Tem coisa na sociedade que definitivamente não dá para entender ou que na verdade dá para entender totalmente, bastando para isso usar um pouquinho a mais da massa cinzenta de dentro da cabeça. Uma dessas coisas incríveis, que parecem inexplicáveis, é como a prática de centros sociais mantidos por políticos ainda não é criminalizada exemplarmente.

E como não se faz a ligação explícita entre esse tipo de assistencialismo e a perpetuação da qualidade rasteira da política pelo país a fora, com destaque para nossa Baixada Fluminense.

E o link é esse: não é nenhuma coincidência que a Saúde seja tratada de forma tão relapsa e criminosa. Assim como a falta d’água crônica e uma rede de educação pública sucateada, a Saúde sendo “oferecida” pelo político local é um dos motores que sustentam a máquina política tal qual ela se encontra hoje. É essa relação de dependência que faz com que tantos políticos toscos consigam ano após ano manterem-se nos cargos públicos, muitas vezes com expressivas votações nos rincões mais abandonados pelo Poder Público.

O caso de Caxias, então, é emblemático. Aliás, basta acessar a memória ou as publicações e pesquisas da época para confirmar que a Saúde foi o principal cabo eleitoral responsável por levar o deputado Washington GReys à prefeitura em 2004. Além de uma rede de vereadores com seus centro sociais, os marqueteiros da campanha souberam aproveitar as pesquisas que apontavam a Saúde como a maior deficiência do município. Manutenção de postos 24 horas e a criação de um hospital foram a tônica da campanha naquele momento, fazendo o povo embarcar na candidatura em busca de melhorias no setor. Mas olhando hoje, passados oito anos, a Saúde ainda é calamidade pública na cidade… E a questão é de fato falta de prioridade e interesses outros.

Bastasse (aliás, basta) perguntar a qualquer cidadão sobre o que avaliaria como prioridade e apareceria disparado o desejo de ter uma rede de saúde funcionando com qualidade.

Mas ao contrário disso, milhões foram gastos em um desastroso mergulhão e e em uma discutível reforma do centro da cidade, com suas calçadas coloridas, chafarizes secos e palmeiras imperiais. E colocando no mesmo pacote o governo Adriene, digo, Moacir do Carmo, temos aí um passivo de mais de duas décadas de caos e abandono.

Não é coincidência. A verdade crua é essa: não há interesse em investir em Saúde e Educação de qualidade enquanto o modelo político-eleitoral estiver configurado na forma em que está.

O grosso da classe política local PRECISA estabelecer relações de dependência sempre, sob pena de não conseguir manter seus currais eleitorais comendo em suas mãos.

É visível que o país vem lentamente sendo passado a limpo nessas três décadas pós ditadura, independente das avaliações partidárias e exaltadas que possam dizer o contrário. Mas é preciso avançar com rapidez e é no município que a mudança precisa ser ainda mais rápida e profunda, com a ampliação de iniciativas que envolvam a participação popular nas decisões. Repudiar práticas como as chantagens eleitorais comezinhas baseadas em centros sociais falcatruas, dentaduras, time de camisas e quejandos é uma das maiores ações de vigilância para aprofundar a democracia no país e romper com o atraso comum nas terras onde as práticas coronelistas ainda são marcantes. Caso de nossa contraditória Duque de Caxias, onde o dinheiro jorra em quantidade e o povo vive largado.

Com a campanha eleitoral pela televisão pegando fogo de fato, chega a ser deprimente o festival de promessas e conversas fiadas que pululam na telinha. E advinha quem está lá de novo, toda comentada, prometida e embalada para o freguês? Sim: ela, a Saúde. E com ela a lembrança de que enquanto houver essa relação de dependência nossa frágil democracia vai capengando, capengando, sem um tratamento médico adequado e a tempo…


heraldo hb

. Animador cultural, escritor e produtor audiovisual nascido no século XX. .

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