Ao ser condenado à morte, em 399 a.C, Sócrates, em seu último discurso, jogou na cara de seus algozes a certeza de que conhecia o porquê de sua condenação.

Mais que uma auto-defesa, sua fala foi uma profecia.

“… Senhores, eu já fui muito longe para me defender das acusações de Meletos. Não estou aqui para falar em meu benefício, mas no vosso.

Se tivésseis a sabedoria de esperar mais um pouco, vosso desejo de me extinguir seria satisfeito pela própria natureza. Tenho setenta e dois anos – sou bem velho como vedes – e não muito distante do fim.

Se me matardes agora, porém, todos os detratores de Atenas se apressarão em gritar que matastes Sócrates, um sábio. Pois sempre que quiserem vos atacar, eles me chamarão de sábio, mesmo que não o achem.

Serei condenado não por corruptor mas pela inveja e perfídia dos ambiciosos, que tem provocado a morte de tantos varões íntegros e pelos séculos afora provocarão a morte de muitos mais.

Não podeis me ferir, porque não podeis me atingir. Podeis apenas matar-me, exilar-me, ou cassar meus direitos políticos.

Mas eu não sou o primeiro; e não há perigo que eu seja o último”.

(Dos documentos publicados nos Great Books – editados pela Enciclopédia Britânica – traduzidos parcialmente por Millôr Fernandes e Flávio Rangel, para o espetáculo Liberdade, Liberdade – 1965)