Vocês conhecem esse cara da foto, fazendo pose de concertista do Theatro Municipal? Seu nome era Paulo Romário, e se ainda estivesse entre nós teria completado 76 anos, no último dia 14. Foi um músico extraordinário. Pianista, compositor e arranjador – excelente nas três categorias -, que acompanhou artistas como Bibi Ferreira, Fafá de Belém, Elba Ramalho e Elke Maravilha. Além disso, foi um dos líderes da Massa Experiência, primeira banda de rock da Baixada Fluminense a ganhar os palcos da Zona Sul do Rio, no início dos anos 70. Da qual, aliás, fui um dos letristas.
Paulo Romário Menezes de Souza nasceu cego, em 14 de novembro de 1944, no município de Cachoeira, interior da Bahia. Tão logo perceberam de que se tratava de um deficiente visual, seus pais imigraram para o Rio de Janeiro (então Distrito Federal), a fim de que ele fosse educado no Instituto Benjamin Constant, na Urca. Ali alfabetizou-se, mas prosseguiu seu histórico escolar em estabelecimentos públicos regulares, como o Colégio Pedro II, onde concluiu os antigos cursos ginasial e clássico. Paralelamente, deu início aos estudos de piano a partir dos nove anos, entrando em contato com a música de grandes mestres – a exemplo de Bach, Beethoven, Chopin e Mozart.
Embora tivesse grande interesse pela música popular, alimentou o sonho de ser um concertista clássico, até o ano de 1967. Foi quando fez a direção musical de Morte e Vida Severina, poema de João Cabral de Melo Neto. musicado por Chico Buarque e encenado pelo Grupo Acerto. A partir daí, teatro e música foram uma constante. Participou como instrumentista da primeira montagem de Gota D’Água (Chico Buarque e Paulo Pontes), sob a regência de Dori Caymmi, e assinou a direção musical de diversos espetáculos dirigidos por Luiz Mendonça, como Rio de Cabo a Rabo (Gugu Olimecha) e Viva o Cordão Encarnado (Luís Marinho) entre muitos outros.
Nosso primeiro encontro se deu em outubro de 1967, quando assisti à encenação de Morte e Vida Severina, com o Grupo Acerto, no auditório do antigo Colégio Cardeal Leme. O espetáculo me impactou de tal forma, que eu decidi levá-lo a Duque de Caxias, no que contei com a cumplicidade do hoje historiador Rogério Torres. Desses contatos nasceu uma amizade intensa, que durou quatro décadas – até 31 de dezembro de 2008, quando ele atravessou a fronteira.
Foi uma das figuras mais singulares, com quem já tive o prazer de conviver. Cego de nascença (e de “morrença”, como costumávamos brincar), além da extrema musicalidade, era dotado de duas qualidades que mais prezo no humano: senso de humor e espírito de solidariedade. Quando sabia que eu havia feito alguma merda (e foram tantas!), costumava perguntar: “E agora, como vamos sair dessa?” Pronto, o problema deixava de ser só “meu” pra ser “nosso”.
Nossa sintonia no âmbito do humor nos levou a colecionar dezenas de piadas internas, das quais só nós e os mais chegados riamos, deixando os demais com cara de meu-deus-o-que-é-isso? Algumas dessas piadas fazíamos pra sacanear um ao outro. Em 2006, por exemplo, adotei um filhote de pit-bull, a quem dei o nome de Shakespeare. Acabei de lhe dar esta notícia, Paulo comentou:
– Já sei até porque você pôs esse nome no cão. Pra ter certeza de que na sua casa mora um escritor de verdade.
Rimos muito, mas ele sabia que eu daria o troco. Dias depois, li na internet um ensaio ótimo sobre JS Bach, nosso compositor predileto. Enviei o texto para o e-mail da Ângela, sua mulher, e liguei pra ele comunicando o envio. O maestro lamentou o fato de não poderem acessar a internet, e explicou que seu computador havia dado pau. Não perdi tempo:
– Porra, até que enfim alguém tá dando pau na sua casa.
Dotado de espírito aventureiro – tanto quanto eu – caímos na estrada algumas vezes, mangueando, de mochila às costas, bem ao estilo hippie. Diga-se de passagem, manguear com um cego a tiracolo era mais fácil que tomar doce da mão de criança. E foi em sua companhia, aliás, que vivi minha primeira experiência com a maconha e, depois, com o LSD. Sim, porque o ceguinho adorava ficar doidão.
Paulo Romário e eu assinamos juntos muitas canções e alguns jingles. Em 1985, foi convidado para fazer a direção musical do espetáculo de revista A Vedete do Subúrbio (JL Rodrigues e Ronaldo Grivè), que além de músicas nossas tinham composições de Mirabô Dantas e Gedivan Albuquerque. A peça permaneceu oito meses em cartaz no Teatro Rival, tempo em que recebi meus primeiros direitos autorais como compositor.
Numa tarde, cheguei à sua casa e fui recebido com uma novidade. Sentou-se ao piano e me mostrou um tango, que havia composto na véspera. Música belíssima, que em nada ficava a dever ao gênero portenho nos idos da década de 40. Assim, decidimos que os versos precisavam manter essa característica, falando de coisas como apartamento, penumbra, bebida, embriaguez e, sobretudo, traição. Três dias depois, voltei com a letra, contendo todos esses ingredientes, mas com um dado pouco usual ao tango: a história narrada por uma mulher. Eis a letra:
UM TANGO
Quando você disse que me amava
Tinha um disco na vitrola
Que tocava um tango antigo de Gardel
Tinha média luz no apartamento
E um perfume doce, inebriante
De amor, suor e cio
Um tango, assim, se não me engano
Corpo-a-corpo, mano-a-mano
Com sabor de nostalgia.
Como esquecer aquele dia
Um passado tão presente
Dentro do meu coração?
Vendo-me enlaçada em seus braços
De temores e fracassos
Esquecida, num instante fui ao céu
Só de me lembrar desse momento
Fico a respirar tão ofegante
E ainda me arrepio.
Confirmando que te amava
Nós erguemos nossas taças
E bebemos mais um trago.
Disse: – Esta noite eu me embriago
De champanhe, de perfume
De prazer e de paixão.
Mas depois que um tempo se passou
Você se revelou a criatura
Que chegou só pra me ver sofrer
E fez do nosso amor uma aventura.
Desprezou tanta dedicação
Levou meu coração quase à loucura.
Fez do nosso lar um lar desfeito
E manchou o nosso leito
Com o amor de outra mulher.
Hoje, quando toca um tango antigo
E eu me sinto bem comigo
Reconheço que foi triste o seu papel.
Falo sem nenhum ressentimento.
Penso que eu já sofri bastante
E venci o desafio
Da tristeza e da saudade
E voltei à realidade
Pois na vida tudo passa.
Ponho outro disco na vitrola
Ouço um tango de Piazzolla
Pra viver nova emoção.