Domingo foi um dos dias mais especiais de minha vida, em que aprendi muito e confirmei alguns dos aspectos mais cruéis e tenebrosos do jogo político brasileiro: o comércio do voto com toda a sua logística, propaganda e engenhosidade para pagar a fatura que compromete a nossa cidadania.

Em Duque de Caxias, a Câmara foi ocupada, em sua maioria, por representantes do crime organizado, da contravenção, de empresas que exploram serviços caros, de prestadores de serviços à Prefeitura e à Câmara Municipal, por indústrias que poluem a cidade e a Baia de Guanabara e outras que operam a base logística de diversos crimes. É por isso que a oferta de dinheiro para a compra de votos seja maior do que o número de eleitores dispostos a se venderem.

Em alguns pontos da cidade havia pessoas dizendo que receberia dinheiro de dois ou três candidatos a vereador. Estas pessoas carregaram panfletos e santinhos de diversos políticos nas mãos. Ao longo do dia de votação, vi o câncer político aflorar e expor os males de uma sociedade que está doente.
Candidatos e cabos eleitorais jogavam panfletos para o alto sujando as ruas e formando aquele grosso tapete de papéis demonstrando o total descompromisso com a cidade. Carros e motos chegavam conduzindo pessoas até a porta das sessões de votação, aguardavam o eleitor ou davam uma volta, para pegá-lo em seguida e mais uma vez repetir a ação com um novo votante.
O processo da compra do voto passou a ser uma espécie de serviço completo, no qual o nome das pessoas e o título são devidamente registrados e organizados em uma tabela com ficha de identificação, endereço, pessoas da família e indicações para outros eleitores interessados em vender os seus votos.

A máquina da compra do voto tem hierarquia e diferentes “profissionais”, para alcançar o resultado final que é a eleição do representante dos poderes escusos da cidade. Na nova Câmara assumirão diversos edis com passagem pela polícia, condenações, processos de diversos motivos e origem.
A Câmara de Duque de Caxias será composta por “nobres” homens, dispostos a usar de todos os argumentos e armas a fim de manter e/ou ampliar os contratos do lixo, das empresas de fornecimento da alimentação escolar, da indústria das multas e dos estacionamentos, dos prestadores de serviço de emergência, dos fornecedores de remédio e material hospitalar, e dos diversos cargos estabelecidos em contratos que servem de cabide de emprego para milhares de cabos eleitorais que deverão receber durante quatro anos e até a próxima eleição.

Agradecimentos…

Fui abraçado carinhosamente por tantas e tantas famílias e pessoas que, com certeza, tenho que colocar em dúvida o resultado das urnas. Isso porque, ao longo da campanha, as pessoas que se doaram de diversas formas para o nosso projeto foram maiores do que o número de votos. Parece contraditório ou louco, por demais, ganharmos incentivo, doações, dedicação e entrega de mais de quinhentas pessoas ao longo do processo e receber menos votos que isso. Há algo de muito e muito estranho no ar. Sobretudo quando ao longo do dia da votação recebemos e-mails, mensagens do whatsapp e facebook confirmando o voto em nosso projeto, do que o resultado das urnas.

Isto nós leva a crer que a votação em Duque de Caxias deva ser fiscalizada por órgãos federais e internacionais, já que as dúvidas sobre as urnas viciadas, a compra de votos e a participação de candidatos inelegíveis a cada pleito vem colocando em xeque a atuação das autoridades responsáveis pelo processo eleitoral da cidade.

Agradeço a todas as pessoas que colaboraram e fizeram acontecer este projeto que ganhou visibilidade estadual e nacional, já que recebemos explícitas declarações de apoio de centenas de pessoas em todo o estado e, também, em outros estados do Brasil.

Ao longo do mês passado, minha casa foi uma espécie de comitê vivo. Com estratégias, sonhos, festas, reuniões, amigos trazendo votos de esperanças, levando material para diversos bairros dos quatro distritos da cidade. Obrigado a todos que estiveram dentro, longe, perto, ao lado, na internet, pelo celular, nos whatsapp, facebook, os que vieram e os que se perderam no caminho, a todos aqueles que acreditaram neste projeto e sonham com uma sociedade mais igualitária e justa.

Futuro… práxis pela justiça

Esta candidatura foi uma escola que fiz no intenso ritmo de um mês e meio de eleição. Neste período minhas maiores dúvidas e críticas se confirmaram em relação a minha cidade, aos municípios da Baixada Fluminense, e foi determinante para perceber que as reflexões que fizemos coletivamente sobre a falta de racionalidade na gestão pública, na burocracia disfuncional de máquinas a serviço do capital, a desorganização urbana que permite que o crime organize a circulação do capital, que os programas e políticas públicas de âmbito nacional no município seja desmontado, quando não utilizado por pessoas que não necessitam dos programas, mas usufruem de bolsas, benefícios e de todo os tipos de privilégios e regalias.

A substituição de profissionais de diversas áreas por cargos comissionados e falsos contratos de trabalho que comprometem a gestão pública, ao colocar na folha de pagamento pessoas que só vão uma vez por mês para assinar ponto e receber sem trabalhar, é uma das principais moedas de pagamento dos financiadores de campanhas e cabos eleitorais responsáveis por arregimentar votos para o dia da eleição.

E diante deste cenário, não deixamos nossa inquietação de lado. Olhamos para o futuro com esperança, com mais desejo e animação dada por tantos apoios e incentivos que tenho recebido neste tempo. Ganhei o apelido de alguns candidatos de “deputado”, por conta dos vídeos que postamos nos quais tratavam dos problemas da cidade e da falta de políticas públicas e transparência na gestão do poder público. Quem sabe eles não estejam anunciam um presságio.

Seguimos em frente como um crítico propositivo e com compromisso com minha cidade, Duque de Caxias, com a Baixada Fluminense e com este Rio de Janeiro metropolitano que terá que aprender a resolver seus principais problemas como a falta de vagas nos hospitais, a questão da água e do debate sobre a municipalização dos recursos hídricos; os baixos índice da educação e constante massacre aos profissionais da educação; a segurança pública e o acirramento da violência; o debate sobre a transparência dos gastos públicos; a questão da mobilidade e dos altos preços das passagens; a recuperação da economia fluminense e o incentivo à indústria criativa, as oportunidades para os diversos programas culturais e educacionais de Caxias e da Baixada; os programas contra a violência a mulher e aos jovens negros entre outras questões que abordamos.

Seguimos em frente com novos sonhos e mais preparados e conscientes dos desafios a serem enfrentados. Ao nosso lado cresce em muito o número de novos amigos, colaboradores e cidadãos que desejam reinventar a política de forma participativa, consciente e propositiva.


Eduardo Prates

Professor, cientista político, cidadão do mundo, flamenguista, Imperiano, sujeito que acredita na auto-determinação dos povos para a construção de um mundo melhor.

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