Falar em LURDINHA pra qualquer caxiense da minha geração, remete a Tenório Cavalcanti. É que o Homem da Capa Preta, como ficou conhecido nacionalmente, portava sempre sob seu manto negro uma metralhadora INA, com um pente carregado e outro sobressalente, a qual deu o nome carinhoso de Lurdinha. O que me parecia ser lenda, foi mais tarde confirmado pelo próprio.  Numa entrevista a um órgão de imprensa do Rio, ele declarou que realmente possuía a tal metranca, que lhe fora presenteada pelo general Góes Monteiro, ex-ministro da Guerra de Getúlio Vargas. Acho que faltou alguma coisa ao repórter, para que os leitores ficassem sabendo o que levou um oficial do Exército a doar pra um deputado, uma arma de uso exclusivamente militar. O que Tenório teria feito por ele, para merecer tal mimo? O que se soube, mesmo, é que num dos primeiros dias pós-golpe de 64, os milicos invadiram sua casa e confiscaram o brinquedo.

No exercício do jornalismo, estive algumas vezes com Tenório. Uma delas em sua casa, na velha chácara da Vila São José. Nunca o entrevistei, mas ao observá-lo com atenção, ele me revelava um homem muito inteligente, sagaz, de prosa envolvente e que não deixava pergunta sem resposta – mesmo que esta fosse estapafúrdia. E foram exatamente essas qualidades, que elegeram por tantos mandatos um político demagogo e populista. São inúmeras as passagens que se contam, sobre sua perspicácia e verborragia. A mais clássica, talvez, é a que lembra um discurso inflamado que fez da tribuna da Câmara Federal, onde citou aleatoriamente uma frase, que atribuiu a Rui Barbosa. Um deputado, autor de livro sobre a Águia de Haia, pediu um aparte e contestou. Segundo ele, Rui jamais havia escrito aquilo. E o Capa Preta, sem perder a pose:

– Concordo com Vossa Excelência. Esta frase o célebre baiano jamais escreveu. Esta frase, nobres deputados, Rui Barbosa disse para mim, na intimidade.

E não é que essa passagem revela outra faceta de sua personalidade? Tenório Cavalcanti era extremamente vaidoso, e o excesso de vaidade o levava a mentir descaradamente. Sempre que alguém lhe apresentava um fulano, ele não dizia o tradicional “muito prazer” ou coisa que o valha. Invariavelmente, replicava:

– Ora, fulano? Então eu não conheço o fulano?

E, virando-se para o apresentado, completava:

– Fulano, você está me devendo uma visita. Nunca mais foi lá em casa, tomar um café comigo. E então, quando é que você vai lá de novo?

Pronto! Estava armado um jogo, que ninguém conseguia desarmar. Satisfazia sua vaidade (dando a impressão de que conhecia e chamava pelo nome, todos os moradores de Caxias), com a certeza de que não seria contestado. Quem haveria de fazê-lo? Além do mais, com isto, massageava o ego do apresentado, que ficava com certo “ar de importância” diante do apresentador. Era voto contado.

Lembro-me que em 1980, quando estávamos fundando o Diretório caxiense do PDT, estive na chácara, em companhia dos jornalistas Wilson Reis, Roberto Ruabela da Costa e Francisco Canavarro, então editor da Luta Democrática (jornal fundado por Tenório), que nos formulou o convite.  Era um sábado pela manhã e encontramos o deputado (manteve este título, até morrer) de pijama e chinelos, repousando numa rede na varanda. Ele nos recebeu de forma amistosa e pôs-se a contar casos… casos… casos… todos de obscura fronteira entre a ficção e a realidade. Além de nós quatro, estavam lá mais uns três visitantes. Uma platéia mais que suficiente pro homem exercitar sua vaidade.

Num dado momento, ele começou a louvar as suas qualidades de bom atirador. Segundo ele, foi esta “pontaria infalível” – como classificou – que lhe deu fama de pistoleiro, de matador. Daí passou a narrar um fato, que eu e todos os presentes já conhecíamos por leitura em jornais ou ao vivo, contado por ele mesmo, pois era um dos seus casos favoritos. Deixemos que o deputado fale:

– Certa vez, eu estava numa fazenda e, à tardinha, me pus a olhar o tempo, de pé no alpendre do casarão. Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos no outono, naquele lusco-fusco crepuscular. De repente, que vejo? Um bacurau voando, a uns 20 metros de altura. Dali mesmo, puxei meu revólver (eu não andava sem ele!) e disparei um único tiro. Só vi quando o bacurau caiu morto aos meus pés.

Terminada a narrativa, houve um silêncio enjoado. Não sei se porque a história já era conhecida de todos ou se pelo absurdo do que ele havia contado, o fato é que, por alguns segundos, ninguém disse nada. Tenório, incomodado com a ausência de comentários, olhou-nos um a um e perguntou:

– Cês não tão acreditando, não?

Aí, cada qual se pronunciou, com frases curtas, desfazendo qualquer dúvida sobre a credibilidade do que ele contara.

Mas Wilson Reis não fazia por menos. Dentre as suas grandes qualidades, era dotado de um humor debochado, que muitas vezes ridicularizava o interlocutor, levando-o a crer que estava recebendo um elogio, uma aprovação. E mandou esta letra pro velho:

– Ora, deputado!… Ora, deputado!.. O que é um simples bacurau voando, no lusco-fusco de um crepúsculo outonal, para a sua pontaria já tão decantada em prosa e versos?

Tenório:

– Siiimmm!!!

 

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