Com o título de “um bairro diferente” surgiu, em 1947, às margens da Rodovia Washington Luiz, o bairro Jardim Primavera. Idealizado por Nelson Cintra era também conhecido por a “Suiça da Baixada Fluminense”. Anos depois, baseado nesta iniciativa e incentivado por algumas lideranças da cidade, Cintra se lançaria candidato a prefeito.

Este pedaço da Europa em Duque de Caxias possuía algumas peculiaridades: tinha um planejamento urbanístico, coisa rara na cidade. Possuía lotes com grandes dimensões. No projeto inicial estava previsto uma escola, igrejas, um clube e um cinema. Previa uma extensa área arborizada e, o seu ponto mais alto, a instalação de uma caixa d’agua que abasteceria todo o bairro.

Um dos aspectos que chama a atenção é a quantidade de imigrantes que ali se estabeleceram. Poloneses, alemães, italianos e ingleses. Sobre eles existe uma história que se mantém no imaginário local: a venda dos lotes seria prioritariamente destinada a compradores de origem europeia.

O Colégio Primavera, que já mudou de nome várias vezes, teve como Heitor Combat e José Cozzolino. O primeiro criou o Colégio Duque de Caxias e o outro criou o Colégio São José. Foi o patriarca da família que por vários anos dominou o poder em Magé. Das igrejas ainda temos a São Judas Tadeu, a Igreja Presbiteriana e a Luterana. O Clube Primavera funcionou por alguns anos e depois foi fechado.

A estrada de ferro não possuía uma estação no bairro. A existente foi construída com recursos de Nelson Cintra e inaugurada em 1953. Contava com uma torre que possuía um belo relógio de origem inglesa. Os trens só faziam seis viagens diárias. No final da década de 50 surgiram as primeiras “lotações” e uma grande polêmica: segundo moradores antigos só poderiam viajar sentados os sócios do Clube Primavera. Aos outros restava viajar em pé. As lotações foram substituídas pelos ônibus da Empresa Junel, que tinha sua sede em Santa Cruz da Serra, que colocou dois ônibus para circular pela manhã e dois para circular à tarde.

No início o Jardim Primavera recebeu a visita de proeminentes representantes do poder público: João Goulart, Tenório Cavalcanti, Roberto Silveira, Badger da Silveira e outros participaram de eventos realizados no bairro. Desde a década de 60 o bairro mantém uma forte tradição em revelar importantes artistas plásticos tais como Rodolpho Ardlt e Collares.

No final da década de 90 a prefeitura se instalou no bairro. Um pouco antes o bairro foi ocupado por migrantes oriundos de várias partes do país. As marcas dos imigrantes, que eram mais visíveis através do nomes dos lugares: Supermercado Gullo, Restaurantes Bonavitta e Calabisela, este ainda em funcionamento, foram sendo apagadas.

Memória local. A falta de sua preservação, como acontece no Jardim Primavera, enfraquece a identidade local e diminui o sentimento de pertencimento.

 

Vista da Serra dos òrgãos do Parque Natural Municipal da Caixa d'agua em Jardim Primavera.
Vista da Serra dos òrgãos do Parque Natural Municipal da Caixa d’agua em Jardim Primavera. Foto: Eraldo Brandão

 

Parque Natural Municipal da Caixa D'água em Jardim Primavera. Foto: Eraldo Brandão
Parque Natural Municipal da Caixa D’água em Jardim Primavera. Foto: Eraldo Brandão

 

Parque Natural Municipal da Caixa D'água em Jardim Primavera.
Parque Natural Municipal da Caixa D’água em Jardim Primavera.

Alexandre Marques

Alexandre Marques é professor de História. Contato: alxmarques@ig.com.br

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