Mil litros de água da Cedae, um metro cúbico, na primeira faixa de consumo, entre zero e quinze mil litros, custam R$4,55. Mil litros.
Um litro de água mineral custa quase isso em qualquer mercado. Um litro.
As poucas empresas privadas que atuam na área de saneamento no Rio de Janeiro cobram o dobro disso, mesmo comprando água da Cedae, subsidiada, e sem gastar um tostão com produção.

Mas o povo quer privatizar a água.

Um plano de saúde privado custa em média – pai, mãe e um filho – entre R$ 1.500,00 e R$2.000,00.
O salário mínimo é pouco mais de mil pratas e metade da nossa população, segundo dados oficiais do IBGE vive com cerca de R$400,00 por mês.

Mas o povo quer privatizar a saúde.

Uma escola privada, com qualidade de ensino mediana, custa pelo menos R$600,00 por mês. As mais vagabundinhas, a maioria, custam em torno de R$400,00 por mês. As mais caras, milhares de reais.

Mas o povo quer privatizar a Educação.

E por aí vai…

A publicidade convenceu o povo e a sociedade brasileira que tudo o que é público não presta, então as pessoas passaram a idolatrar o universo privado mesmo sem ter grana para pagar a conta.
A publicidade, fantasiada de jornalismo, também convenceu as pessoas a votarem em sujeitos absolutamente desqualificados, e pior, absurdamente descompromissados com políticas públicas.
Salvo raríssimas e honrosas exceções, não há mais dirigentes públicos, apenas agentes privados, eleitos pelo voto popular, para assumir o controle da máquina pública e colocar seus recursos à disposição do mercado.
O povo aplaude isso de maneira entusiasmada. Cada vez mais as pessoas adulam valores privados e rejeitam valores públicos. Cada vez mais o interesse individual se sobrepõe ao interesse coletivo.
Podemos chamar isso de qualquer coisa, menos democracia, pois democracia pressupõe valores coletivos.
O fato é que o povo aderiu, pelo menos temporariamente, a esse modelo individualista, privatista e umbiguista.
É claro que não haverá recursos para todos satisfazerem suas vontades, seus fetiches de consumo, muito pelo contrário.
No “vale quanto pesa” a grande maioria população tem peso pena, ou pluma, ou mosca, mas nem sequer suspeita disso.
Quando tudo entrar em colapso pela concentração de todos os poderes e todas as riquezas nas mãos de pouquíssimos, a ficha vai cair. Mas talvez já seja tarde.
Os donos do dinheiro podem até oferecer banquetes para seduzir o distinto público, mas na hora da onça beber água não abrem mão nem sequer das migalhas.
Mas enfim, se o povo quer, vamos privatizar tudo. Acabar com o poder público.
O Deus dinheiro dá as ordens, né?
O que se há de fazer…

VICENTE PORTELLA


Vicente Portella

Nascido em Duque de Caxias, é escritor, compositor e poeta. E tricolor.

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