Não tem a menor coerência desejar feliz dia das crianças e apoiar o bolsonarismo, mesmo sabendo que coerência não chega a ser uma preocupação pra essa galera. No máximo poderiam desejar um feliz dia de algumas crianças. É duro, mas é isso.
Para a maior parte das crianças do país essa gente dá é um grande foda-se, sem nem mais se sentir constrangida por isso, como há uns anos. Agora é de boas. É meritocracia mesmo, feliz dia das minhas crianças e o resto que se foda. A ideologia do individualismo e da morte.
Ter milhões de crianças sem o que comer não é sequer assunto. Tem criança quebrando pedras, morrendo intoxicadas em carvoarias, morrendo de doenças do século dezenove? Foda-se, não são da minha família. Viva a família. Sim, senhor presidente, em nome da família eu voto sim.
O bolsonarismo é um fenômeno que colou certinho na sociedade brasileira, dando nome a algo de muito sinistro que acompanha o país desde o nascedouro. Mas que agora atinge níveis inacreditáveis de distorção da linguagem e acabamento. É um salvo conduto pra ser apoiador da violência mais brutal possível, sem vergonha de se declarar e, aliás, em muitos casos, ostentando orgulho. Tem que matar mesmo.
E a infância é onde esse discurso violento é mais cruel. Pelos interiores do país, são os “homens de bem” detentores do poder que dão cobertura para as redes e os mecanismos de exploração sexual de crianças, por exemplo. Fato sabido, denunciado, explícito. Delegados, policiais, juízes, vereadores, deputados – e com uma coisa em comum: todos bolsonaristas. Todos pela moral e bons costumes, todos contra o Bolsa Família, todos falando de um Jesus vingativo e capitalista. Todos hoje desejando feliz dia das crianças por aí.
É no tratamento à infância que o país exibe sua face mais bizarra. Mais que o desamparo, a condenação à morte por fome, bala e falta de perspectiva.
Não tem como dissociar uma coisa da outra. A primeira medida do temer ao assumir a presidência após o golpe foi instituir uma emenda constitucional que congelou por vinte anos, CONGELOU POR VINTE ANOS, os investimentos sociais no Brasil e isso significa, entre outras coisas, assassinar o futuro das crianças de hoje e das que virão. O projeto de país que está no poder precisa da fome, da ignorância e da doença do povo para se perpetuar, para quem ninguém questione a merda de vida que a desigualdade social nos proporciona e nos condena.
Bolsonaro é só a continuação desse projeto de morte, só que sem nenhum verniz, nenhuma mesóclise, assumindo que tem que matar essa molecada mesmo, no melhor estilo “tiozão sincero” num churrasco de domingo.
Enquanto nos zapes e nas redes sociais da vida o dia hoje é de mensagens fofas do dia das crianças, a vida real da infância e da juventude no país afunda em nível dramático. E com a fome voltando a ser normalizada, essa que é a maior das violências num país rico em produção de alimentos. Com a hipocrisia reinando absoluta nesse novo pacto macabro, com o supremo e com tudo.
Não dá pra apoiar o bolsonarismo e desejar sinceramente feliz dias das crianças. Foi mal. No mais, cuide de sua saúde e, principalmente, cuide da sua criança interior.
[ heraldo hb – outubro de 2020 ]

heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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