Em tempos difíceis como os atuais, em que Parada Angélica aparece nos noticiários como “favela”, sendo disputada por facções, sinto-me motivado a publicar esse texto que elaborei ano passado na ocasião do curso “Escola – Lugar de Memória, Pesquisa e Experiências em Educação Patrimonial”, promovido pelo CEPEMHEd, a partir de uma experiência enquanto professor de EJA no Ciep 407.

 

HISTÓRICO DA UNIDADE ESCOLAR E SEU ENTORNO

O CIEP 407 – Neusa Goulart Brizola teve sua construção inciada no ano de 1993, na comunidade chamada Vila Esperança, em Parada Angélica, sendo entregue à comunidade em maio de 1998.

Ciep 407, anos 90. Acervo CRPH

A chamada Vila Esperança começou a ser formada no início dos anos 90, através da ocupação de terras outrora pertencentes ao Ministério da Cultura.

O CIEP está localizado na Rua Real Estrela, S/N. Esta via teve uma grande importância na História do Brasil, pois pertencia ao Caminho Novo, ou de Proença, o principal escoadouro de ouro mineiro, desembocando no Porto Estrela. Em seu trajeto há vários totens que sinalizam a Estrada Real, tendo um bem próximo à entrada do CIEP.

Quando o Barão de Mauá construiu a primeira ferrovia brasileira, o Porto Estrela perdeu a sua importância. Contudo a região do entorno do CIEP continuou em evidência, uma vez que o trem que partia da Leopoldina em direção a Petrópolis passava por lá. O nome do bairro tem essa origem: Parada Angélica era o nome da parada do trem.

Assim como toda a baixada, a região se desenvolveu nos arredores da ferrovia. Posteriormente, a ligação com a Avenida Automóvel Club tornou o bairro ponto importante na subida de automóveis à cidade serrana. Parada Angélica virou um ponto de cultura do município, sendo palco de diversos bailes e abrigando uma sala de cinema. A praça em frente a estação era uma referência, tendo ainda por característica uma grande Igreja dedicada à Nossa Senhora de Fátima.

Praça de Parada Angélica, anos 70. Acervo CRPH
Praça de Parada Angélica, anos 70. Acervo CRPH

Em 1943 foi inaugurado o Campo de Multiplicação de Sementes, pelo Ministério da Agricultura. Foi ainda instalada no local a Escola Agrícola Parada Angélica. O campo de futebol ao lado do CIEP é chamado Campo do Arroz por causa dessa origem.

Início da ocupação, nos anos 90
Início da ocupação, nos anos 90. Acervo CRPH

Após a desativação do Campo, com o tempo a população começou a ocupar as terras abandonadas, dando origem a duas vilas: a Vila Esperança, nos arredores do CIEP, e a Vila Getúlio Cabral, um pouco mais a frente, na mesma Rua Real Estrela. Então, no início dos anos 90, as terras foram transferidas da União para a esfera estadual. O então Presidente da República, Fernando Collor de Melo, e o Governador do Estado, Leonel Brizola, estiveram pessoalmente na região, assinando os documentos na presença de políticos e lideranças locais, e da população, dando início também às obras de pavimentação. Contudo, somente a Real Estrela e a rua em frente ao CIEP, Michele Carrara, foram asfaltadas na ocasião.

Transferência das terras da União para o Governo do Estado do RJ
Transferência das terras da União para o Governo do Estado do RJ. Acervo CRPH

A grande maioria da população veio, então, morar em Parada Angélica a partir dos anos 90 e desconhece a história do bairro. Até hoje o bairro recebe pessoas oriundas das favelas do Rio, caracterizando assim uma população carente, com forte influência do poder paralelo. Segundo o Projeto Político Pedagógico:

Em algumas das áreas desta região a população vive sob a pressão da violência sendo retirado seu direito de ir e vir. Nessas áreas são comuns famílias formadas por diversos filhos de uma mesma mãe, sem a presença paterna. Muitas dessas mães ainda adolescentes, sem independência financeira, necessitam de ajuda de outras pessoas para poderem criar seus filhos, que acabam condicionados pelo elevado número de pessoas na família e a baixa renda (alguns abaixo da linha da pobreza).”

O CIEP permaneceu sendo administrado pelo Governo do Estado até 2005, quando passou pelo processo de municipalização. Em 2006, passou a ser administrado pelo município, tendo todo o seu quadro de professores alterado. Ela atende aos bairros de Parada Angélica, Santa Lúcia, Parque Caçula (Magé) e Imbariê. Por conta da falta de vagas no Ensino Noturno, a UE chega a receber alunos de Piabetá (Magé) e Jardim Anhangá, bairros mais afastados.

PARADA ANGÉLICA COMO CARTÃO POSTAL DA CIDADE – É POSSÍVEL?

No ano corrente foi feita em sala de aula uma atividade com os alunos da Etapa III da EJA, a qual consistia no primeiro momento em analisar um cartaz de uma agência de viagens e perceber os objetivos que pretendem ser alcançados através do texto que acompanha a(s) foto(s) do local enfatizado na propaganda. Foi mostrada uma propaganda sobre as praias do Ceará com o objetivo de questionar o uso dos adjetivos e locuções adjetivas no texto e discutir sobre o objetivo do autor a enfatizar as qualidades. Após, foi feito um debate e reflexão a respeito da possibilidade do bairro Parada Angélica tornar-se ou não um local propício ao turismo, comparando com as características levantadas no 1º momento. Percebeu-se que os alunos eram muito críticos com relação à sua realidade e, principalmente, com o abandono do poder público, contudo mostraram uma grande dificuldade em enumerar aspectos interessantes do bairro, que mereciam ser lembrados e destacados. Foi então mostrado em forma de slide o histórico e só após os alunos foram motivados a realizar a atividade, em dupla, que consistia em fazer um desenho daquilo que o aluno gostaria de destacar, e uma breve produção de texto, nos moldes da propaganda apresentada. Por fim eles apresentaram suas produções para os demais alunos.

Em praticamente todos os desenhos a praça ganhou destaque, talvez por conta das fotos apresentadas, mesmo a praça atual em nada lembrar a das fotos. E as produções se prenderam aos arredores da praça: foram destacados o comércio local, os supermercados, o vendedor de cachorro-quente, o ponto de ônibus e, principalmente, a Igreja. Alguns também destacaram o campo de futebol, mas apenas uma única dupla desenhou o CIEP. Deduz-se com isso que a escola não parece ser algo que mereça ser enfatizado, ou que faça parte do patrimônio de Parada Angélica. Em outras palavras, a Escola fica no bairro mas a comunidade não nutre por ela o sentimento de pertencimento.

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Uma das produções dos alunos
Uma das produções dos alunos

Se a escola não se reconhecer como lugar de memória e se não for através dela que as memórias da comunidade local sejam evidenciadas, o sentimento de pertencimento ficará resguardado apenas aos moradores mais antigos, se perdendo na medida que o tempo passar. Ao contrário, quando o conhecimento é levado aos alunos, eles tendem a se reconhecer como parte daquela história e levá-la adiante. Foi o que pode ser constatado através das produções e apresentações dos alunos a partir dessa atividade feita na Etapa III da EJA do CIEP 407.


REFERÊNCIAS