A Vila Operária respira arte. Das vielas e becos que cortam a favela localizada em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, surgiu o Meeting of Favela (MOF), o maior evento de grafite voluntário da América Latina.

Esquecida no subúrbio do Rio, ofuscada pela fama da Cidade Maravilhosa, a Vila Operária tem seus três dias de glória anualmente, quando se transforma em ateliê a céu aberto, pelas mãos e sprays de jovens e adultos, rapazes e moças, que se reúnem desde 2005 para grafitar os muros da favela. Neste ano o MOF reuniu cerca de 500 pessoas durante os dias 25, 26 e 27 de novembro.

Paulo Vinícius, conhecido como “Nex two” no grafite, 23 anos, é um dos organizadores do evento que já está na sua sexta edição. Há dois anos o rapaz, que dá aulas de grafite em escolas e instituições, sai de Cavalcante, zona Norte do Rio, para fazer arte na Vila Operária. “A galera já estava querendo se reunir para pintar, mas não havia um lugar para fazer esse mutirão. O Cajá morava aqui e deu a ideia de reunir a galera na Vila Operária”, comentou Vinícius.

O Meeting of favela é um evento aberto para todo mundo”

O nome veio inspirado no “Meeting of styles” (MOS), que é um evento de grafite fechado, que acontece em várias cidades do mundo. “O Cajá batizou o nosso evento de Meeting of favela, que, ao contrário do MOS, é aberto para todo mundo”, explicou Vinícius.

A realização do MOF é totalmente independente. “É um evento que partiu da nossa iniciativa. Colocamos dinheiro do nosso bolso para que tudo isso aconteça. As pessoas que vêm de outros estados e até de outros países, como o pessoal do Chile que está aqui com a gente, podem dormir na escola (Colégio Estadual Vinícius de Moraes), que além de ceder o espaço, alimenta todo mundo nos três dias do evento. É tudo na correria, ‘cada um dá uma parada’, e assim a gente faz o MOF”, disse Nex two.

A festa da paz

No início do MOF havia um pouco de resistência dos moradores, que confundiam o grafite com a pichação, mas passados seis anos, a população percebeu que a arte não tem limites. “Aqui é bem louco. A galera vai chegando, e os moradores com o passar dos anos, já estão perdendo o preconceito de achar que nós somos pichadores. A gente chega na comunidade e os próprios moradores pedem para que a gente pinte o muro deles”, comentou sorridente Vinícus.

Denise Alves, 34 anos é moradora da Vila Operária, aprova o evento. “Não é a primeira vez que pintam meu muro. Às vezes ofereço ou às vezes eles pedem para pintar. Eu acho bonito, gosto dos desenhos. Quando eles estão grafitando converso com eles. Com o Grafite a comunidade fica mais bonita,” conclui a dona de casa.

Por ser realizado em uma favela controlada pelo tráfico, o MOF precisou ganhar a confiança da comunidade para se firmar no calendário local, além de garantir a segurança de todos no evento. “Os bandidos não mexem com ninguém. Nesses três dias de MOF a comunidade está em paz”, falou Vinícius.

O Pão de Açúcar e o Cristo eu vejo pela televisão, mas isso só tem aqui na Vila Operária. Se eu pudesse, ficaria mais tempo”

“Grafite é arte, mas é também um estilo de vida”. É assim que definem Ricardo Athayde, 25 anos e Thiago Fheit, de 23 anos, que viajaram mais de 400 quilômetros, de Santo André (SP) até Duque de Caxias, para participarem pela primeira vez do MOF. Athayde disse que conheceu o Meeting of favela através da internet. “Alguns amigos já ligados ao grafite falaram sobre o MOF, e isso também foi divulgado nas redes sociais. Grafiti é da hora véio, nem tenho palavras para descrever esse momento. Eu vivo grafite”, desabafou Athayde.

Essa também foi a primeira vez que o grupo de amigos visitou o Rio de Janeiro. “Uns amigos saíram para visitar o Rio (capital), mas eu preferi ficar aqui mesmo. O Pão de Açúcar e o Cristo eu vejo pela televisão, mas isso só tem aqui na Vila Operária. Se eu pudesse, ficaria mais tempo”, conclui Athayde, que já estava preparado para voltar para São Paulo.

