Este ano, por conta da pandemia e suas necessárias restrições sanitárias, não haverá a tradicional Festa do Arremate, promovida anualmente por volta do dia 20 de janeiro pela Folia de Reis Reisado Flor do Oriente.
Esta parece ser uma pauta “menor”, se comparada às grandes discussões políticas que afloram no momento tenso que o país atravessa. Mas, olha, não sei não, hein… Há algo aí nesse miolo que linka uma coisa a outra em algum nível – e investigar isso tem sido uma das tarefas que mais tem me seduzido.
Primeiro é preciso apresentar um basicão. O Reisado Flor do Oriente é uma folia de reis que no próximo ano completa cento e cinquenta anos de existência, que começou num núcleo rural em Minas Gerais e que há várias décadas é radicada em Caxias. Todo ano, infalivelmente, cumpre seus rituais de fé e coletividade no bairro de Vila Rosário, numa das regiões de infraestrutura urbana sofrível dessa cidade rica, violenta e brutalmente desigual. A Festa do Arremate é um encontro tradicional que marca o fim da jornada dos Santos Reis, que começa no Natal, tem seu ápice no dia 06 de janeiro e termina dia 20, na Charola de São Sebastião.
A Festa do Arremate é um exemplo riquíssimo do paradigma humano que a cultura do povo brasileiro construiu mesmo massacrado há séculos. Chamo de paradigma da generosidade. País a dentro, quem vive de perto e quem se despe do intelectualismo rasteiro, vê que é um outro modo de viver, diferente do paradigma da escassez, da mesquinharia, da maquininha na porta, dos currais vips em que a maior parte da classe média brasileira gosta de circular e que tem como referências éticas.
Assim como tantas festas populares, os bois, as festas de santo, os maracatus, os pagodes “água no feijão que chegou mais um” e tantas outras manifestações, na Festa do Arremate a comida é farta, a recepção é calorosa e a solidariedade é natural. Quem tem um pouco mais, chega junto na vaquinha, ou doa alimentos, ou doa trabalho na cozinha, na ornamentação, na música, na recepção, no cuidado com as crianças e com os mais velhos. É outra parada.
No caso do Reisado Flor do Oriente, a Festa do Arremate acontece na sede do grupo, uma casa com um terreiro vivo, receptivo, onde o respeito, a fé e a alegria comandam e contagiam. Da folia participam os mais velhos, jovens e crianças, tendo o núcleo familiar principal os descendentes dos fundadores láááááá detrás. E hoje é o atual Mestre, Rogério e a Alferes Leonor Moraes, a Nôra, de frente, mas se vê também é o palhaço que rima na folia e brilha como cantor de funk, é a molecada da bateria que não perde o compromisso, é a galera que segura figurino e costura, a criançada que acompanha extasiada.
Todo ano a festa é um acontecimento que nem sei descrever direito… Depois de desfilar pelas ruas do bairro, visitar casas, seguir todos os rituais de canto, rezas e preceitos, a folia chega em sua sede e começa a festa em si, por volta das 20 horas.
É servido o mesão de comida para os membros, para convidados e para quem chegar. A festa segue, vende-se cerveja para o público, que chega junto para fortalecer o evento. Na rua, sempre cheia, começa o burburinho contagiante dos fogos anunciando que chegou uma folia visitante. E aí é incrível o que acontece… A folia visitante sobe o morro até a sede e na porta é recebida pelo povo da rua e pelos anfitriões, os palhaços das duas folias versam, há reverências às duas bandeiras e depois do ritual os visitantes entram na sede e partilham da comida e da alegria bonita da casa.
Agora pense que já teve ano que a festa só acabou no domingo de tarde, tendo a marca de mais de quinze folias visitantes, todas cumprindo esse mesmo ritual, madrugada a dentro até o dia raiar. E é esse o ponto que quis chegar, o comentário que fiz no início.
No ano passado, enquanto esperava o Reisado Flor da Primavera subindo efusivamente o morro, com o incrível Mestre Boquinha, o Poeta, de frente, me veio uma constatação num lampejo. Eram mais ou menos uma hora da manhã de um sábado pra domingo e contei umas talvez quinhentas pessoas no entorno da sede, entre barraquinhas de várias coisas, jovens ouvindo funk, casais, crianças, curiosos, jornalistas, entusiastas da folia, fotógrafos, vizinhos com cadeiras nas calçadas. Depois pensei que diretamente na folia, entre familiares e agregados, umas cinquenta pessoas; mais umas quase cem da Flor da Primavera. Depois fui acrescentando estimativas acrescentando as outras folias visitantes, tirando essa média de envolvidos. Depois fui lembrando que as folias da Baixada são bem menos que outrora, mas ainda assim, são várias. E pela cidade do Rio, nas favelas principalmente, e em todo o interior do Estado elas estão sempre aí, ainda que algumas capengando, lutando pela manutenção da sobrevivência, muitas passando dificuldades financeiras pesadas, muitas desacreditadas, mas sempre aí, há séculos.
E de repente me veio essa percepção: as folias de reis envolvem milhares de pessoas no Estado do Rio. Milhares. Ainda que muitos não pensem assim, as folias são coisa do presente. E que não são consideradas à altura do que representam em termos de números (em termos de “importância cultural” até rola, principalmente pra quem olha a cultura como algo congelado no tempo, rígida, uma visão bem triste e tacanha).
É preciso olhar para essas ações “invisíveis” e dar suporte para que se mantenham, para que se retroalimentem, para manter importantes laços comunitários, que se fortaleçam ainda mais, e nisso o papel do Estado é fundamental.
E faz lembrar outras atividades que também ficam embaixo desse véu de desconsideração que invisibiliza de fato: os blocos de enredo, as quadrilhas juninas (sim, elas existem e ainda movimentam gente à beça!). As rodas culturais também podem se encaixar nessa visão de certa forma; só em Caxias, por exemplo, são mais de dez rodas que reúnem milhares de jovens em torno da música rap, da poesia, da dança urbana e do grafite. Só pra ter uma ideia, uma roda como a Batalha do Raul Cortez reúne cerca de duzentos jovens numa terça-feira no centro da cidade – e também é um fenômeno que fica nessa margem entre a invisibilidade e a incompreensão. Isso tudo somado não é pouca coisa, são números expressivos e representam vontades, desejos, subjetividades que por vezes não se veem encaixadas nas ações institucionais e nos estudos estabelecidos.
E aí pra fechar é que fica esse catuque que me vem sempre à mente. Será que não levamos pouco a sério mesmo esse povo que apronta isso tudo e dá aulas de vida e organização? Às vezes ficamos olhando só pra “grande política”, pras “grandes questões” e esquecemos de ajustar as lentes para olhar pra dentro de nossas cidades, de nossos bairros, de nossas ruas… Onde se escondem muitas vezes as pessoas que podem nos ensinar tanto essas matérias que nos têm feito falta, como a solidariedade, a generosidade, a abundância, a comidaria, a festa, a alegria de viver mesmo a despeito de uma vida de massacre diário.
Viva as folias de reis. Viva o Reisado Flor do Oriente e o Reisado Flor da Primavera. Viva as festas do povo em todos os rincões desse país, cujos ensinamentos são muito maiores do que esse fascismo tosco e violento que tem nos aterrorizado.
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[ heraldo hb – pitacolândia – 20 de janeiro 2021 ]

heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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