Livro de Manoel Ricardo Simões é referência para compreender desafios e dilemas da populosa região

Com quase quatro milhões de habitantes, a Baixada Fluminense pode e deve estar, cada vez mais, na agenda do debate público. Conhecê-la é tarefa de todos que estão interessados no desenvolvimento da metrópole do Rio de Janeiro e na superação de suas desigualdades. Neste sentido, o livro Ambiente e sociedade na Baixada Fluminense (2011), escrito pelo geógrafo, professor e pesquisador Manoel Ricardo Simões, é uma referência para quem procura entender as principais questões, desafios e dilemas da região.

A obra é resultado de uma longa pesquisa de campo, somada ao livro Cidade Estilhaçada (2007), fruto de sua tese de doutorado, e da vivência do autor na Baixada, seja como professor de ensino médio e superior, seja como gestor público em prefeituras locais. A experiência produziu uma narrativa talhada por quem vive no território, mas que não perde o rigor metodológico ao descrever as paisagens, as populações e as transformações do espaço.

O livro está organizado em cinco capítulos, que abordam didaticamente diferentes aspectos. O primeiro capítulo – O Território Baixada: conceitos, definições e limites – traz um panorama sobre a origem do nome, com os recortes feitos tanto pelo poder público e órgãos privados, quanto por pesquisadores. O autor apresenta a evolução do conceito de Baixada Fluminense, saindo de uma definição inicial sobre o ambiente natural até chegar à formação de um território socioeconômico-político.

No capítulo dois – A natureza na Baixada: Ontem e hoje – é apresentado o espaço natural da Baixada, o papel dos rios na região, a Serra do Mar ao fundo e os maciços e morros distribuídos na planície costeira. As condições naturais desse território formado por brejos e mangues foram determinantes no processo de ocupação pelo homem, definindo onde, como e quem deve ocupar.

Nesse capítulo, são abordados também os principais problemas ambientais da Baixada, como enchentes e deslizamentos. O autor faz a relação desses fenômenos com o processo de ocupação de áreas alagadiças e o regime de chuvas na região. Para ele, o processo de ocupação não foi desordenado ou caótico, como no senso comum. A produção do espaço na Baixada e a destinação das áreas de risco para a moradia das classes populares obedece a uma ordem clara de quem detém o poder na região.

O terceiro capítulo – O processo de ocupação da Baixada Fluminense – é uma adaptação das questões apresentadas no livro Cidade Estilhaçada, que investiga o processo de ocupação e urbanização do território que deu origem à atual configuração da Baixada. Simões faz uma investigação histórica sobre a ocupação, que inicia antes da chegada dos portugueses, com os sambaquis e tamoios no entorno da Baia de Guanabara, e passa pelos ciclos econômicos da cana de açúcar, do ouro e do café.

O livro relata ainda a utilização dos rios e portos fluviais para a criação dos primeiros núcleos urbanos. Com a instalação das ferrovias Central do Brasil (EFCB) e Leopoldina (EFL), novos eixos de urbanização foram criados e incentivados com as políticas de loteamentos e autoconstrução. Sobre a industrialização da Baixada, o capítulo aborda o processo intimamente articulado com a política de substituição de importações do Estado Novo.

A criação das rodovias Presidente Dutra e Washington Luiz, como novos eixos de urbanização e vias de ligação com o interior do estado e do país, tornam a Baixada um ponto estratégico para a logística. O autor apresenta boas descrições sobre o desenvolvimento urbano de cada município, com destaque para Nova Iguaçu, esclarecendo, através dos processos históricos, como as diferenças e desigualdades foram produzidas nesse espaço.

O quarto capítulo – Estrutura Econômica e espacial da Baixada Fluminense – apresenta um painel econômico da região, demonstrando as potencialidades e fragilidades dos municípios e sua inserção na lógica econômica da metrópole, da qual não pode ser descolada. Uma sequência de mapas e indicadores dos municípios da região metropolitana, somado a observações empíricas proporcionadas pela vivência do autor na região, produz algumas das partes mais interessantes do livro.

Simões dá uma dimensão concreta e “pé no chão” da diversidade entre os municípios da Baixada e das desigualdades quando comparados com a capital. A análise da composição setorial da produção de riquezas na região (agropecuária, indústria e setor terciário) torna clara a disparidade: municípios com economias dinâmicas e diversificadas são vizinhos de outros onde a estagnação e a dependência dos gastos públicos são as principais características.

No capítulo cinco – A estrutura social da Baixada Fluminense -, dados de demografia, saúde, educação e violência são analisados com mapas e indicadores sociais. Sobre o crescimento da população, fica claro que caminhamos em direção ao limite. Dados de 2010 apontam 3,6 milhões de habitantes na região. O aumento vertiginoso torna a área completamente distinta de meados do século XX, quando recebia intensa migração intermunicipal e interestadual, aliada a elevadas taxas de crescimento vegetativo.

Houve um boom demográfico no período de 1940 a 1970. Em 1940, Duque de Caxias possuía população de 29.613 habitantes. Trinta anos depois, o número saltou para 431.397, um crescimento de mais de 10 vezes. O capítulo segue com análises sobre mortalidade infantil, acesso ao ensino fundamental e médio, taxas de homicídios e outros.

No último capítulo – Um vôo sobre a Baixada Fluminense no início do século XXI -, o autor resgata o melhor da geografia tradicional ao apresentar uma visão geral da configuração territorial da Baixada. Ele descreve e analisa as diferentes paisagens e padrões de organização espacial, com o registro da forma-aparência que os territórios possuem no período sinalizado.

Para completar a obra, também é disponibilizado um DVD com material complementar de fotos, imagens e mapas coloridos. Bem sucedido na proposta, o trabalho serve de base e inspiração aos novos pesquisadores da região. Desde já, é referência para futuros estudos sobre a Baixada Fluminense.

Ambiente e sociedade na Baixada Fluminense

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Por falar em desigualdades, a Casa Fluminense lançou, no 5° Fórum Rio, oMapa da Desigualdade e o Mapa da Participação da região metropolitana do Rio. Essa é mais uma contribuição para que o debate de políticas públicas seja cada vez mais orientado a superar as enormes desigualdades socioeconômicas de nossa metrópole. Confere lá pelos links acima.

 


Henrique Silveira

Henrique Silveira é geógrafo e mestre em Comunicação e Cultura pela UERJ/FEBF. É o Coordenador Executivo da Casa Fluminense.

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