Fazendo parte do projeto “Caravana da Cultura”, o dia 05 de agosto de 2015 foi marcado por um diálogo com o Ministro da Cultura Juca Ferreira.

O evento teve presença significante, constituída de uma variedade imensa de representantes do movimento cultural, que na realidade atuam como movimento social na Baixada Fluminense. Constata-se esse fato pelas falas dos presentes quando colocaram na pauta estigmas sociais da região; Igor Barradas do Mate com Angu,expressou essa situação muito bem contando que:“Quando eu era moleque as pessoas tinham vergonha de dizer que eram de Caxias… eu lembro que quando a gente falou que ia fazer um cineclube em Caxias na época, há 14 anos atrás, as pessoas falavam: ‘fazer cineclube em Caxias?! Isso não vai dá certo, isso não vai rolar’”.

Depois Barradas fez uma provocação ao falar da falta de fé na cidade. Provocou ainda mais o debate quando reivindicou editais para patrocínio de ficção e documentários de médio e grande porte. E afirmou: “A gente pode fazer”.

Outro momento emblemático na retratação do estigma social da Baixada foi quando Padre Bruno, responsável pela Paróquia São Simão em Belford Roxo, apresenta-se afirmando estar ali representando um município famoso pela violência. O Padre acredita que pela cultura é possível resgatar a juventude e complementa suas ideias no seguinte discurso: “Eu sou padre para defender e valorizar a vida”, diante dessa narrativa há aplausos do público.

Padre Bruno conclui falando da importância de valorização da cultura produzida pelas crianças e adolescentes, que ela pode ser um mecanismo de expressão dos bons sentimentos; segundo ele, a Paróquia São Simão, situada no bairro Lote XV, junto à outras pessoas de boa fé, está criando um movimento em Belford Roxo pela Paz através da cultura.

Ministro da Cultura, Juca Ferreira, na Lira de Ouro, em Caxias - foto Filipo Tardim
Ministro da Cultura, Juca Ferreira

 

Engrossando o caldo dentro desse contexto, o músico Marcelo Peregrino, da Pirão Discos, canta a pedra: “esse estigma de quem mora na Baixada não mora, se esconde. Aqui ninguém te vê”. E acrescenta falando que cultura é uma maneira eficaz de combater a violência. São vidas humanas que estão em jogo e sendo tratadas.

O espaço estava ocupado literalmente pelo movimento cultural desse grande Território Baixada. Porém, é importante não esquecer que em julho, o Terreiro das Ideias encerrou um de seus projetos, o Território Baixada.

Rogério Haesbaert, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense, afirma que o território nasce sob duas conotações, material e simbólica, pois etimologicamente está associada as palavras “terra e terror”, e sendo assim está estritamente ligado ao conceito de poder. Haesbaert (2005, p. 6774) descreve: “Ele diz respeito tanto ao poder no sentido mais concreto, de dominação, quanto ao poder no sentido mais simbólico, de apropriação”.

No dia 15 de julho, a Secretária de Cidadania e Diversidade, Ivana Bentes,esteve na Biblioteca Governador Leonel de Moura Brizola, na culminância de um projeto que vem acontecendo anualmente, o Território Baixada. A secretária possibilitou o desdobramento da vinda de Juca Ferreira e uma equipe de profissionais da área cultural.

A equipe que o Ministro Juca Ferreira trouxe para o Ponto de Cultura Lira de Ourofoi composta por secretários da ArticulaMinc; Vinícius Wu, da Cidadania e Diversidade; Ivana Bentes, de Fomento e Incentivo à Cultura; Carlos Paiva, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura; Pola Ribeiro, a presidenta da Fundação Cultural Palmares; Cida Abreu e a diretora substituta da Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, Suzete Nunes.

Com a presença do Minc (Ministério da Cultura), de artista, produtores e gestores da Baixada Fluminense, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, teve início, pontualmente às 14h, a Roda de Conversa.

