Fiquei um tempo pensando se era assim que eu deveria começar meu relato, mas não tinha como ser diferente: perder a mãe na infância atravessa qualquer outra memória. Minhas lembranças de infância são divididas entre “antes de 1989” e “depois de 1989”. Durante muito tempo não lembrava do meu pai antes dos 7 anos. Não que ele tenha sido um pai ausente, mas é que parece que meu cérebro deu um jeito de preservar apenas as memórias maternas, era o subconsciente preservando a lembrança da minha mãe. Hoje lembro de algo aqui e ali e sei que ele também estava lá. E da minha mãe, a lembrança mais viva são seus grandes olhos castanhos. E tem uma sensação que não sei explicar, do carinho, do toque da sua mão segurando a minha… Não lembro do som da sua voz, menos ainda de seus cheiros. Com ela sinto que passei a maior parte do meu tempo até os 7 anos. Depois dela, nenhum outro adulto parece ter ocupado tanto tempo no meu cotidiano. Sem ela, cresci bicho solto. E não dá pra dizer que isso foi algo ruim…

Ela trabalhava fazendo unhas e com venda de cosméticos, roupas e coisas pra casa (pano de prato, potinhos, roupinhas de botijão de gás, etc). Hoje, quando os mais velhos me falam dela, todos dizem que ela era bastante alegre e batalhadora. Andava de um lado para o outro com suas grandes sacolas onde carregava peças de jeans comprados em Vilar dos Teles, a capital do jeans nos anos 80. Foi no Vilar dos Teles nossa primeira casa com caquinhos de mármore no quintal. Com ela, eu atravessava a Baixada, mesmo sem fazer ideia de que estava atravessando a Baixada. Ao lado dela me lancei na metrópole. Andava com ela de um lado para o outro. Morávamos no bairro do Bom Pastor, numa região que hoje é uma das mais pobres de Belford Roxo; comprávamos as roupas que ela vendia em Vilar dos Teles, São João de Meriti; manicure disputada, ela fazia unhas de outras mulheres em Jardim Primavera, Duque de Caxias e na Vila Emil, bairro que na época pertencia a Nova Iguaçu e hoje é território do município de Mesquita. Mas eu gostava mesmo era de ir com ela pro Leblon, onde morava minha madrinha, a filha da primeira patroa que minha mãe teve ao chegar no Rio de Janeiro, em 1970, com 18 anos. Quase todo mês eu ia pro Leblon.

Não era o Leblon que me agradava, era o Metrô. Andávamos sempre de metrô quando íamos para o Leblon. Só pra me agradar, hoje entendo. Descíamos do trem na Central, passávamos pelo campo de Santana pra ver os pavões e cutias e então pegavamos o metrô na pres. Vargas e descíamos na Carioca ou em Botafogo, dependendo da quantidade de bolsas que ela estivesse carregando. Eu, óbvio, gostava mais quando descíamos em Botafogo, pois a viagem seria mais longa. O metrô tinha duas coisas que o trem não tinha: escada rolante e o “buraco”. Na estação eu me pegava imaginando grandes minhocas que teriam escavado as rochas por onde depois os engenheiros teriam colocado os trilhos. Eu torcia para que nenhuma minhoca aparecesse de surpresa.

Do Leblon eu não gostava só do metrô, mas também das praças com brinquedos e da praia. Certamente é da arrebentação do Leblon que vem meu prazer em tomar caixotes nas ondas do mar (sim, é uma diversão estranha, mas, de perto, quem não é estranho?). Eu passava as férias em Jardim Primavera, onde moro hoje, e naquela época era tudo mato. Passava alguns dias sem ela, brincando de bolinho de barro, subindo em jaqueiras, cajueiros e mangueiras. Comia a fruta do pé. Corria dos cabritos e aprendi desde novo a respeitar os gansos. Quando ela morreu, fui morar onde eu passava as férias. Dois anos depois com meu pai, na Prainha, em Duque de Caxias.

Depois dela eu passei a circular muito menos. Fosse em Jardim Primavera ou na Prainha, não havia motivo para sair do bairro no cotidiano: A escola era ali, os amigos moravam na mesma rua… E minha vida se resumia a isso: estudar e brincar. Os deslocamentos se transformaram em eventos, geralmente associados às férias ou feriados prolongados. Mas o espírito andarilho já era parte de mim e eu andava o bairro todo. De bicicleta, na maioria das vezes. Aos 9, eu era a única criança da rua que sabia andar numa bicicleta grande (e foi com a mãe, lá no Bom Pastor, que andei numa bicicleta sem as rodinhas pelas primeiras vezes). Mas eu tinha medo de andar na rua dos ônibus e, pra fugir deles, me aventurava num pedaço do bairro, de alguns quarteirões, que por reunir várias fábricas e empresas acumulava duas qualidades: era seguro pois as empresas tinham seus seguranças em guaritas a cada esquina e era pouco movimentado. Praticamente não tinha movimento de carros fora dos horários de entrada e saída de funcionários. Lá eu deitava minha bicicleta num gramado com frondosos abricós de macaco que perfumavam minhas tardes lendo as revistinhas da turma da mônica ou O manual do escoteiro mirim.

Lá pelo meio da adolescência, a atuação que tive na pastoral juventude da igreja do bairro acabou me levando a outros bairros, outras paróquias. E voltei a andar pela Baixada. Agora sabendo se tratar da Baixada. E agora com as próprias pernas. E nas andanças, as vezes eu me emocionava com as lembranças borradas de lugares por onde eu já havia passado. Uma vez, no caminho do ponto final de uma determinada linha de ônibus até uma praça no centro de São João de Meriti, passei em frente a um supermercado onde eu tinha certeza que já tinha estado. Naquele mercado, quando eu tinha uns 5 anos, minha mãe comprou pela primeira vez um pacote de biscoitos croc (que se tornou meu biscoito favorito até a chegada do Bono) e também um disco de vinil de um grupo chamado Carrossel. Lembro desse vinil pois ele vinha com peças de papelão que montavam um carrossel que a gente colocava no miolo do disco pra ficar girando enquanto tocava a música.

Quando eu tinha 7 anos minha mãe morreu. Eu ainda sinto sua ausência, mas na maior parte do tempo não estou triste por isso. Segui minha vida. Botando o corpo no mundo, atravessando fronteiras e desvendando lugares.

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Tadeu Lima