Jiló trabalhava no lixão de Gramacho ha dez anos. Chegou lá ainda jovem com a esperança de atender as necessidades de alimentação da família e logo sair para outro trabalho formal e mais estável. Tal trabalho nunca apareceu e por lá ele foi se perdendo. A família que antes era composta pela mulher e dois filhos, a esta altura se resumia a um gato e dois cachorros.

Naquele dia estava muito quente e na rampa do lixão o calor acelerava a decomposição orgânica das coisas, do lixo e das pessoas. Apesar disto ele tremia de frio. Abaixou-se para pegar um material plástico e se deparou com o que ele acreditou ser a cabeça de uma pessoa, decapitada e incinerada.

A julgar pelo seu estado febril ele duvidou do que achava que via. Levantou os olhos e reparou que todos que trabalhavam ali se pareciam um pouco com aquela possível cabeça. Todos pretos, fedendo a chorume, decapitados de seus sonhos, e sem uma distinção precisa da formação ôntica entre eles e o lixo.

A dúvida sobre a possível cabeça permanecia. Jiló teve vergonha da dúvida, ela atestava a sua incapacidade de identificar a humanidade das coisas, sobretudo de um humano, morto e pela metade, mas humano. Isto mostrava o quão desumanizado aquele lugar o fez. Ele também teve pavor da cena. Apesar da morte flertar com ele desde a infância ela nunca tinha se exibido de maneira tão vulgar. Por fim ele teve pena do que viu. Que humano poderia ter feito algo tão desumano?

Jiló se abaixou para ver se aquilo realmente era uma cabeça decapitada. Começou a chorar. A medida que o choro aumentava de intensidade ele se agachava mais. Até que se viu deitado ao chão quente do lixão abraçado aquela possível cabeça. O choro durou por algum tempo. O tempo suficiente para o corpo dele começar a esfriar e a endurecer, misturando-se a toda aquela massa de material orgânico a se decompor.

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Conto: osmar__paulino/ IG:@letrasperi
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Osmar Paulino

Professor de Geografia, Articulador Cultural, Produtor do FAIM, Festival de Artes de Imbariê

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