Nasci em Duque de Caxias, e aqui vivo até a presente data, não há orgulho ou autopiedade no que relato, apenas constatações.
Quando jovem nascida e crescida nas proximidades do valão do Jacatirão no bairro Itatiaia, brincava às suas margens no terreno baldio, onde eram despejados, recorrentemente, lixo de várias origens, cheguei a usar muitas coisas de lá como madeira e tecidos para fazer trabalhos escolares, cortei e furei o pé em latas e pregos.

Tomava antitetânica no SAMDU onde hoje é um espaço social/educativo privado.

A cidade com seu comércio, trem, ônibus… Muita gente indo e vindo, hoje um pouco mais alucinado.

Não aprendi sobre a história Baixada Fluminense na escola, aprendi quando estava lecionando para o ensino fundamental dois com o auxílio do Professor Antônio Augusto, do Museu Vivo do São Bento. Ele fez uma palestra para uma turma de nono ano, onde eu pude aprender muitas coisas.
Entendi que no transcorrer dos tempos muita coisa ficou do mesmo jeito, lugares sem saneamento (água, esgoto…) até os dias de hoje, grilagem de terras, pobres sendo empurrados mais para longe dos centros. Onde a exploração e o quanto mais pobre for a maioria das pessoas, melhor, para os mandatários (mandatários s.m. aqueles que mandam, não os que governam, que por vezes são os mesmos ou se fazem representar, enfim…).

Quando adolescente, vivia sendo assombrada pelo fantasma da “curra”. Crescendo assolada pelo machismo, assédio e à mercê da reificação crescente das mulheres e viventes da BF.

Agora, madura, compreendo que morar na Baixada Fluminense significa o mesmo que ganhar um prêmio, pois o aprendizado que tive aqui não teria em lugar nenhum. Se não estivesse aqui não teria conhecido o Rodrigo Mais Alto da BF, os jovens da União Baixada Ativa, as Bibliotecas Comunitárias, as crianças, jovens e adultos com as quais trabalhei durante os meus 35 anos de sala de aula (completando daqui a pouco em primeiro de agosto do corrente ano). E tantas outras vivências com pessoas neste local.
Todo lugar é assim, tem onde podemos estar e onde precisamos evitar!

Cabe a cada um fazer suas escolhas, mudar de dentro para fora, quem sabe assim muda o mundo (é claro que o desejo é para melhor).
Finalizando, gosto muito do provérbio curdo que diz “se queres pérolas, mergulha no mar.” Meu mar é a BF, as pérolas são os amigos que colhi há longos anos, que compartilham ou não do que sinto, penso, falo e faço, e que são pérolas preciosas.

Lavinia Costa