“Eu daria tudo o que tivesse, pra voltar aos dias de criança…”. Este é o primeiro verso do samba Tempos de Criança, um clássico na obra de Ataulfo Alves, lançado na década de 1950 e hoje incluído em toda antologia da música brasileira que se dê o respeito. Na sequência da letra, o autor faz desfilar uma série de lembranças infantis, a exemplo da professorinha, do primeiro amor de infância, do jogo-de-botões na calçada. Tudo reminiscências comuns aos que cresceram na era pré-tecnológica, quando criança brincava de verdade.
Gosto de relembrar a minha infância, vivida numa localidade considerada zona rural, que depois virou área urbana e hoje é só uma extensão do complexo de favelas da Mangueirinha, em Duque de Caxias. Lembro com prazer dos banhos de chuva na rua, do pique-bandeira que rolava toda noite, das menininhas de quem disputávamos avidamente a atenção. Contudo, eu não daria nada que tivesse pra voltar a esse tempo. Aliás, me recusaria a voltar a qualquer tempo da minha vida. Defendo que cada ciclo vital tem seus próprios encantos e desencantos, e a meninice não escapa a esta visão.
Não gostaria, por exemplo, de retornar àquela educação repressiva, imposta pela trilogia família-escola-igreja. Era um tempo de “homem não chora… menina tem que ter modos… criança não se mete em conversas de adulto…”. Obedecer era o verbo a se conjugar, em todos os tempos e modos. Aos desobedientes, castigos – preferencialmente físicos – pra “entrar na linha”. Aos meninos insubordinados (como eu fui) a ameaça (e até a consumação) do colégio interno: “ali você conserta”. E como se não bastasse, ainda tínhamos que tomar Emulsão de Scott, antes das refeições. Arrg!!!
É preciso reconhecer as boas intenções maternas, ao submeterem seus filhos à ingestão da Emulsão de Scott. Afinal, neste derivado do óleo de fígado de bacalhau há propriedades que estimulam o apetite e fazem engordar. E quem não quer ver seus filhos papando tudinho – principalmente quando têm o que papar – e ganhar uns quilinhos a mais? No meu caso específico, mesmo tomando em demasia esta poção, seus efeitos funcionaram como meia-verdade: permaneci com o porte esquelético que ainda tenho, mas, em compensação, abriu meu apetite de tal forma que até hoje não fechou.
Tomar Emulsão de Scott é uma das piores lembranças que trago da infância. Quem passou por esta “sessão de tortura” sabe bem do que estou falando. Aquele líquido branco, leitoso e gosmento, com gosto de roupa suja, só pode ser comparado (em sabor, cheiro e aspecto) ao esperma do diabo. E tinha que engolir, sob vigilância. Depois, podia-se comer o melhor prato do mundo, mas os primeiros arrotos vinham com a marca Scott. Eu sei, há quem discorde de tudo o que eu disse, elegendo esta emulsão uma das maravilhas da meninice. Ponho em dúvida a sanidade mental dessas pessoas, da mesma forma que faço com quem lamenta não ter apanhado o bastante dos pais.
Aos dez anos de idade fui parar num colégio interno. Como todo estabelecimento desse gênero, o Instituto Thomaz Edson, no Meyer, era uma espécie de reformatório de meninos insubordinados, assim como eu, embora da rede particular. Minha mãe, ciosa de seus deveres, preparou meu enxoval, incluindo objetos de higiene pessoal, arrumou tudo na mala e me entregou aos cuidados da diretora, dona Dionília. Lembro bem que à hora do almoço, me veio à mente a Emulsão de Scott, que dona Elza havia esquecido de pôr na bagagem. Respirei aliviado e cheguei a pensar: Até que internato nem é tão ruim como dizem.
No segundo domingo do mês era dia de visita. Foram me ver a minha mãe, minha irmã e alguns parentes. Após tirar de uma sacola algumas fatias de bolo de chocolate e umas frutas, a matriarca da família chamou a diretora, a quem entregou um pequeno embrulho, e recomendou:
– Olha aqui, dona Deonília. Eu trouxe a Emulsão de Scott, que ele tem que tomar todos os dias, antes das refeições.
– Pode deixar, dona Elza – respondeu a megera -, vou pôr no escaninho dele, na rouparia, e dar ordem à roupeira que faça isso.
Fiquei pensando: Ih, isso não vai dar certo. Vou acabar sendo expulso desta merda. E fui, poucos meses depois.