Dentro dessa perspectiva acredita-se que o poder público possa incrementar políticas públicas para esse imenso território precário de equipamentos culturais públicos, mas, sobretudo, de políticas públicas que gerem maior incentivo para a fomentação das atividades artístico-culturais, com implementação de um Plano de Cultura e financiamento que possibilite contemplar a todos que promovem cultura na Baixada Fluminense. Segundo a Lei nº13.018, em seu Art. 2º, inciso I, o objetivo da Política Nacional de Cultura Viva é: “garantir o pleno exercício dos direitos culturais aos cidadãos brasileiros, dispondo os meios e insumos necessários para produzir, registrar, gerir e difundir iniciativas culturais”.

Ministro da Cultura, Juca Ferreira, na Lira de Ouro, em Caxias - foto Filipo Tardim
Casa cheia

 

O Ministro Juca, iniciando sua fala, trouxe ao conhecimento de todos uma polêmica que muitos criaram, a presença dele no Ponto de Cultura Lira de Ouro e não em um espaço maior como, por exemplo, um teatro. Afirmou estar ali por ter sido convidado, não por sua escolha e que ele vai onde é convidado, pois isso faz parte de um processo de diálogo. Pontuou a importância de ter estado pela manhã na câmara de São João do Meriti com os prefeitos e secretários de cultura e à tarde com os produtores culturais. Foi no mínimo interessante ouvir o ministro dizer que quando morou no Rio, na época que esteve clandestino devido a Ditadura Militar, vinha para a Baixada.

Segundo ele: “era meu lugar de segurança”Poderíamos dizer que esse é o paradoxo dos paradoxos.

Ele lembrou a importância desse território que outrora recebeu gente de todo o Brasil, trabalhadores do campo por causa da seca, por falta de Reforma Agrária migraram, e disse que aqui “é um pouco o retrato do Brasil”, sendo assim expôs uma verdade ao dizer que “essas pessoas trouxeram suas raízes culturais”. Seu discurso em relação ao seu conhecimento da Baixada estava repleto de memória, como ele mesmo afirmou. Comparou a Baixada Fluminense ao Uruguai para falar de sua relevância no que diz respeito ao contingente populacional, do qual a região abriga um número maior do que o país hermano. Em seguida mencionou a desigualdade em comparação a cidade do Rio de Janeiro.

Falou que na época da abertura do processo democrático, a Baixada Fluminense estava dando uma aula de cidadania: “Foi aqui na Baixada que começou um movimento de reconhecimento dos direitos da infância e juventude no Brasil” e lembrou dois nomes importante nesse debate, Volnei e João Carlos. Dentro desse quadro, enfatizou que a Baixada não é lugar só de precariedade, mas, e sobretudo, uma região de construção de cidadania.

Afirma que é obrigação do poder público nas três esferas (municipal, estadual e federal) apoiar os processos culturais para que todos tenham acesso pleno à cultura. Sendo o Estado responsável pela precariedade cultural do país, pela desigualdade, portanto, de acesso à cultura.

Ministro Juca Ferreira finaliza sua intervenção na Roda de Conversa trazendo uma proposta pós-encontro, uma reunião com Ministério da Cultura, Secretária Estadual de Cultura, Secretarias Municipais de Cultura da Baixada Fluminense e o Fórum de Cultura dos produtores culturais da Baixada para a elaboração de um programa, retomar um programa da época que ele foi Ministro, e diz: “vamos desdobrar essas possibilidades”.

Seguindo a conversa, Heraldo HB, vice-presidente do Ponto de Cultura Lira de Ouro, conta um pouco da história do ponto de cultura que foi fundado pelo sr. Acácio de Araújo em 1957, passando depois por um período de ocupação de milicianos e nos anos 2000, através da movimentação de pessoas engajadas na cultura, retorna à sua função original. Segundo Santos (2001, p. 69): “… função está diretamente relacionado com sua forma; portanto, a função é a atividade elementar de que a forma se reveste”.

