O poeta Solano Trindade, na década de 50, encontrou semelhanças entre a cidade de Duque de Caxias e a Bahia. Para um jornal desta década produziu o texto “Bahia sem suas 365 igrejas”. Não citou que a cidade também era rica em terreiros de religiosidade de matrizes africanas. Em pesquisa recente o IPHAN e o NIREMA/PUC identificaram aproximadamente 11.000 terreiros desta tradição na Baixada Fluminense, muitos deles em Duque de Caxias.

Dos mais diversos zeladores que passaram por Duque de Caxias o mais famoso, pelos mais diversos motivos foi Joãozinho da Goméia. Migrante baiano que se instalou no bairro Copacabana e que teve seu terreiro freqüentado desde os mais humildes à grandes personalidades políticas e artísticas.

A sexta edição da Revista Pilares publicou a pesquisa realizada por Daniel Isaac que, baseada na oralidade peculiar desta tradição, nos apresentou quatro representantes do candomblé da cidade de Duque de Caxias: Kítala de Oxossi, Ceci de Caxias, Waldomiro de Xangô e Gisele Crossat.

Kitala de Oxossi e Ceci de Caxias, ambas filhas da Goméia, mantinham seu terreiro na Rua Bangu, próximo ao Corte Oito. Ambas filhas da Goméia. A primeira oriunda da Bahia representa a tradição Angola. A segunda, aos sete anos, foi escolhida para ser a herdeira espiritual da casa de seu “João”. Ambas demonstraram grande tristeza com o abandono em que se encontra o terreno que abrigou o terreiro. Desde 2003 a Prefeitura divulga um projeto que pretende criar neste espaço um Centro da Cultura Afro.

A “francesa” Gisele Crossat, antropóloga de formação, tem seu terreiro em Santa Cruz da Serra. Conheceu o Candomblé na África mas se converteu na Baixada Fluminense. Recentemente foi lançado um livro e um filme em sua homenagem.

Waldemiro Baiano ou Waldomiro de Xangô, Santo Antônio dos Pobres, também falecido, tinha sua casa no Parque Fluminense. Foi a partir do levantamento etnográfico que realizamos em sua casa com o apoio de outras instituições, com o objetivo de registrá-lo no Livro de Fazeres e Saberes, que o IPHAN iniciou a identificação dos terreiros da Baixada Fluminense.

Em 2008 o Conselho Municipal de Cultura, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, organizou “Rodas de Cultura”. Numa delas, denominada “De Reza e de Fé: o candomblé na cidade de Duque de Caxias, conhecemos a trajetória de Cristovão, representante da tradição dos “bate-folhas” e Paulo José, do Asé Ogum Alakorô.

Numa cidade que na década de 60 não possuía hospitais públicos, estas casas ou “terreiros” tinham importantes funções sociais e políticas. As rezadeiras, as ervas medicinais, as comidas regionais ou, simplesmente, substituíam o sistema de saúde que era muito precário e se constituíam em espaços de sociabilidade para pessoas pobres e com poucas opções de lazer.

Com certeza existem muitos outros representantes desta matriz religiosa que mereciam ser citados neste artigo. Por outro lado cabe ao poder público reconhecer esta tradição seja em seu aspecto religioso, cultural ou social.

 


Alexandre Marques

Alexandre Marques é professor de História. Contato: alxmarques@ig.com.br

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