Quando a cidade ainda não tinha sido dominada pelas salas de cinema dos grandes shoppings existiam diversos espaços de exibição espalhadas pelos bairros. Com dificuldades para se encontrar locais de lazer vespertinos que agradassem aos mais jovens eles também eram utilizados como pontos de encontros furtivos ou para ostentar a “lambreta”, o casaco à lá Alan Dellon, o topete à moda Elvis Presley e o andar arqueado de John Wayne.

No centro de Duque de Caxias, na descida do viaduto da Câmara, existia o Cine River, estabelecido num grandioso prédio que também abrigava o Restaurante Palhoça. Na Praça do Pacificador existia o Cine Paz no espaço que hoje é ocupado pela C&A. Uma de suas maiores bilheterias foi “Histórias que nossas babás não contavam”. Neste filme Adele de Fátima, a mulata da Sardinha 88, representava uma inusitada Branca de Neve. Do outro lado da Praça ainda sobrevive o “Cine Santa Rosa” que à época contava com duas enormes e desconfortáveis salas.

No calçadão da Nilo Peçanha onde atualmente se localiza as lojas Americanas ficava o inesquecível “Cine Pau de Arara”. Seu segurança, o “Pisa na Fulô” entrou para a história da cidade. Sem cobertura e sem cadeiras possibilitava aos moradores dos prédios assistirem ao filmes no conforto de suas janelas. Um pouco mais à frente, quase na esquina, onde hoje está as Casas Bahia, havia o portentoso “Cine Caxias”. Este possuía uma belíssima entrada e praticava preços um pouco mais elevados. Seguindo em direção à São João de Meriti existia o Cine Cavaleiros.

No lado de cada linha, na avenida Duque de Caxias, nas descida da primeira passarela, no lugar de uma papelaria existia o Cine Central. Antes de receber esta denominação chamava-se Cine Meriti ou “Cinema Velho”. Na mesma avenida, onde está localizado o Supermercado Valente, havia o Cine Brasil. Quem assistiu filmes neste cinema presenciou muitas disputas entre os punhos de aço de Bruce Lee contra os incontáveis morcegos que cruzavam a tela ou contra as pulgas que a muitos incomodavam. Seguindo em frente, em direção à Vila São Luiz, os moradores curtiam o Cine Itatiaia.

O Bairro Guanabara também teve sua sala: o Cine Santa Lúcia, estabelecido nas esquinas das ruas 14 de julho com a São José. O Cine São Bento, que funcionava dentro do clube, e o Cine FNM, em Xerém, foram criados por iniciativa do Governo Vargas e cumpriram importante função ideológica. Este último foi substituído por uma biblioteca e ainda mantém a sua máquina de projeção que é muito cobiçada por colecionadores paulistas. Já o Cine Garcia era o ideal para quem desembarcava na estação de trem do Gramacho.

O III Distrito que nas décadas de 50 e 70 contava com uma pequena população, também possuía salas ligadas à Sétima Arte. Alí existiam o Cine Imbariê, Cine Rosário, em Campos Elíseos e o Cine Primavera, os quais não conseguimos precisar a localização.

Atualmente, além das salas luxuosas, temos os variados cineclubes e produções independentes que proliferam na cidade que resistem aos filmes mercadológicos ou somente de entretenimento. Elas promovem exibições de qualidade, promoção de debates e incentivam a produção amadora.

As grandes salas também suscitam uma curiosidade: por que numa cidade com uma per capta tão baixa, com um transporte público com valores muito altos e ausência de espaços de lazer nos bairros, o saco de pipoca é mais caro do que um ingresso para se assistir a um filme?

Cine Paz - Duque de Caxias - RJ


Alexandre Marques

Alexandre Marques é professor de História. Contato: alxmarques@ig.com.br

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