Heraldo apresenta uma lista grande da presença de instituições que passa pela educação e cultura, religião, patrimônio histórico e arquitetônico e muito bem representado pela galera que está na ponta produzindo cultura na/da Baixada Fluminense. A lista estava imensa.

A ativista e produtora cultural do Terreiro das Ideias, que abriu os trabalhos do diálogo com o Minc foi Dani Francisco que apresenta de forma quantitativa a Baixada e diz: “Dentro de uma região com 13 municípios e 4 milhões de habitantes, todo equipamento é pouco, o que existe hoje é muito pouco”. Buscando se aprofundar no assunto, faz um questionamento sobre as políticas públicas existentes nos espaços culturais institucionalizados da região e cita como exemplo o teatro Raul Cortez. Acrescenta dizendo que é necessário pensar as políticas de ocupação desses espaços que já existem. Ao finalizar sua fala, pergunta quais são os incentivos para a produção cultural que é crescente e que incrementa a economia da região.

Seguindo no diálogo da Roda de Conversa esteve presente o cineclubista Diego Bion do Buraco do Getúlio, cineclube com atuação em Nova Iguaçu. Em seguida foi a vez do grupo de teatro Cosmo de Japeri, município que tem o pior IDH da região. Houve também a representação de gestores e artista que estão lutando pelo projeto “Minha Sede Minha Vida” como, por exemplo, na intervenção do artista plástico Dida Nascimento do Centro Cultural Donana de Belford Roxo.

E assim as pautas e questionamentos foram sendo colocadas no microfone aberto. O Voz da Baixada foi representada pelo jovem Jerffeson Barbosa; Segundo ele: “A cultura na Baixada Fluminense é a salvação para a nossa juventude”. E cita dois exemplos de coletivos culturais nesse processo, o cineclube Mate com Angu, em Caxias e o Movimento Enraizados, de Hip Hop, em Nova Iguaçu. Pôs para reflexão a existência de uma grande dicotomia: “quem são os secretários de cultura na Baixada Fluminense? Eles moram na Baixada Fluminense? Eles conhecem de verdade a Baixada Fluminense? A fala desse jovem vai além e coloca na pauta um conceito, a Baixada Fluminense é uma macro favela”.

Se analisarmos o conceito de favela, seu processo histórico, densidade populacional, ocupação desordenada, falta de saneamento, problema de infraestrutura urbana, IDH, renda, índices de violência, entre outros aspectos, e compararmos esses dados na Baixada, respeitando proporção e escala, talvez poderemos chegar à conclusão que a formação do espaço geográfico da Baixada Fluminense pode ter como conceito o que Jefferson aponta como uma hipótese na sua fala: “a Baixada Fluminense é uma macro favela”.

Ministro da Cultura, Juca Ferreira, na Lira de Ouro, em Caxias - foto Filipo Tardim
Microfone aberto e papo reto. Cultura na Baixada

De fato, se formos buscar o conceito de favela na sua história, podemos observar que este tem sido na verdade ‘escondido’ ou ‘escamoteado’ por uma série de representações, imagens e estigmas. Estes, na maioria das vezes impedem a visão do desenvolvimento das áreas faveladas como parte da urbanização brasileira. Ou melhor, da urbanização dos grandes centros urbanos brasileiros. (Silva, 2009, p.30)

Giordana Moreira, do Roque Pense, contou uma história de Nova Iguaçu que não está nos livros didáticos; A vanguarda da cidade dentro de um contexto do Rock n’ Roll, mais precisamente de uma atividade que roqueiros gostam de praticar. Revelou que a primeira pista de skate na América Latina foi construída em Nova Iguaçu. “Em 76 os surfistas da Zona Sul vieram aprender andar de skate aqui na Baixada, em Nova Iguaçu”, afirma Giordana. Ao final, lembra que o Festival Roque Pense é construído por mulheres e é um dos mais importantes festivais do país que circula pela Baixada Fluminense. Endossa sua fala dizendo que a galera do rock é marginalizada, principalmente porque é constituída, em sua maioria, por jovens que não são levados a sério quando o assunto é política pública.

