Em isolamento social desde que foi acometido pela Covid-19, padre Gegê, atual pároco da Paróquia Santa Bernadete em Manguinhos, usou as redes sociais para fazer uma denúncia de racismo eclesiástico. Padre Gegê tem relação direta com nossa cidade, pois leciona no polo PUC-Caxias e merece toda solidariedade, apoio e publicidade do Lurdinha que em coro lhe diz: “Felizes são os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus“. Segundo o Papa Francisconão se pode fechar os olhos e nem tolerar o racismo“. A palavra está com a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro que deve tomar medidas reparatórias a essa inacreditável descriminação institucional e ato de racismo contra padre Gegê

A íntegra do texto de Padre Gegê

“PADRE PRETO É ENXONTADO DA PUC-RJ COMO “GADO LEPROSO”

Há quase uma década eu, Padre Doutor Geraldo José Natalino (Pe. Gêge), tendo sido chamado para lecionar na PUC-RJ tive meu nome violenta e covardemente cortado na calada da noite pelo então bispo (branco) auxiliar da arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Paulo César Costa, hoje bispo da diocese de São Carlos (SP). O Caso de George Floyd se repete: um branco estrangula e os outros acobertam com o silêncio cúmplice. Muitas tentativas, na base do diálogo dentro da Igreja, para resolução do caso foram feitas com o poder diocesano. Mas, até o presente, não recebi sequer uma explicação. Em razão do sofrimento psíquico e emocional causado, busquei tratamento terapêutico. Recebi do médico e analista, Dr. Walter Boechat – diplomado pelo C G Jung Institut Zurich – Universitat Zurich (1979), Doutor em Saúde Coletiva e Membro do Executive Committee (Diretoria) da International Association for Analytical Psychology (Zurique, Suíça) no período de 2007 a 2013. Foi meu professor e orientador na pós-graduação em Psicologia e meu analista nalgumas estações da via-sacra da minha vida – o triste diagnóstico de ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO. Na época que fui enxotado da PUC-RJ (Gávea) dava aula num pólo de extensão (pós-graduação) da mesmíssima PUC em Duque de caixas. Ora, por que em Duque de Caxias eu podia dar aula e na PUC da Gávea não? O que a Gávea tem que Caxias não tem? Por que padre preto não pode dar aula na PUC da Gávea? Diz Abdias Nascimento no livro Genocídio do negro brasileiro: “As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar”. E diz ainda: “As populações afro-brasileiras são tangidas do chão universitário como gado leproso”. Não é esse, exatamente, o meu caso?

Esperei uma resposta (qualquer resposta) do poder diocesano por quase 10 anos. Em todo esse período fui submetido à tortura psicológica do silêncio absoluto. Quem, em sã consciência, vai dizer que 10 anos é pouco tempo de espera? Sou psicólogo clínico (PUC-RJ) e pós-graduado em Psicologia Junguiana (IBMR). Se isso não for crudelíssima tortura psicológica e violência simbólica em alto grau, rasgo em praça pública os meus diplomas, inclusive o obtido na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (na Gávea, diga-se de passagem) da qual fui enxotado como “gado leproso”, nos termos de Abdias Nascimento. Racismo adoece (e eu, comprovadamente, adoeci). Racismo MATA! “Vidas negras importam!”.

Se você é antirracista, não seja indiferente. Quem cala consente! Diz a filósofa Djamila Ribeiro: “romper com o silêncio é romper com a VIOLÊNCIA”. Por isso, para O Papa Francisco, não se pode “fechar os olhos e nem tolerar o racismo”. Então, eu estou como Papa e o Papa está com os antirracistas. NÃO LUTO CONTRA BISPO ALGUM, TAMPOUCO CONTRA A IGREJA. LUTO CONTRA A “KU KLUX KLAN ECLESIÁTICA”. LUTO PELO MEU DIREITO DE, COMO NEGRO, SER TRATADO COMO GENTE, COMO PESSOA, COMO UM SER HUMANO! E isso é exigir demais? BASTA DE VIOLÊNCIA RACIAL NA IGREJA!

