Não tem jeito, sempre lembro de Luiz Gonzaga por algum motivo e hoje foi certamente por conta de Gilberto Gil e sua live-show de aniversário, onde calculo que mais de 10% das músicas tocadas foi de Gonzaga – ou de sua própria autoria ou de seu consagrado repertório.

Aliás, Gil já fez um disco e um show lindos em homenagem ao velho Lua e é sintomático um mestre da altura dele reverenciar e referenciar tanto o pernambucano de Exu, o rei criador do baião, seguramente o primeiro artista pop de verdade do país.

Nunca vai ser demais falar de Gonzaga, embora tanto já se tenha escrito e falado sobre o cabra. Talvez por ter assistido a essa emocionante live, aniversário de Gil, em meio a uma crise sanitária que nos recomenda isolamento; talvez só por ser sexta-feira mesmo e estarmos trancados; talvez apenas pelo fato de ser junho e junho é mês onde as festas populares nos envolvem e acalantam de uma forma especial; talvez pela soma de tudo isso. Mas o fato é que Luiz Gonzaga, via Gil, bateu uma onda forte hoje e revolveu várias lembranças muito significativas pra minha existência.

Acredito que os primeiros registros impressos no meu ouvido são justamente Gonzaga – e Jackson do Pandeiro – pelas vozes de minha mãe e minha vó. Paraíba, Asa Branca, Lá No Meu Pé de Serra, Xanduzinha e mais algumas músicas quando ouço me soam como algo que conheci mesmo antes de me entender como pessoa, um som de reconhecimento praticamente uterino. O som da voz de minha mãe cantando “ela só quer, só pensa em namorar” é praticamente um dispositivo de retorno à infância.

Família de migrantes da Paraíba, uma parte se radicou na Maré e outra em Caxias, cidade que já foi praticamente um estado do Nordeste, cuja feira no Estado do Rio só perdia em tamanho pra São Cristóvão. Comidas, vestuário, roupas, sotaques, musicalidade, todo meu universo de criança hoje me parece que tinha Luiz Gonzaga como trilha sonora. Daí o gatilho emocional, aliás… Fora que no decorrer da vida rolou a descoberta incrível de que uma parte considerável de sua família morou, e mora até hoje, em Santa Cruz da Serra. Com Dona Chiquinha, Dona Muniz, irmãs, e Joquinha, sobrinho, organizando saraus, encontros festivos, promovendo uma missa nordestina na Catedral de Santo Antônio, evento emocionante que poderia ter sido uma atração turística nacional, tal a força que tinha. Uma pena as marcas de Gonzaga por aqui não terem sido ressaltadas em seu devido valor.

Luiz Gonzaga é um fenômeno desses muito bons de se observar. O cara representou durante um bom tempo o nordestino que deu certo de um jeito diferente. Alguém que mostrou que havia muito mais na “matula” do que os estereótipos clássicos sobre nordestinos.

Aliás, é bom que se diga que Gonzaga foi um inventor e acho que é essa característica que falta de fato ser atribuída à sua figura. Embora os puristas se incomodem com essa sentença, mas é o fato é de que o baião, no formato tal qual Luiz cruzou o país cantando, não existia antes dele. Mesmo sendo um representante legítimo do Nordeste, o baião nasceu no Rio de Janeiro… E foi inventado com intencionalidade por Luiz quando chama o advogado e poeta Humberto Teixeira pra criar letras para o repertório que já tocava com maestria; quando bola a inusitada formação sanfona-zabumba-triângulo (como Gil diz, o primeiro power-trio, pré-rock); e aquela indumentária referenciada no cangaço, talvez a primeira experiência de figurino pop para apresentações musicais no país. Quando se lê sobre a Rádio Nacional e o mercado fonográfico dos anos 40 e 50 fica ressaltado de forma nítida como a invenção do baião não só foi um sucesso radiofônico nacional de ponta a ponta, mas também se nota o impacto avassalador em toda a produção musical feita naquele momento. O baião, junto com o xote e o xaxado, influenciou a música, o modo de vestir, o modo de olhar para aquela região do Brasil. Criou hits nacionais, participou de filmes, inspirou gravações na linha regional, criou um campo, uma estética. O baião bombou e foi uma invenção nos moldes de como as escolas de samba foram uma invenção da turma do Estácio, algo proposto com muita consciência em seus objetivos iniciais.

Pedindo desculpas antecipadas e encarecidas pelo possível sacrilégio, arrisco dizer que em termos de influência cultural para o resto do país, Gonzaga talvez tenha feito o que a Revolução Praieira não pôde realizar, por não ter tido êxito, e o que Os Sertões, de Euclides da Cunha, deu uma começadazinha por aqui no Rio: mostrar o Nordeste como uma potência criativa e não um lugar folclórico e atrasado. Com Humberto Teixeira, e depois Zé Dantas, eles teceram uma poética que foi se enraizando pelo país e definindo o que depois ficou conhecido como música nordestina. Muito mais do que aquele idealizado Luar do Sertão, do Catulo da Paixão Cearense, mas sim um lugar com contradições, cheio de paixões, conflitos, sofisticações, alegrias e encantos.

Enfim, o papo é longo e como disse, nunca é demais falar de Luiz Gonzaga.

E como é legal ver que os elos estão aí ainda, apesar dos massacres culturais cotidianos. Como é bom ver que a referência de Gilberto Gil ao Rei do Baião deixa à mostra como o nome e a obra do cara vão continuar se perpetuando no coração do povo brasileiro. E como é lindo ver a força dos criadores populares desse país e o encanto sempre vivo pela obra de alguém que até hoje inspira gente a compor e tocar por esse mundão a fora.

Viva Luiz Gonzaga.

[ heraldo hb – junho de 2020 ]


heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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