Não existem coincidências. O acaso também não existe. Eu creio nisso. Mas não dá pra negar a existência de um processo, que transcende o nosso poder de influir nos acontecimentos.
Por isso, não raramente alguém tem a felicidade de registrar em fotos um acidente (ou mesmo uma situação bizarra), no instante exato em que o fato se deu. Sobre isso, costumamos dizer que foi a pessoa certa, chegando ao local certo, no momento certo.
E quando esse processo incide sobre encontros ou reencontros com pessoas que amamos… Aí, não tem preço.
Pois foi o que aconteceu na última sexta (24). Eu tinha ido ao Rio, em busca de um programa cultural 0800, já que a grana está tão curta que nem mesmo a meia entrada que a idade me dá direito estou em condições de bancar. Ao desembarcar do VLT, quem encontrei na confluência da Sete de Setembro com Rio Branco? Ninguém menos que Rogério Torres.
Pronto – pensei – meu programa tá garantido. Sim, porque um papo com este professor, historiador e agora ficcionista, excelente nas três categorias, é um programa tão proveitoso e divertido, quanto assistir a um bom filme, uma boa peça, um show musical.
Pra quem não sabe, Rogério é uma das amizades mais antigas que cultivo, há mais de meio século. Em termos de transcurso de tempo, só perde pro artista plástico Marco Bomfim, um maluco que “aturo” desde a adolescência. Na juventude, Rogério foi meu guru. Alguns dos melhores livros que li na época me foram doados ou sugeridos por ele. Minha formação ideológica passa necessariamente pelas conversas que tínhamos, às mesas do bar Garoto Fluminense, nos idos dos anos 60.
Após as saudações e os abraços efusivos de sempre, fomos tomar um café no Largo da Carioca. O local foi escolhido por abrigar o maior sebo literário ao ar livre do Centro da cidade. Sim, porque Rogério costuma frequentar sebos, com a mesma intensidade com que essa galera trêfega e sôfrega vai aos shoppings.
Entre um café e outro, o cara me deu uma verdadeira aula sobre Machado de Assis. Me falou com entusiasmo juvenil sobre seu próximo livro, contendo, exatamente, uma série de 80 cartas, que ele vem escrevendo, sabem pra quem? O próprio Bruxo do Cosme Velho.
Dali, seguimos para a Cinelândia, onde ele fez questão de me pagar uma rodada de chopes, enquanto sorvia lentamente sua água mineral com gás.
Terminada aquela noite memorável, eu o acompanhei até a estação mais próxima do metrô, por onde seguiu para Copacabana, me deixando com a alma em festa e o coração a gargalhar, na certeza de que, tantas décadas passadas, esse cara continua sendo meu guru.
A sua bênção, Rogério Torres!!