Sempre tive muitas críticas a Dom Eugênio de Araújo Sales, bispo que me ordenou padre. Mas, verdade seja dita, ele nunca faria isso com padre algum. Se ele, enquanto autoridade maior da diocese, não quisesse que eu lecionasse na PUC, teria dito um “NÃO” olhando em meus olhos. Sou psicólogo, como disse, e sei que um “não”, devidamente expresso, também é estruturante; logo, faz bem para a saúde. Agora, pior do que não ingressar na PUC é estar submetido a uma década de silêncio adoecedor e doloso. Isso é inadmissível! Essa violência tem que ser reparada! Há quase uma década o poder diocesano não me julgou digno sequer de ouvir um “não”. E como se dissesse: “você não existe!”. E isso é cruel. Acho valioso, para quem quiser, fazer breve pesquisa na internet sobre o potencial violento e adoecedor do que a psicologia chama de “vínculo duplo”. Quem pesquisar poderá compreender melhor muitas situações diocesanas na atualidade, inclusive o meu adoecimento, basta dizer que o “vínculo duplo” confunde, fragiliza e enlouquece. Escreve Sílvio Almeida no livro Racismo estrutural que “a discriminação racial tem como requisito fundamental o poder, ou seja, a possibilidade efetiva do uso da força”. O poder diocesano usou da força sagrada de sua autoridade para me violentar simbolicamente. A violência simbólica, muitas vezes, é pior e mais cruel que a física. Eu me sinto psicologicamente linchado pelo poder diocesano. Por que o mesmíssimo báculo que protege e acaricia a alguns (“os queridinhos”), espanca a outros? Eu só queria (e tenho competência, formação e o direito) trabalhar com dignidade, e nada mais… Conforme diz, o psiquiatra da Martinica Franz Fanon, eu só queria “ser um homem entre outros homens”. Mas esse sagrado direito me foi macabra e violentamente roubado. Escrevi na introdução de minha tese de doutorado: “a diocese bateu sua porta branca em minha cara preta”. A dor é narrativa das vítimas e não dos carrascos. E tanto nos inúmeros casos de pedofilia, amplamente divulgados, como nos casos de racismo, a Igreja tem uma forma sutil, misteriosa e assustadora de dizer às vítimas: “cale a boca”! Mas adverte e ensina Djamila Ribeiro: “ter direito a voz é ter direito à humanidade. Então, quando eu não tenho direito à voz, a minha humanidade está sendo negada”.

Dia 18 deste mês completo 26 anos de padre. Com constrangimento e sofrimento interior vou compartilhar o diagnóstico de ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO que recebi. Vou expor minha ferida aberta – o fruto das chicotadas simbólicas que recebi (e recebo) impiedosamente da Diocese do Rio de Janeiro. É hora de o mundo saber com quantos “joelhos brancos” e com quantos “George Floyds” se faz uma diocese.
As dores que ainda hoje sinto das feridas abertas em minha psique denunciam que o báculo tendencioso, pusilânime e escapista da suprema autoridade diocesana deixou de ser apenas questão de Igreja para se tornar também questão de ameaça à saúde e à integridade. Digo isso não só como autoridade no campo da psicologia mas, sobretudo, como VÍTIMA.

E faço saber, pelas trouxas de roupas das patroas brancas que minha mãe carregou na cabeça profanando os seus cabelos, que será razão de repúdio público se alguma autoridade na face da terra se utilizar do Direito Canônico para proteger o carrasco e punir a vítima que sangra. Não vou admitir, em memória de meu velho pai, que tanta humilhação sofreu em serviços subalternos, que o Direito Canônico seja usado como Donald Trump quis usar a Bíblia Sagrada. O Direito (Canônico ou não) que sacraliza e encobre a violência, ipso facto, deixa de ser direito. Meu único crime na Igreja é ser negro. E é crime ser negro? Por que insiste a Diocese do Rio em cuspir nas páginas da V Conferência do Episcopado (Aparecida) que não só reconhecem como se opõem ao processo sistemático de segregação da população negra e afirmam, em contrapartida, o necessário processo de “descolonização das mentes”? São palavras mortas? Assumo, pois, de punho cerrado a pauta descolonizadora. É hora de dizer NÃO ao racismo esclesiástico. Racismo ofende, racismo inferioriza, racismo adoece, racismo mata!
E que chegue ao Papa a notícia do meu BASTA!

“QUEM É QUE VAI PAGAR POR ISSO?”

ENQUANTO NAO HOUVER JUSTIÇA RACIAL A DIOCESE RACISTA DO RIO NÃO TERÁ PAZ!

Fogo no Engenho!
Padre Doutor Geraldo José Natalino (Padre Gegê)”


Marroni Alves

Filho, neto e bisneto de pernambucanos, Cidadão Baixada nascido no Hospital Duque, professor de História da Educafro, jornalista, tricolor e portelense. Nem sempre tudo nesta ordem.

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