciamentos marcam a relação entre a sociedade brasileira e as populações indígenas.
Sobre as trajetórias dos indígenas no Recôncavo da Guanabara, especificamente, na Vila de Iguaçu, e posteriormente, no Município de Iguaçu (1833) há enormes lacunas. Desde que se emancipou na década de 1940, a Estação Merity, o 8º distrito de Nova Iguaçu, substituiu sua denominação de origem tupi por uma homenagem à Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, militar e patrono do Exército brasileiro. Esse processo é emblemático.

O termo “Meriti” significa, pé de buriti ou árvore alta de alimento ou vida. E faz referência à palmeira Mauritia flexuosa, encontrada em todo o território nacional. O jacu ou Penelope, ave do gênero craciforme com cerca de 15 espécies, e a aracuã, Ortalis guttata, uma espécie de galinácea consomem as flores do buriti. Seus frutos, ricos em vitamina A, óleo e betacaroteno podem servir para alimentação humana e de animais silvestre. As fibras obtidas nas palhas do buritizeiro são usadas até hoje na confecção de colares, cestaria. A importância do buriti na dieta alimentar das populações originárias é reconhecida. A “árvore alta da vida” deixou de nomear a região para dar lugar ao ufanismo e exaltação de um “herói da pátria”. Por que as elites políticas e econômicas do Município de Duque de Caxias esqueceram e apagaram a dimensão indígena da cidade ao longo das últimas décadas? É algo que cabe aos historiadores e historiadoras investigar.
Na atualidade, o Município de Duque de Caxias possui 41 bairros, divididos em quatro distritos. Através da toponímia podemos também reencontrar esses saberes ancestrais dos Povos Originários depositados demarcando as territorialidades caxienses. Sarapuy, Saracuruna, Imbariê, Jardim Anhangá, Taquara, Parque Capivari, Amapá são marcas da presença indígena que as inúmeras estratégias políticas de cerceamento das memórias indígenas não conseguiram remover.

De acordo com o censo do IBGE de 2010, Duque de Caxias possui cerca de 865 indígenas. Desse total, 860 está em situação urbana e 05 encontram-se na zona rural. Qual o significado dessas presenças? Caxias segue sendo terra indígena.

Há mais de quinhentos anos, Jaguaretê, Iaguara, a onça, avó de todas e todos – mesmo daqueles e daquelas que a desconhecem – ruge forte para aguçar as memórias, fortalecer as resistências e as lutas. Continua rugindo e desafiando os silêncios e silenciadores das memórias e histórias dos povos indígenas que habitaram a sesmaria de Iguaçu, o Recôncavo da Guanabara, a Baía de Guanabara, o Rio de Janeiro, o Brasil: é tudo terra indígena, Caxias é terra indígena!

Silene Orlando Ribeiro
Pesquisadora de História dos Povos Originários e do Indigenismo
Docente de História – SEEDUC/RJ
Membro da Associação Nacional de História do Trabalho – “GT Mundos do Trabalho/ANPUH”

Caxias, terra indigena. arte de Denilson Baniwa
Arte do Denilson Baniwa, especialmente para este texto