Estamos entrando na reta final dos preparativos da Copa do Mundo. Daqui a cinco meses, apenas, terão início as competições. É quando os brasileiros vão enfrentar um adversário muito perigoso, violento e desleal. Ele joga bruto, baixa o pau, da botinada, comete toda a sorte de falta e (muito pior!) seus tiros não costumam ser indiretos. E tudo isto, com a conivência da arbitragem. É contra esta seleção de brutamontes, que vamos entrar em campo, munidos só de raça, com uma equipe que deverá estar bem entrosada. Porque o nosso selecionado é nota “sem”. Ele é formado por Sem Teto, Sem Renda, Sem Dentes, Sem Saúde, Sem Comida, Sem Escola, Sem Transportes, Sem Terra, Sem Amparo, Sem Voz e Sem Direito Algum – este, por sinal, um artilheiro. Sobre esses craques, aliás, o adversário pretende lançar uma espécie de cortina de fumaça.

brasil58Mas sempre que acontece esse evento esportivo, a memória viaja no tempo e me remete ao distante 1958, quando o Brasil conquistou a taça pela primeira vez. Lembro até onde eu estava nesse dia: na residência do meu tio Enéas, em Vila Rosali (São João de Meriti). Agora, sobre a passagem do irmão de minha mãe por aquele bairro, tenho algumas lembranças que gostaria de relatar. Por exemplo, foi naquela casa que ouvi, pela primeira vez, Carlos Gonzaga cantando a versão de Fred Jorge para Diana, sucesso internacional de Paul Anka. E foi ali, também, que ouvi pelo radio a vitória do Brasil sobre a Suécia (4×2).

A casa ficava na Rua 1º de Maio. Era um chalé geminado, com quarto e sala muito pequenos, além de cozinha(zinha) e banheiro (também zinho). Na casa gêmea morava o filho do proprietário, Ernesto, com sua mulher – cujo nome não me ocorre –, uma mulata bonita, bunduda, que adorava frequentar os botequins do pedaço. O senhorio era um português, de nome José, que morava num puxado, aos fundos do filho. Um dos botecos ficava quase em frente à casa de tio Enéas, onde costumava assinar o ponto, em companhia de outros bebedores da área. Num domingo, à hora do almoço, fui com ele comprar cervejas e refrigerantes, e vi à porta do bar um preto velho sentado sobre um caixote. Estava vestido modestamente, calçando tamancos e tendo à cabeça um chapéu de pano, já surrado. Quando ele e meu tio se avistaram, houve um cumprimento efusivo da parte de ambos. Meu tio, então, olhando pra mim e apontando pro preto, disse:

– Este é o grande João Cândido, que liderou a Revolta da Chibata.

Estendemo-nos as mãos, ele sorriu a poucos dentes e dissemos um pro outro, aquelas coisas que se dizem nessas horas.

Ora, vejam vocês! Eu contava apenas 11 anos de idade, e não me dei conta de que havia apertado a mão de um dos maiores heróis brasileiros do século 20. Lá pelos 15/16 anos, quando tomei ciência da também chamada Revolta dos Marinheiros – que culminou com a abolição dos castigos físicos na Marinha – pude ver a dimensão do pecado que cometera. Estive cara a cara com João Cândido e não o reconheci como o Almirante Negro. Por muito tempo, me senti culpado de tamanha ignorância. Depois, me perdoei e distribuí a culpa entre a inocência da idade e o descaso das autoridades quanto à educação, já em vigor àquela época. Afinal, não era de se esperar que os livros de História do curso de admissão ao ginásio, contassem um episódio histórico liderado por pretos. Em tempo: a antiga Rua 1º de Maio leva hoje o nome de João Cândido.

Mas, voltando à Copa de 58. A decisão se deu num domingo à tarde, ensolarado (pelo menos na Baixada Fluminense), dia 29 de junho. Tio Enéas tinha um rádio de madeira, alimentado por válvulas, à época chamado de “rabo-quente”. A seleção brasileira entrou em campo: Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo. Creio que ainda era uma experiência, a transmissão de Copa do Mundo por emissoras brasileiras, a partir de tão longe. Não sei se a deficiência era de algumas rádios ou do receptor do meu tio, mas o fato é que a narrativa era entremeada por interferências de silvos e ruídos.

Assim, os ainda chamados “speakers”, empolgados, tentavam nos transmitir as emoções que viviam em Estocolmo, mas eram entrecortados, de quando em quando, pelas interferências. “Lá vai Nilton Santos… dribla um… dribla dois… giiiiiuiiii, uiiii, zizizizi, uiiii… mata no peito e segue com a bola…”.

– Quem matou no peito?

– Cala a boca, vamos ouvir.

“Giiiuuuiiizizizizizigiiiuuii… mas Didi intercepta e toma o comando da bola…”.

