Este é o discípulo que testifica destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (João 21.24)

Ainda me lembro: a gente sentado ali, na grama do Aterro sob o Sol daquele finalzinho de tarde. Era dezembro, e começávamos mais uma reunião de trabalho – o fechamento de um jornal literário, para divulgar a poética da rapaziada do MAM (Museu de Arte Moderna). Se para uns o MAM representava a extensão da casa, para outros era a própria casa. E a gente se deixava ficar por ali, por dentro da noite, comentando o melhor da produção cultural carioca, na época. Só pra situar a galera, o ano era 1974 – primeiro do governo Geisel, que ainda não dera início a tal “abertura lenta e gradual”. Vivíamos a ditadura, portanto.

Em meio às discussões, chegou João de Deus, que nos foi apresentado, acho, por um outro João, o Abreu. Aquele cara não estava ali à toa. Aquela cara, que parecia esculpida em madeira (assim como a da Bethânia e a do Ferreira Gullar); os cabelos longos, comuns à sua geração; a cabeça combinando com o sotaque nordestino… É, tinha o perfil de um poeta, se é que poeta chega a ter um perfil definido.

Conversa vem, conversa vem (sim, porque com ele a conversa sempre vinha), e depois de nos ler uma meia-dúzia de três ou quatro de seus poemas, estava tudo dito. O pequeno bem-falante era, na verdade, um grande bem-dizente, pois seus textos diziam muito. Alguém na roda evocou a sábia macróbia Aracy de Almeida: “É daquele tipo que não resta a menor dúvida”. Outro alguém deixou escapar de si, sem dó: “Esse João é de Deus”.

Nem preciso dizer, que tivemos que acrescentar mais páginas ao jornal, para acolher, entre os nossos, poemas tão significativos. À guisa de retribuição, convidou-nos para uma noitada domingueira em sua casa, na Vila São Luiz – Duque de Caxias. Veja só, que tipo: a um só tempo nos dava (a sua poesia) e nos retribuía (com a amizade franca, que nos franqueava a casa). Não resta a menor dúvida: é de Deus esse João – pensamos em uníssono.

Ah, sim! desse encontro domênico-noturnal, lembro-me ainda da nossa caminhada de volta pra casa. Ives Tavares, Marcos Apulcro Corrêa, Helinho Pinheiro, João Abreu, Thomaz, Chacra, Edilza e eu, num acesso de riso, que hoje, tenho certeza: não teve origem em nada realmente engraçado. Ríamos, como riam os muito loucos, pois acreditávamos que só os muito loucos tinham direito a rir como nós.

Ser poeta, para João de Deus, era algo inerente à sua condição de ser homem. Quando me punha a observá-lo, nas noitadas do Pé Sujo, por exemplo, tinha a impressão de que ele não era exatamente o poeta, mas, sim, a essência da própria poesia. Do mesmo modo, esta, onde quer que ele estivesse, não era somente uma conjugação de palavras e sons; gênero, forma e conteúdo, mas uma obra com corpo e alma; RG e CPF; nome e sobrenome: João de Deus.

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Poeta João de Deus - Duque de Caxias - Pajelança Cultural