Ter idade suficiente para ver as bandas que surgiam nos anos 80 e ver elas crescerem até a primeira metade dos anos 90, foi uma experiência incrível! Por que os anos 80, vieram com uma energia muito positiva, era o fim do período de castração que a ditadura militar impôs nesse país e várias pessoas que estavam exiladas voltaram. E a Arte estava de braços abertos querendo dar voz à toda uma nova geração que mudaria as coisas pela frente. No teatro, grupos como Asdrúbal trouxe o trombone, que revelaria nomes como Regina Casé, Luís Fernando Magalhães e Evandro Mesquita, traziam uma nova forma de humor que faria escola. Evandro também foi um dos protagonistas da banda fenômeno Blitz, que revelou Fernanda Abreu e teve como baterista o Lobão. Nas areias do Arpoador, nasceu o Circo Voador, palco revolucionário que após o verão de 82, voou até a Lapa e lá em frente aos Arcos, pousou e abrigou nomes diversos que iam de Barão Vermelho à Dercy Gonçalves, de Gilberto Gil à Celso Blues Boy, de Ratos de Porão à Tim Maia!
E por falar de Ratos, como não lembrar das bandas Punks paulistas que bem ou mal, expandiram a idéia de que no Brasil, também poderia haver garotos e garotas com alfinetes, correntes e moicanos? Eram o tempo de bandas como Cólera, Inocentes, Olho Seco e também, Garotos Podres, que mesmo direcionada à outro movimento, sempre era colocada no balaio que veio à ser chamado de Punk no Brasil. Mesmo assim, não deixou de chamar atenção e atrair muitos jovens inconformados que encontraram no Punk, um caminho à seguir. E os Punks se espalharam, no Rio, tinham entre outros, Coquetel Molotov e Desordeiros, em Minas, o Atack Epiléptico e na cena nordestina, a Karne Krua, que mostravam que longe da velha Londres, o Punk soube criar voz e personalidade, falando de Anarquia e dos diversos problemas que tinham que ser denunciados.
E se no Punk tinha barulho e berros, também haviam outros jovens que buscavam no peso das guitarras darem voz aos ensinamentos de bandas como Black Sabbath, Venom, Motorhead e Iron Maiden. Deste seguimento surgiram importantes nomes como Dorsal Atlântica, Metalmorphose, Korzus e Viper. Mas foi de Belo Horizonte, Minas Gerais, que a versão sombria do Clube da Esquina apareceu, as bandas de Metal mais extremo que chocaram os desinformados com o seu visual e som carregado! Bandas como Sepultura, Sarcófago, Chakal e outras. Foi uma época rica, onde o underground não parava de crescer, apesar de todas as dificuldades. O próprio Sepultura, liderado pelo carismático Max Cavalera, após tocarem nos mais distantes buracos brasileiros, seguiu numa carreira internacional de bastante sucesso, que só foi paralisada em dezembro de 96, com a sua saída.
Os anos 80, tiveram o privilégio de ter uma abertura que favoreceu à muitos novos talentos. Para o Pop Rock Brasil, foi ótimo ter programas como Cassino do Chacrinha ou Globo de Ouro, na Rede Globo, ou Perdidos na Noite, de Fausto Silva, na Bandeirantes, por que ao se misturar com outros artistas de estilos diferentes e tendo aval da mídia por trás disso, essas bandas caíram no gosto popular e venderam bastante! A edição do primeiro Rock in Rio, também favoreceu essa popularidade, apesar do tratamento desfavorável que praticamente todos os artistas brasileiros reclamaram da produção do festival. Outro braço forte à dar apoio às bandas nacionais, foi a MTV Brasil, que numa programação totalmente musical, exibia direto os clipes em sua grade. Não podemos esquecer também das revistas que traziam as novidades do meio musical e do cinema, como Bizz, Metal, Roll, Set, Rock Brigade, como também da fantástica Chiclete com Banana, do Angeli, que apresentou pra muita gente, personagens como Rê Bordosa, Bob Cuspe e Bibelô, como também outros cartunistas como Laerte e Glauco. Os anos 80 vieram cheio de gás e energia, era a voz jovem botando a boca no trombone!
E São Paulo não tinha apenas Punks, de lá também vieram nomes como Ira!, Titãs, Violeta de Outono, Tokyo, que tinha como vocalista, um jovem rapaz chamado Supla. Em São Paulo, casas como Napalm, Aeroanta e Lira Paulistana, fizeram história. Inclusive, na Lira, a chamada Vanguarda Paulista praticamente nasceu. Eram artistas inclassificáveis como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, por exemplo.
Dessa época, ainda vieram nomes como Os Cascavelletes, TNT, De Falla e Engenheiros do Hawaii, que mostraram que o Rio Grande do Sul, também sabia de Rock, assim como a Bahia, que antes já nos tinha presenteiado com Raul Seixas, nos anos 80, arregaçou com o Camisa de Venus, de Marcelo Nova. E no Planalto? Lá também teve gente antenada e talentosa que não podiam ficar na praça jogando milho aos pombos, de lá vieram Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial. Mas esse espírito inovador durou até o fim da primeira metade dos anos 90. Depois algumas coisas mudaram, os olhos da mídia e a economia em colapso iriam tentar fechar as portas para o Rock Brasil. Mas isso, amigos, é uma outra história.

Gutemberg F. Loki “Tubarão”.