Tive uma inspiração Divina que me mostrou que o grafite é o meu Ministério. Não sei fazer outra coisa além disso”

O Meeting of favela é um evento democrático, aberto, sem preconceitos, sem limites, e isso vale também quando o assunto é religião. Artur Cordeiro, 20 anos, é um exemplo disto. Grafiteiro desde 2008, participa do MOF há quatro anos. “Sempre desenhei, e comecei a grafitar com um amigo que já estava nesse meio. Acabei me afastando do grupo de amigos porque estava ficando distante da Igreja. Mas depois tive uma inspiração Divina, que me mostrou que o grafite é o meu Ministério na Igreja. Eu não sei cantar, não sei tocar instrumentos, não sei pregar, a única coisa que sei fazer é grafitar, e é assim que eu levo a Palavra de Deus”, contou o rapaz, que sempre deixa uma mensagem bíblica nos seus grafites. O jovem participa do Grafiteen, Ministério de Grafite com adolescentes, feito pela ABC (Adolescente Batista Carioca). “As pessoas me olham grafitando, usando alargador na orelha. Nem imaginam que eu sou evangélico. Mas eu sempre procuro fazer a diferença, e essa é a forma que eu tenho de chegar nas pessoas e falar sobre Deus”, finaliza Arthur.

O Grafite transforma e traz novos horizontes para quem decidiu viver dessa arte. Felipe de Oliveira, Park, codinome no Grafite, tem 17 anos e é estudante do segundo ano do Ensino Médio. Morador da Ilha do Governador, participa do MOF há três anos. “Comecei a pichar com 12 anos. Fazia muita bagunça na escola e a assistente social foi à minha casa perguntar para minha mãe o que eu gostava de fazer. Nessa época havia sido lançada uma revista de Grafite de São Paulo, e eu me apaixonei. Eu rabiscava tentando imitar o que via. E minha mãe disse para a assistente social que eu gostava de fazer aquilo (que ela nem sabia exatamente o nome). Então a assistente social indicou o curso de Grafite na Casa de Cultura Elbe de Holanda”, contou Park.

   

Amigo de Park, Luiz Cláudio Oliveira, também morador da Ilha, também era pichador antes de fazer o curso de Grafite. “Quero ser profissional do Grafite. Vou fazer faculdade de Artes Plásticas”, comentou o rapaz, que já planeja o futuro. A terceira integrante do “bonde da Ilha”, Amanda Araújo, ou Dix, de 15 anos, também vê o Grafite como profissão e retira inspiração das grandes grafiteiras que estão invadindo uma área que era quase exclusiva para os homens. “NA galera recebe bem as meninas no grafite. No curso que eu fazia eu era a única garota. Hoje em dia só tem meninas lá. A professora do curso já ganhou três vezes o prêmio de destaque de Grafite”, falou Dix.

A cultura se constrói na rua, que é um espaço público, e ocupá-la é um direito nosso”

Mas o Meeting of favela não se resume ao Grafite. O evento reúne diversas artes, trazendo vida, cor e música para a Vila Operária. Crianças, velhos, homens e mulheres, moradores e até estrangeiros disputam um espaço nas ruas estreitas que recebem os garotos B-boys, malabaristas, poetas do rap improvisado e curiosos. Tudo ao som do Hip-hop, reggae, funk. Para quem não está acostumado com essa união e interação artística, pode parecer louco estar em um lugar com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Convidados para tocar no MOF, a Orquestra Voadora, já conhecida nos circuitos culturais do Rio, fez uma apresentação empolgante que balançou comunidade durante o concerto ambulante. “Tocar aqui foi sensacional. Essa tipo de evento, com a integração das artes e das pessoas é dos que eu mais gosto de participar e, para mim, é uma honra estar aqui com a Voadora”, disse Juliano Pires, o Juba da Orquestra Voadora.

“O que mais gostei durante a nossa apresentação foi a interação dos garotos B-boys fazendo um diálogo com a gente na base do improviso. Também foi legal quando a acompanhamos a galera do hip hop, fazendo as rimas na hora. As pinturas são incríveis. A cultura se constrói na rua, que é um espaço público, e ocupá-la é um direito nosso”, concluiu o músico.