No final do mês de fevereiro, vimos a chegada do novo coronavírus a nosso país. Inicialmente isso não nos preocupou muito, pois vale a crença de que brasileiro é forte e aguenta qualquer coisa. Contudo, o aumento do número de infectados e a experiência que outros países nos esfregaram na cara, tanto de sucesso com isolamento social, como de desastre ao ignorar essa medida – que foi recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – fez com que alguns governadores e prefeitos adotassem a quarentena para que a curva de contágio se alongasse e assim evitássemos o colapso do sistema de saúde, seguindo as recomendações do então ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta e ignorando o discurso e pronunciamentos oficiais do (des)presidente Jair Bolsonaro.

Duque de Caxias foi uma das últimas cidades do país a adotar tal medida. E quando o fez, o prefeito fez questão de frisar em vídeo junto à vereadora Leide que as Igrejas Universais permaneceriam abertas, posto que a “cura viria de lá”. O que é bem curioso, pois quando o prefeito foi acometido pela temida doença, procurou tratamento em um hospital particular na zona sul do Rio de Janeiro e não uma dessas igrejas, tampouco o Hospital Dr Moacyr do Carmo, cenário de vídeos diários do gestor em sua exaltação ao que ele chama de “hospital de referência” de toda a região. Esse atraso nos coloca hoje como a segunda cidade com maior número de mortes por coronavírus do estado.

Com praticamente o mundo inteiro em isolamento social e a suspensão das aulas nos quatro cantos do mundo, eis que um problema foi percebido e evidenciado em depoimentos e postagens através da rede mundial de computadores: o que fazer com as crianças?

Quem paga mensalidades caríssimas de escolas particulares passou a exigir que essas instituições dessem um jeito de ensinar seus filhos usando o Ensino a Distância (EaD), afinal, o computador, o tablet, o celular de última geração e a rede de alta conexão de preços absurdamente altos não poderiam servir apenas para jogos, “lacração nas redes sociais” e conexão com amigos e familiares das crianças e adolescentes de dentro de seus frios quartos. Em tempo recorde essas escolas se adaptaram e passaram a encher os e-mails e ambientes virtuais de conteúdos e aulas on-line.

Mas não é essa realidade que me fez parar um pouco minha rotina de quarentena e escrever algumas linhas de indignação, mas a realidade dos meus alunos: os alunos da rede pública de ensino, que você, que agora lê esse texto, talvez não conheça. Vou tentar te apresentar um pouco do que é a vida nas favelas e comunidades da cidade de Duque de Caxias, Rio de Janeiro.

Sabe os aparelhos que citei anteriormente? Os computadores de última geração, a rede de alta conexão? Então. Esqueça tudo isso. Isso não faz parte da vida do alunado de Caxias. Aqui não se tem computador em casa, o acesso à internet é feito a partir de celulares (geralmente comprados em mercado paralelo) e de modo precário. Sabe a conta de celular? Substitua por cartão pré-pago, que dá direito a entrar no Whatsapp, Facebook e Instagram sem uso dos dados de conexão, o que garante que aquele cartão de dez reais dure até o fim do mês. Aqui a preocupação não é “lacrar nas redes sociais”, mas garantir o “corre” que vai trazer o pão pra mesa. Por aqui não há quartos frios, mas casas de dois ou três cômodos que abrigam famílias de cinco, oito, dez pessoas. Não há água para lavar a mão, tomar banho, fazer comida. Isso em tempos normais.

Essas crianças também deixaram de estudar e o maior dilema das mães é como alimentá-las, posto que a maioria delas fazia sua principal refeição na escola. Com a Covid-19, acabaram os bicos, fonte principal de renda dos responsáveis. As diaristas, manicures, camelôs, cabeleireiras, lavadeiras, passadeiras, vendedoras, explicadoras, doceiras e todo tipo do que se considera “empreendedoras” individuais, “guerreiras”, perderam de um dia para o outro sua renda. A solução imediata da prefeitura foi oferecer o absurdo valor de 50 reais para cada aluno, através de um aplicativo, para serem gastos em estabelecimentos credenciados. É claro que isso não deu nem para o cheiro do arroz com feijão e o prefeito teve a “brilhante” ideia de pedir que a própria população doasse dinheiro para essas famílias através da plataforma. Segundo ele isso resolveria o problema da fome e da falta de dinheiro para comprar sabão e álcool em gel.

Mas e os 200 dias letivos? Essa prefeitura tem trauma com o descumprimento desses. Ora, vamos à EaD. Ontem recebi com estarrecimento o ofício com as explicações de como seriam feitas as tais aulas on-line. Elas serão ministradas em duas plataformas diferentes e a SME disponibilizará material de apoio aos professores. As Unidades Escolares têm 10 dias para enviarem seu plano de ação à Subsecretaria Pedagógica, portanto até o dia 27/4/2020 e os professores que quiserem aderir ao regime de aula extra (dobra) devem sinalizar à direção da escola. A partir daqui justifico o título desse texto. Estamos no último ano do mandato desastroso e criminoso do prefeito que destruiu a educação desse município. Passamos quatro anos com as escolas caindo aos pedaços, os alunos sem uniforme, sem material, muitos sem professores, sem aulas de artes, educação física, informática educativa, inglês, sala de leitura, física, química, matemática, história, geografia, português, ciências. Os profissionais da educação dessa rede estão há quatro anos com salários atrasados, rebaixados, escalonados, descontados em período de greve, com o plano de carreira sendo aniquilado e diversos direitos (duramente conquistados) retirados através de seguidos “pacotes de maldades”, o último enviado à Câmara Municipal na véspera do isolamento social. Nem a pandemia comoveu Washington Reis e o fez parar de nos atacar.

Falo agora da realidade do professorado de Caxias. Com os constantes atrasos salariais nossas contas também estão atrasadas, tivemos de economizar de todos os lados, fomos despejados, nossos nomes estão no SPC, Serasa, etc. Nos afundamos em dívidas. Voltamos a morar com nossos pais. Temos que cuidar deles também, já que os aposentados dessa cidade estão em situação ainda pior, tivemos de fazer bicos para comer e, infelizmente, alguns de nós perdemos a vida. Somos constantemente desrespeitados por esse (des)governo que agora nos pede para dar aulas on-line, sem nenhum tipo de planejamento, formação, condições financeiras, psicológicas e estruturais, não só nossos, como dos alunos também. Não nos pagam nem as aulas presenciais! Não venham colocar esse peso sobre nossos ombros, como todos, estamos tentando sobreviver e não é de hoje, nem é só ao coronavírus, mas principalmente ao Washington Reis e todos os que compõem a sua administração.

Paguem nossos salários, protejam nossa população e criem vergonha na cara!

Carol Almeida
18/4/2020