[texto de 22/02/2007]

Há 35 anos, é quase certo que nenhum dos famosos e celebridades que hoje, no carnaval carioca, se dizem “Grande Rio desde criancinha” tivesse ainda nascido.

Rolava o ano de 1969. A cidade do Rio de Janeiro era apenas a simpática capital do efêmero Estado da Guanabara. E o município de Duque de Caxias, no antigo Estado do Rio, ainda era a terra do político bambambam Tenório Cavalcanti e de Joãozinho da Goméia, pai-de-santo que levou a tradição dos orixás jeje-nagôs até os palcos e deles para a avenida. Pois, nesse último ano da década de 60, os dirigentes do samba Amauri Jório e Hiram Araújo publicavam Escolas de Samba – vida paixão e sorte, um livro que, embora cheio de erros de revisão, era um fantástico e farto documento, constituindo-se no primeiro grande inventário das escolas de samba cariocas.

Naquele tempo, sob as ondas da Rádio Difusora de Caxias e da Rádio Clube Fluminense – está lá no livro – movimentados programas de samba iam ao ar, varando a noite. Neles, tocava-se samba, veiculavam-se notícias do mundo do samba, debatiam-se questões palpitantes. E, naturalmente, lamentava-se a baixa performance das quatro escolas locais.

Essas escolas eram a azul e branco União do Centenário, da rua Seabra Sobrinho, no bairro que lê emprestava o nome; a Capricho do Centenário, verde e branco; a Unidos da Vila São Luiz, vermelha e branca, na qual se destacava a figura ímpar de Diva, compositora e emérita partideira; e a amarelo e azul-pavão, intitulada Cartolinhas de Caxias, na qual brilhava, impávido e elegante, o também mangueirense Hélio Cabral (1926-97), com seus sambas antológicos, entre eles o Benfeitores do Universo (“Acordem, benfeitores do universo! / Que eu vou render tributo aos meus heróis / E nesta apoteose de grandeza / Eu peço a presença de todos vós…”) eternizado por Martinho da Vila.

No carnaval de 1952 – está lá no livro de Amauri e Hiram – a Cartolinhas chegou em 17º lugar na Praça Onze, num carnaval vencido pela Unidos do Indaiá, de Marechal Hermes. No ano seguinte, a Capricho do Centenário desfilou mas sem obter nem classificação. Em 54, Cartolinhas e Capricho empatavam em 11º lugar, para chegarem respectivamente em 6º e 9º no carnaval seguinte. Em 56 e 57, Cartolinhas chegando em 12º e 18º na chamada “poeira”, a hegemonia caxiense ficava com o Capricho. Mas, no final da década de 1960 essa liderança se transferiria para a União do Centenário, considerada, já, por Jório e Araújo, uma escola de porte médio.

Em 1971, o município de Duque de Caxias, com cerca de 310 mil habitantes (contra 123 mil do vizinho Nilópolis), possuía 135 estabelecimentos de ensino primário e 15 de ensino médio (contra, respectivamente, 64 e 14 de Nilópolis), sendo cinco de ensino comercial; já tinha grandes indústrias, entre elas a refinaria da Petrobrás, dando emprego a cerca de 20 mil pessoas; e alguns bens tombados como patrimônio histórico e artístico nacional, como a igreja de N.S. do Pilar. Nesse ano, então, com a Beija-Flor de Nilópolis já preparando o vôo que a levaria ao infinito, ilustres membros da boa sociedade caxiense convenceram os sambistas a unir as quatro pequenas escolas numa só, a Escola de Samba Grande Rio, que adotou as cores azul, vermelho e branco e se estabeleceu na rua Dr. Manuel Teles.

Mas a participação caxiense, ao contrário da nilopolitana, no carnaval carioca continuava tímida e discreta. Até que, emulando a Beija-Flor, pequena escola fundada no dia de natal (!) de 1948 e que, a partir de 1976, conseguira projetar nacionalmente o nome de seu então obscuro município, a Grande Rio mudava suas cores e, talvez evocando o verde da Capricho e o vermelho da São Luiz, transformava-se em 1988 na tricolor “Acadêmicos do Grande Rio”, com sede na avenida Almirante Barroso.

Em 2004, quando a primeira versão deste texto foi escrita, a Grande Rio, com Joãozinho Trinta, já era “celebridade”. E hoje começa a “chegar junto com a Beija Flor”.

Tomara que ela siga os passos da escola de Nilópolis. E vá buscar nas suas comunidades de samba – com a força mais do seu próprio poder do que dos “famosos” da televisão – o resgate de tudo aquilo que ficou lá atrás. Tomara!

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neilopesNei Lopes, 22/02/2007

http://www.neilopes.blogger.com.br

 

 

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heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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