A srª Silvia de Mendonça, representante dos Movimentos Afrodescendentes, da classe de Mulheres artistas, “nascida e criada nessa Terra”, que atuou como subsecretária de cultura da cidade de Caxias em 2004, já chega saudando os mais velhos que fazem parte da sua ancestralidade. Comunica ao srº Ministro que há, no Parque Fluminense, um Terreiro de Candomblé em processo de tombamento. E apresenta sua família, presente na Roda de Conversa.

Antônio Carlos, diretor da Biblioteca Municipal Leonel de Mora Brizola, dirige-se ao ministro dizendo:

“Duque de Caxias é uma das cidades com maior força das Bibliotecas Comunitárias da Baixada Fluminense e do Rio de Janeiro. Eu sou fundador da Biblioteca Comunitária Solano Trindade, e venho te cobrar, Juca, desde 2008 quando houve o ano do centenário, a gente te cobrou lá em Mesquita. Você falou: ‘o centenário passou em branco do Solano e a gente tem uma dívida’. Então a dívida continua. Caxias luta através do seu legado, da sua história. Com a própria história do Solano, tentar resgatar um pouco dessa dívida. A Biblioteca Comunitária Solano Trindade junto com outras bibliotecas comunitárias vem batalhando pra tentar levar a literatura cada vez mais à espaços onde o acervo não chega, onde a elite não consegue entender que se faz literatura. A gente tem trabalhado aqui para abrir espaços informais, não convencionais que se faz literatura”.

Antônio Carlos reivindica que as bibliotecas sejam reconhecidas, não só as públicas, mas as comunitárias que vêm trabalhando para levar literatura, leitura e fomento à lugares que nunca chegou esse tipo de trabalho. Após sua reivindicação, deixa registrado que o Ministério da Cultura foi a primeira entidade a reconhecer a Biblioteca Comunitária Solano Trindade no Cangulo. Finaliza sua participação lembrando do protagonismo da Baixada Fluminense nesse processo. Para complementar a polêmica dentro das políticas públicas do livro, leitura e literatura, foi fundamental a narrativa emocionada de dona Maria Chocolate, de Saracuruna.

Como citado anteriormente, a lista é enorme dos representantes que estavam presentes. O encontro foi uma verdadeira aula de cidadania novamente para os representantes do Governo Federal, mas também para o Governo Estadual e Municipal que estiveram presentes na Roda de Conversa, construída pela sociedade civil organizada, onde houve uma participação expressiva de alguns municípios, mas infelizmente, de acordo com a presença confirmada aos organizadores, não havia representantes dos 13 municípios.

Para que esse texto não fique deveras cansativo ao leitor, acredito ser melhor conclui-lo. Porém, é possível que os relatos aqui expostos possibilitem no imaginário do leitor a magnitude dessa Roda de Conversa na Baixada Fluminense. Esse é um trabalho que muitos ativistas culturais da região já vêm realizando há muito tempo na prática, com ações nos pontos de cultura, centros culturais, terreiros, escolas de samba ou nas Ruas. Mesmo assim, ao que tudo indica, o processo de diálogo está apenas reiniciando.

Para finalizar lembro que a construção para recepcionar os representantes do Minc foi colaborativa, feita através de reuniões abertas no Ponto de Cultura Lira de Ouro e o evento teve transmissão ao vivo, via internet, pela equipe do Dunas Filmes.

Referências Bibliográfica:
BRASIL, Lei nº 13.018, 22 de julho de 2014. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Lei/L13018.htm>. Acesso em: 06 de agosto de 2015.
HAESBAERT, Rogério. Da Desterritorialização à Multiterritorialização. In: Encontro de Geógrafos da América Latina, 10., 2005, São Paulo. Anais… São Paulo: USP, 2005.
SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.
SILVA, Maria Lais Pereira da. O QUE É FAVELA, AFINAL? Org. Jailson de Souza e Silva – Rio de janeiro: Observatório de Favelas, 2009.