A viagem começa de manhãzinha
Na antiga estação Meriti, freguesia
Por onde passou a primeira ferrovia
Que hoje está eletrificada, moderninha.

Embarquei em Caxias – céus, que fila!
Quanto mais entrava, mais gente cabia
Procurei algum camelô… “ô, senhor!
– Por favor, ‘mê-vê’ duas pastilhas!”

Mas, logo o trem chegou, sorrateiro
Alvoroço e gritaria – um formigueiro!
Empurrões, pisões de pé, cotovelos…
Consegui me segurar num bagageiro.

Em pouco tempo ele partiu – nada mal!
As pessoas se acomodaram ‘na moral’
Entre sacolejos e apitos, tudo normal
Em minutos já estava em Vigário Geral.

Reconheci, entre-rostos, meu velho amigo Duda
Companheiro das rodas de carteado e de sinuca
Um bon-vivant, filho de português com brazuca
Nos despedimos, ele desceu em Parada de Lucas.

De repente, uma baita confusão – takilpariu!
Passaram a mão numa dama – onde já se viu?
– Assédio é crime, “mermão!”, que imbecil!
A policia desceu com ‘tarado’, em Cordovil.

O trem esvaziou um pouco em Brás de Pina
Consegui ver, através da janela, as colinas
Morro da Fé, Sereno, Cruzeiro, Fazendinha
Embora ainda houvesse alguma neblina.

Do outro lado o sol ardia, claro e de rachar
Refletia no alumínio das janelas, a cintilar
Tirei a vista daquele brilho a me cegar
E quase não vi chegar à Penha Circular.

Não sou um bairrista, mesmo que convenha,
Nem estou aqui para ficar fazendo resenhas.
Mas, não me furto em citar algo que me atenha:
Meu coração se alegra quando passo pela Penha.

Ali, da estação, antes se via a igreja – quem diria!
Adorava olhá-la contra o céu azul – que terapia!
“Um tempo que passou” e enquanto me absorvia
Nem percebi que já estava chegando em Olaria.

Enfim consegui um assento, em Ramos
Bem ao lado de um homem roncando.
Mesmo com o trem trepidando tanto
Ele dormia feito um urso hibernando.

“Deve estar muito cansado”, compadeço,
Para dormir daquele jeito num expresso
A vida é assim mesmo, nem me estresso
Ainda bem que já estou em Bonsucesso!

Manguinhos veio logo depois, lá no alto
Mas, antes era embaixo, mais para o lado
Há algum tempo atrás, num sobressalto
Lembrei que já presenciei ali um assalto.

Mas, repentinamente o tempo virou – que friagem!
Parecia que havia uma geladeira aberta na viagem
Coloquei o casaco e aumentei minha “plumagem”
Foi quando notei, então, que estava em Triagem.

Uma moça muito bela acompanhada duma anciã
Segurava um livro com uma imagem de Iansã
Ela ajeitou os cabelos da octogenária cidadã
Levantaram-se e desembarcaram no Maracanã.

Às vezes fico pensativo, olhando o povão
Suas dificuldades e sacrifícios, como se vão
Nessa correria de viver à enriquecer o patrão…
– Devaneios filosóficos perto de São Cristóvão.

Através do auto-falante o maquinista anuncia
Que na próxima parada nossa viagem termina
Estação Central do Brasil, hoje é o fim da linha
Que por muitos anos terminava na Leopoldina.

Na próxima vez que for rimar no trem
Penso que posso ir até um pouco além
Pois, as outras paradas que por lá têm
Fazem parte desta história, também:

Gramacho, Campos Elíseos, Primavera
Corte Oito, Saracuruna, Suruí e et cetera
Esticarei versos aonde trilhos houveram
Quem sabe, até mesmo subirei a serra!

(Por Alberto Ellobo)
https://lubidigoro.blogspot.com/