Meu contato com Aldir Blanc. No fim do ano passado consegui falar com Aldir Blanc e ele disse que viria, com prazer – o mesmo com João Bosco, através da sua filha Julia -, para estar conosco, no Morro do Embaixador, Vila São José, em São João de Meriti, no ato de colocar a pedra fundamental, com o povo meritiense, para a criação do Museu Marinheiro João Cândido. Isso seria no dia 21 de março, dia dedicado aos 21 Dias de Ativismo contra o Racismo, mas o início da pandemia não permitiu. Aldir Blanc e João Bosco foram os responsáveis (junto com Edmar Morel, autor do livro a “Revolta da Chibata”) por tornar viva e perpetuar a história desse Herói Nacional quando comporam, em 1975, o canto de resistência em poemas a música “O Mestre Sala dos Mares”, imortalizada na voz de Elis Regina, em homenagem ao Almirante Negro. Hoje a luta segue protagonizada por seu único filho vivo, Adalberto do Nascimento Cândido, o Candinho, de 81 anos.

 

Desde 1988 que acompanho a família de João Cândido Felisberto, O líder da Revolta da Chibata. Estive ao lado de sua filha Zeelândia Cândido (1926 – 2006), quando fomos algumas vezes a Brasília, para nos reunir com a então senadora Marina Silva, autora do Projeto de Lei que concede anistia post-mortem para o marinheiro João Cândido Felisberto e aos demais participantes da Revolta da Chibata.
Anos depois estávamos novamente em Brasília para acompanhar a sessão, no Plenário, que aprovou o projeto do senador Paulo Paim (PT-RS) determinando a inscrição do nome de João Cândido Felisberto, militar brasileiro negro da Marinha de Guerra do Brasil, nascido no Rio Grande do Sul, e que liderou a Revolta da Chibata (1910), no Livro dos Heróis da Pátria. O deputado federal Chico D’Ângelo deu continuidade e apresentou projeto de lei para inscreve o marinheiro no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. A questão é que Eduardo Bolsonaro, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, cria dificuldade para reconhecer João Cândido como herói do Brasil.
A nossa última viagem foi em 2005 para o encontro com o então presidente Lula, e levamos duas pautas construídas em conjunto com os movimentos negros. Depois disso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, com um veto, projeto de anistia ao marinheiro de 1ª classe João Cândido Felisberto (1880-1969), o “almirante negro”, líder da Revolta da Chibata, e aos demais participantes do movimento. Cândido morreu pobre aos 89 anos. O artigo vetado previa pagamento relativo às promoções a que teriam direito os anistiados se estivessem permanecido na ativa, além de pensão por morte. O argumento do governo para derrubar o artigo foi o impacto orçamentário à União e o fato de não existirem parâmetros para quantificar estes valores. Além disso, um navio da Transpetro foi batizado com o nome de João Candido.
No Estado do Rio, a Alerj, partir da Lei de André Ceciliano e Waldeck Carneiro aprovaram João Cândido Herói Estadual. Em São João de Meriti o projeto municipal de lei que torna João Cândido Herói Municipal é assinado pelo vereador Aldinho Hungria.
O Ministério Público Federal (MPF) recomendou ao município de São João de Meriti a instalação de placas que identifiquem os locais de trajetória de João Cândido no município, e que seja estabelecido, junto com os familiares do marinheiro, uma agenda de medidas de reparação à sua memória na cidade. Além das placas e identificações acompanhamos o processo que vai até a incursão em universidades de duas das bisnetas do Marinheiro.
Como mais uma ação do processo de reparação está em fase a construção do Museu Municipal Marinheiro João Cândido a ser erguido na Casa do Embaixador, no Morro do Embaixador, na Vila São José, São João de Meriti. O projeto prevê aparelhamento do museu — com biblioteca e centro de documentação — e obras de infraestrutura no entorno.
A Revolta da Chibata aconteceu em novembro de 1910, na Baía de Guanabara (RJ). O movimento era contrário à punição física a marinheiros por meio de chibatadas, conforme previa o regimento da força naval de guerra, e foi deflagrado após a morte de um marinheiro negro que recebeu cerca de duzentos açoites. Os marinheiros recebiam os soldos mais baixos e as piores refeições. A revolta acabou vitoriosa e o governo brasileiro extinguiu essa modalidade de punição na Marinha. João Cândido ficou conhecido como o “Almirante Negro” ou “Navegante Negro”, e foi homenageado pelos compositores Aldir Blanc e João Bosco com música O Mestre-Sala dos Mares.

“O MESTRE SALA DOS MARES”
por Aldir Blanc, João Bosco e a Censura

Sobre a censura à música “O Mestre Sala dos Mares”, o compositor Aldir Blanc conta: “Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas a um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (…) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte: vocês não estão entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando.
Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um “telefone” nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:
– O problema é essa história de negro, negro, negro…”
“O Mestre Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre “nas pedras pisadas do cais”. A mensagem de coragem e liberdade do “Almirante Negro” e seus companheiros resistem.

O Mestre Sala dos Mares – (LETRA ORIGINAL, SEM CENSURA)

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu

Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo

O Mestre Sala dos Mares – (LETRA APÓS A CENSURA)

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas
dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo
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João Cândido Felisberto, o Almirante Negro. Presente!

Filho de escravos, João Cândido Felisberto nasceu em 24 de junho de 1889, em Encruzilhada, no Rio Grande do Sul, e, aos 15 anos, ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre. Depois que foi expulso da Marinha viveu em São João de Meriti, município da Baixada Fluminense, Estado do Rio de Janeiro e morreu em 6 de dezembro de 1969, no Hospital Getúlio Vergas, Rio de Janeiro


Por Sílvia de Mendonça


Sílvia de Mendonça

Formada em jornalismo e produção cultural, Sílvia de Mendonça também é atriz e ativista do Movimento Negro Unificado (MNU). Também tem presença nas lutas contra intolerância religiosa, juventude negra e direitos humanos.

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