Poucas cidades no país sofreram tanto com estigmas quanto Duque de Caxias, em praticamente um bullying midiático ao longo dos anos. Primeiro nos tempos do lendário Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta, que foi um dos políticos mais conhecidos no país dos anos 40 a 60, responsável em grande parte por todo uma simbologia de faroeste caboclo na cidade. Figura polêmica que criou a mítica do cabra-macho protetor dos fracos, Tenório foi um dos deputados mais populares de sua época, sobretudo pelo voto dos milhares de nordestinos que chegaram aqui nas ondas migratórias nas décadas de quarenta a setenta.

Essa fama de terra da pistolagem foi aproveitada e ainda mais reforçada sinistramente nos anos da ditadura militar pela imprensa sensacionalista, que endeusava a ação do Esquadrão da Morte, do Mão Branca e afins, e folclorizava a cidade com requintes de mundo cão. Um programa de rádio de avassaladora audiência, por exemplo, Patrulha da Cidade, chegava a ter um personagem, motorista da linha Caxias-Mauá, que era a crônica diária das tragédias e do abandono da cidade – Dallas City, Terra de Marlboro, “cidade onde a galinha cisca pra frente”, indo por aí.

Fora isso a cidade virou área de segurança nacional pelos militares, sem direito a voto, administrada por interventores e prefeitos biônicos durante anos, e com sua auto-estima continuamente massacrada. É como se a soma de tudo isso fosse amalgamando uma carga pesada no ser caxiense.

Até meados dos anos 90, falar que morava em Caxias era uma vergonha mesmo, constrangimento certo; e todo esse imaginário está impregnado em tudo o que foi feito e pensado na cidade desde muito tempo. Que cidade era essa? Que vergonha era essa? Porque os cidadão daqui carregam esse receio em viver e conhecer sua cidade? Porque o sonho da juventude era ficar “bem de vida” e se mandar daqui?

Esse quadro explica bastante porque Caxias teve um problema sério de identidade e amor-próprio durante muito anos… Esse estigma foi devastador para gerações inteiras de caxienses e resquícios concretos dele ainda persistem.

Mas aos poucos a cidade está se redescobrindo, tentando ressignificar sua história e sua auto-imagem. E é nesse terreno do simbólico que dá para compreender a situação do Amiguzito e isso que alguns ainda chamam de governo.

É justamente essa imagem de clientelismo, autoritarismo e tosquice que está em jogo e basta andar pelas ruas e conversar com a população para sentir que a ficha começou a cair de verdade. Essa política atrasada que está aí há décadas não é só nociva – é também simbolicamente vinculada ao passado atrasado e massacrante das periferias desse país imenso e desigual. O momento de repensar as cidades é agora e o desespero dos nossos políticos é evidente por conta desse sopro de mudança.

E é sempre bom lembrar que o que está sendo disputado no mundo atual com mais potência é justamente a ficção, o território do imaginário. E quando a rede Globo de televisão estreou uma novela que tinha a cidade como cenário, Senhora do Destino, muita gente ficou engasgada com aquela Caxias estéril e estereotipada, sem a força do que tanta gente sentiu e decidiu transportar para a arte e para a vida.

Duque de Caxias é um rolo compressor esmagando sonhos de gerações de jovens há décadas, mas também é um potente liquidificador trabalhando para o futuro, processando muitas vitaminas mistas para a Cultura do mundo nesse século. Pode levar fé.

 

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heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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