Ah, sim. Quem matou no peito foi um adversário, mas agora já não há perigo, ela está com Didi. “E lá vai ele, o Príncipe Etíope, que atravessa pra Zagallo… zizizizizizi.. roooonn… Gol!”.

– Puta merda, foi nosso?

– Pelo desentusiasmo do speaker, deve ter sido deles.

“… Liedholm, aos 4 minutos do primeiro tempo… 1×0 para a Suécia…”.

E de interferência em interferência, a narrativa seguia, o tempo avançava e o jogo, idem. Aos 8,32min Vavá se encarrega do empate, que se arrastou pelo resto do primeiro tempo. Mas aos 11 minutos do segundo, Pelé vai lá e crava o desempate, seguido por Vavá, pouco depois (23). O placar marcava 3×1 e pra nós, brasileiros, já estava de bom tamanho. Mas, aí (aos 35), Simonsson mete mais um para a Suécia. Este gol, o treinador Vicente Feola nem viu, pois estava dando uma cochilada, sentado junto ao campo, como era do seu hábito. Quando tudo indicava que o jogo terminaria com aquele resultado, Pelé marcou mais um, no 44º do segundo tempo: 4×2 Brasil. Depois disso, foi só alegria.

É interessante perceber como essas lembranças afloram em minha mente de quatro em quatro anos, como se fossem uma espécie de memórias bissextas. Lembro de forma tão nítida, que até fica difícil fugir ao velho lugar comum: parece que foi ontem! Lembrar, por exemplo, do dia em que meu tio alugou a casa é como se estivesse revivendo aquele outro domingo, onde testemunhei uma cena que, de tão hilária, eu não teria como esquecer, mesmo se quisesse.

Naquela tarde, rumamos para Vila Rosali meu tio Enéas e sua mulher, Cândida, além de mim e seu filho Edmilson, então com pouco mais de dois anos. Lá, fomos recebidos pelo senhorio, o português seu José, que fez questão de nos apresentar cômodo a cômodo. Como já falei das dimensões do imóvel, resta dizer que o preço do aluguel era também muito pequeno. Agora, só faltavam conhecer o banheiro e a cozinha. Nesta havia uma pequena janela, que meu tio abriu e, olhando à direita, deu de cara com o cruzeiro do Cemitério de Rosali. Por muitas dessas contradições humanas, Enéas, um machão pernambucano, morria de medo de “alma do outro mundo”. De tão assombrado que ficou, chegou a cogitar da desistência do negócio. Mas seu José interveio.

– Olha, cá! Não há nada de mal ali, só corpos apodrecidos. Os mortos não fazem mal a ninguém. Por isso, quando abrires a janela, não olhes pro lado de lá.

O tio não ficou de todo convencido, mas, naturalmente, pensando no valor do aluguel, meio que concordou. Mas tinha um detalhe, que o futuro inquilino ainda não havia percebido. É que quase rente com a cozinha ficava uma linha férrea. Quando viu aquilo, Enéas quis saber se aqueles trilhos estavam em atividade. Sim, foi a resposta. As respostas que sucederam às perguntas seguintes explicaram que ali passava o trem pra Belford Roxo, que parava na estação Vila Rosali, localizada a cerca de cem metros. E mais: o comboio rodava o dia todo, até as 11 da noite, quando passava a trafegar só de hora em hora – “salvo alguns atrasos”, como acrescentou o português.

– Mas isso deve ser um suplício – disse o tio.

– Qual nada. Não causa nenhum incômodo aos moradores daqui.

Foi o senhorio acabar de dizer isso, o trem apitou numa curva próxima, passando em seguida à beira da cozinha, fazendo com que o imóvel todo estremecesse. Pensei até que a casa fosse desabar. Um tempo de silêncio, da parte do trem e dos homens. Quando meu tio resolveu quebrá-lo, teve início um diálogo digno do que chamamos hoje de Comédia em Pé.

– Mas, é isso o que o senhor chama de incômodo nenhum?

– Ora, pois, mas isto é porque não estás acostumado.

– E como é que a gente vai conviver com isso o dia todo, e ainda ser acordado de hora em hora, durante a madrugada?

– Olha cá, que acostumas. Eu, por exemplo, durmo a noite inteira sem me dar conta disto.

– E o senhor mora aqui há quantos anos?

– Há 36, precisamente.

– Ora, 36 anos! E enquanto a gente não se acostuma, como faz? Passa a noite em claro?

– Ó gajo, estou a dizer-te que logo te acostumas. São só os primeiros dias… primeiras semanas… Logo, logo acostumas.

– Mas até acostumar, vai ser um suplício…

Na iminência de perder o futuro locatário, o português apelou:

– Por acaso não tens alguns parentes, alguns amigos, morando por perto? Então! Enquanto não acostumas, dormes na casa deles.