Além de ter me feito rir muito por conta dos impagáveis memes e dos hilários vídeos dos fãs “enganados”, a vinda de Roger Waters ao Brasil nesse momento tão pomba-rolô me fez lembrar como o The Wall é um disco sensacional. Tinha me esquecido disso. Além de ser grandioso como um produto musical, o disco é uma das obras mais contundentes sobre o fascismo feitas no século passado.
Quando foi anunciada essa sua turnê pelo país meu amigo Igor, sujeito praticamente amamentado ao som de doses generosas de Pink Floyd, já tinha cantado a pedra: o cara vai dar um catuque sobre a situação bizarra que estamos passando. Não deu outra. Pra desespero de muita gente que jurava amores pela banda, mas que parece não ter nunca se tocado com as mensagens explícitas contidas nas letras.
No caso do disco The Wall, músicas como a emblemática Another Brick in The Wall, Comfortably Numb, Hey You, Mother e In The Flesh são verdadeiros petardos criados por Waters provavelmente processando fantasmas internos que envolvem traumas familiares, como a própria morte de seu pai na Segunda Guerra (o avô já tinha morrido na Primeira). O desencanto, a Guerra Fria, a devastação causada pelo capital, o fascínio pela retórica fascista, o consumismo vazio, menções explícitas ao nazismo, a crítica ao armamentismo – tá tudo ali nesse disco que é um dos clássicos da música mundial. E olha que a banda é autora do The Dark Side of The Moon, que figura em qualquer lista séria como um dos discos mais fodas de todos os tempos.
Lembro que ganhei o disco na adolescência num amigo oculto da empresa onde era office-boy, no centro do Rio, e lembro bem da sensação de ter em mãos aquele vinil duplo, pesado, com aquele encarte chapante… Essa lembrança é uma das coisas que salvou o dia hoje. Além, obviamente dos memes certeiros que me fizeram rir muito e pensar como tem um segmento na sociedade que vive uma paranoia classista altamente despolitizada e lamentável. Precisamos conversar sobre isso.
No mais, recomendo pra quem não conhece o disco dar uma ouvida com atenção. E sugiro também o filme feito pelo porradeiro Alan Parker, que acho que captou bem a amplitude estética, sensorial e desesperadora da obra.
Roger Waters, Pink Floyd, The Wall, Brasil, anti-fascismo, 2018, a parede da memória… Parece que nunca a arte foi tão necessária como nesses tempos sombrios que atravessamos. E tem muros em que não dá pra fica em cima.

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#pitacolândia – heraldo hb – outubro2018


heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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