Somos filhos das periferias!
Foto: Ewerton Pereira, 2025
A Nação do Mangue, título do enredo de autoria do carnavalesco Antônio Gonzaga e do pesquisador Jader Moraes para o carnaval do G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio em 2026, se apresenta ao mundo como uma afirmação da vida nas periferias. O enredo surge de um movimento cultural, social e musical, que emerge das comunidades negras e periféricas de Pernambuco na década de 1990: o Manguebeat.
O movimento denunciava a precariedade e a desigualdade que assolavam Recife-PE, eleita a quarta pior cidade do mundo para se viver pela ONU na mesma década. A vida humana, dos animais e dos mangues estavam integradas, entretanto não apenas por uma biointeração – palavra semeada pelo lavrador e quilombola Antônio Bispo dos Santos (2023) -, mas pelo o que ele mesmo chamaria de cosmofobia, uma aversão ao cosmos e às vidas em relação, praticada pelas elites.
De maneira insurgente, o expoente Manguebeat se diferenciava dos movimentos culturais da “antiga Recife”, que prezavam pela manutenção de uma tradição cultural pernambucana isolada. Diferenciava-se também das produções da indústria fonográfica brasileira, que, naquele contexto, se caracterizava pela massiva importação de referências. Nesse sentido, o movimento reprocessou essas culturas e criou uma produção estética, musical e política própria. Que pode ser identificada desde a imagem da antena parabólica enfiada na lama com caranguejos em volta até o som metálico da guitarra do rock junto das alfaias do maracatu rural.
Constituído por diversas figuras e grupos, alguns nomes se destacam. Conforme as publicações realizadas nas redes sociais da Grande Rio, com pesquisa de Jader Moraes, posso citar: Chico Science, o cientista social da lama que liderou o movimento e a banda Nação Zumbi; Fred Zero Quatro, o criador do manifesto “Caranguejos com cérebro” e líder da banda Mundo Livre S/A; Mestre Mau, um dos fundadores do grupo Lamento Negro, bloco afro fundamental para as bases do maracatu presente no Manguebeat; Mestre Salu, grande mestre da cultura popular pernambucana e precursor do movimento; e Karina Bhur, líder da banda Comadre Fulozinha, formada majoritariamente por mulheres e batuqueira de maracatu.
Dessa forma, juntamente do já citado Jader Moraes e Renato Lemos1 na construção da sinopse do enredo, de toda a equipe de criação, composta por Karolini Costa, Jovanna Souza, Rachel Martins, Diego Ribeiro, Alex Carvalho, Caio Cidrini e Érico Nunes, de todos os demais funcionários e segmentos da Grande Rio e, não menos importante, da sua comunidade tricolor caxiense, Gonzaga nos convida a erguer a Nação do Mangue!
O contexto do Manguebeat orienta o carnavalesco Antônio Gonzaga para, mais que uma reprodução histórica do movimento, reivindicar uma revolução das periferias. Esta, que emerge do Mangue Ancestral de Nanã Buruquê, orixá da lama que molda nossos corpos, e mergulha fundo na Manguetown, onde homens e caranguejos se confundem em tamanha desgraça, como cantado por Chico Science e Nação Zumbi em “Da Lama ao Caos”.
Gonzaga lidera essa reivindicação popular mostrando que as maiores revoluções se fazem com corpo em movimento e que, assim como nos ensinou um folião chegado nosso, Beto Sem Braço: o que espanta a miséria é festa! Por isso, traz o Mangue Festa como defesa da Nação. Entretanto, a folia começa a ser reprocessada pelos bits da internet e beats das novas batidas, que formam o Manguebeat. Eles se espalham por toda e qualquer periferia que se identifique e queira somar nesse Antromangue, universo idealizado por Science, em que as periferias podem exercer sua liberdade e vida com dignidade.

No ano em que Chico Science completaria 60 anos,2 a escola de samba de Duque de Caxias-RJ dá mais um banho de cultura.3 A Acadêmicos do Grande Rio ensina que as periferias de Recife e Olinda, onde o Manguebeat nasceu, estão integradas às periferias de Caxias e do Brasil. Além das cidades estarem margeadas pelos mangues e pela miséria social, elas também pulsam através de “raízes-veias” que se comunicam e ressignificam a vida como “símbolos de fertilidade, resistência e reinvenção” (Gonzaga; Moraes; Lemos, 2025).
A vida e a cultura que emergem das margens é que vão salvar a cidade!
(Trecho da sinopse do enredo A Nação do Mangue – 2026)
Vamos vestir o manifesto, somos filhos das periferias!
(Trecho do discurso de Evandro Malandro no samba-enredo da Grande Rio – 2026)
Referências
Barbeirinho; DO ARRASTÃO, Bebeto; DA GRANDE RIO, Jailson. Na era dos Felipes o Brasil era espanhol. In: Nêgo. Rio de Janeiro: Acadêmicos do Grande Rio, 1995.
GONZAGA, Antônio; MORAES, Jader; LEMOS, Renato. Sinopse G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio 2026. Rio de Janeiro: 2025.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu/Piseagrama, 2023.
SCIENCE, Chico. Da lama ao caos. In: Nação Zumbi. Rio de Janeiro: Chaos/Sony Music, 1994. 1 CD.
1 Pai de Antônio Gonzaga e ator fundamental para o carnavalesco conhecer o movimento Manguebeat.
2 O líder do movimento Manguebeat teve sua vida interrompida precocemente em 1997, aos 30 anos, em decorrência de um acidente de carro em Recife.
3 Expressão presente em seu samba-enredo de 1996, cujo enredo chamava-se Na era dos Felipes o Brasil era espanhol. A estrofe completa da qual o trecho foi retirado, reverência: “Imponho, sou Grande Rio, amor / Dando um banho de cultura, eu vou / Pro abraço da galera, me leva / Lindo como o pôr do Sol eu sou” dos compositores Barbeirinho, Bebeto Do Arrastão e Jailson Da Grande Rio.
